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velha infância

Eu tava vendo fotos. E comecei a ver histórias. E capítulos das nossas vidas, e versos de Cecília Meirelles. 
E banhos no mar da praia de Pau Amarelo, com dona Creuza levando vitamina de banana pra gente. E "bozeguins" nos queimando no mar e a gente verde de picrato de butezin. 
E me chegaram as viagens de ônibus pro Colégio. Os tuppewares com nescau pro lanche. E as luas com ciranda na beira do mar.
Foram talvez estas lembranças que instigaram a saudade.
Te liguei ontem, mas não soube poetizar ou prozear...
Hoje veio o mesmo cheiro, aquele da safra de manga do quintal. E os cachos de flor da acácia azul. E os soldadinhos de chumbo no alpendre. E vc com as botas correndo no terreiro.
Comer torrada com doce de goiaba, brigar pelo último biscoito do pote.
E as bonecas de pano, e o Ângelo negro e a Valéria loura.
Um monte de tempo que a gente passava cantando, e dançando... que saudade, do nada.
O dia das crianças me lembrou nossa infância partilhada.
Fui atrás das fotos, a gente juntas.…
Postagens recentes

roda de mulheres

Eu tenho em mim minha avó, minha mãe, minhas muitas mulheres.
Habitam, coexistem e se misturam num fluxo de vida sem margens.
Trago em mim estas ancestralidades. Os filhos gestados, os partos de luz, as vidas interrompidas, os sonhos nunca ousados.
Há tempo elas hibernavam. Talvez nunca tivessem, ao longo de tantas gerações, vivido um verão. Imagino primaveras ocultas que as faziam ultrapassar outonos severos. Tantas noites tão longas sem usufruir do sereno...
Ouso viver as vidas que nunca foram minhas, reinventar o caminho sem querer reescrever história. O ser que me cabe é imenso! Mora em mim dona Lindalva, mulher da Guaiuba, interior brabo do Ceará. Filha de coronel, tinha suas roupas compradas em Paris... mas nunca saía de casa. Nunca entrou numa cozinha. Nunca aprendeu a cavalgar. Criou 11 filhos.
Reside no mesmo lugar Dona Francisquinha. Cozinheira de fazer gemer, mestra na arte do crochê, amante do rádio e do futebol. Ela, de Sobral. Teve 9 filhos, criou 8.
As duas, minha avós.…

De que vale uma casa velha?

Sou moradora da Rua da Glória, no bairro da Boa Vista, no Centro do Recife. Moro numa destas casas orgânicas, antigas e generosas. Abro a janela e toco meu piano. Imagino a rua sorrindo, com saudade do tempo em que cada casa tinha um piano. A Glória da ocupação dos judeus no início do século XX. A Glória do centro islâmico no século XXI. A minha Glória. A minha memória afetiva. O que sentir quando mais uma casa na rua é destruída pelo fogo? Mais uma. Dessa vez, o sobrado dos girassóis na janela. Que fica na frente do centenário convento da Glória, sobrado vizinho à primeira sede do Clube Lenhadores. De que vale uma casa velha? De que valem os pobres seres que nela habitam empilhados feito papelão? Faz um tempo, não muito, que um depósito de papel pegou fogo na Rua Velha. Bombeiro, Defesa Civil, gente morta, interdição da rua e tapume. Pronto. Foi feita a política institucional. Depois, outros caíram. Foi a chuva. Foi o tempo. Foi a vontade de Deus. Foi a falta de uma política de resp…

Vida a vácuo

Quando se abre a tampa do pote, o perfume é o primeiro a se anunciar. Seus delicados e personalistas tons, num degradê de estímulos.  O perfume sugere o sabor. Induz o pensamento, persuadindo a memória, catando lembranças, futucando o passado. Assim mesmo é com ela.  Abre-se o pote da vida e a timidez do perfume vai saindo aleatória, encaminhada pelo curso da brisa que passa sem muito pesar.  No seu caso, pote fechado há tanto tempo, curando o seu conteúdo, apurando os sabores e envelhecendo seus tecidos. Um dia, a luz está mais clara, os sinais são menos vermelhos e a vida abre passagem.  A tampa, resistente ao vácuo, finalmente eclode. Seu estampido surdo. Saem sabores inéditos, sai a vida cultivada ali, no simulacro vedado. E nada de tão novo acontece, a não ser a propriedade de si.
A não ser a sensação de que a ninguém pertence sua vida.  Uma vida marinando nas décadas de uma casa cheia. De uma cozinha repleta de amor, de um afeto tão imenso, capaz de blindar a si mesma de qua…

alarme

Me sinto com a urgência de um alarme.
Com a carência do sonar que só cessa a partir de um toque.
Resiliente como o grito ritmado.
Com a mesma insistência.
O alarme que não espera o tempo de quem dorme.
Que não se compadece do cansaço ou do sonho.
Me sinto um alarme.
Sou isso, na verdade.
Urgente
Carente
Resiliente
Insistente
Ausente
Falante
Silente.

A culpa é do Chileno

Fiquei sozinha com a taça. Sozinha não. Jaziam na mesa ainda um quarto de torta de limão, uma travessa com torradas, uns limões espremidos e meia garrafa de vinho.
Matamos o guacamole. Devoramos o macarrão ao
Pesto. Detonamos a sobremesa.
Poderíamos ter aproveitado mais, só que era a hora do jornal nacional. Canal 13.
Subiram. Ouço perfeitamente as vozes da tv tomando o lugar da nossa conversa.
Este sentido involuntário que é a audição...
A gente fecha os olhos. A gente escolhe não tocar. A gente escolhe não provar.. mas não escolhe fechar os ouvidos. Desejo um aparelho que faça isso por mim.
Sigo na mesa, sentada.
Sigo no meu sentido de dialogar com a garrafa de vinho chileno (imagino que seja a
coisa mais próxima de um ser vivente). Um Cabernet Sauvignon bem razoável. Se fosse gente, eu pegava....
Sigo bebendo. Aproveito pra escrever. O cenário de fundo é o quintal. O cenário de fundo é o varal. O cenário deles sou eu.
Desce meu filho feito um saci com o pé machucado. São dezenove d…

Quiprocó

Quero um copo de paz. Uma dose de ausência, uma pitada generosa de alívio.
Quero dias mais longos, com o sol mais morno, com a pele menos ardente.
Quero dois dedos de silêncio.
Quero menos noites insones.
Quero a vida longe da agenda eletrônica que me monitora.
Quando abro os olhos, a vida bate na cara.
Quando enxergo o mundo, dá vontade sair correndo.
Quando me deparo com as ruas, tomo uma lapada de realidade.
Pára tudo, quero descer.
Não quero mais brincar de pega, nem brincar de me esconder.
Quero ser café com leite desta vez.
Cessou.
O jogo sem fim...