sexta-feira, 19 de maio de 2017

eu, transparente.



eu ando muito clarice lispector.
uma clarice ambulante.
perambulando pelas ruas do recife mascate.
tudo em letra minúscula, porque nada é mais importante que nada.
nada é menos revelante que tudo.
eu ando me sentindo tanto!.
às vésperas dos 45 anos, me sinto mais menina do que nunca.
e mais mulher do que sempre.
como se retirasse todo o sumo de uma laranja e bebesse puro, sem água, com seus travos e bagos.
como se comesse a laranja inteira, sentindo suas sutis nuances.
clarice andou pelas ruas que eu ando.
clarice viu meu cenário, já foi minha vizinha, em tempos desencontrados.
ando pelas pedras e buracos da cidade, vejo nos rostos das pessoas um pouco da história.
a rua fala.
os carrinhos de fruta concentrados na praça maciel pinheiro dialogam com os moradores de rua que ali tomam banho.
eu passo transparente por eles.
outro dia estava justamente ali, cheia de sacolas nas mãos, quando um grupo de meninos impregnados de cola passaram por mim. eram uns 15, talvez. eles me atravessaram, passaram por mim e eu era quase uma transparência. eu não tive medo de perder nada. e eles nada quiseram de mim.
virei paisagem.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Maio.


O jasmim florido emprestou para a chuva suas pétalas.
Um instante nada. Aquele nada instante.
Não há mais poesia do que no caos.
no abandono.
Mais poesia na flor que caiu,
Mais poesia na chuva que alagou.
Mais poesia na tristeza, do que tristeza na poesia.
Poesia que passa displicente pelos olhos, que não consegue atingir a pele, que não chega a iluminar a face.
Maio, minha poesia inicial.
Para Katia Fugita.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Desistência


Nunca desistir das pessoas, mas priorizar o que vale a pena.
Nunca desistir dos amores profundos, mas insistir em ser feliz.
Nunca desistir do que nos move, mas deixar voar o que não nos pertence.

sexta-feira, 24 de março de 2017

liquidando a Fatura

Cancelei o cartão de crédito. 
Pra não viver de véspera, pra aprender a ser hoje o sempre.
Pra não depositar afeto na tarjeta de plástico, 
Pra não dividir as pequenas alegrias em 10 vezes sem juros. 
Cancelei o cartão de crédito.
Não tenho mais compras virtuais, 
Negócios internacionais, 
Sonhos impossíveis que o meu limite podia comprar.
Minha felicidade não paga mais juros, 
Nem refinancio os momentos.
A minha anuidade sou eu.
A minha fatura é a minha escolha de vida. 
A bandeira que eu levanto agora é a que eu acredito
Viver com o que posso e sou não tem preço.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Sororidade

A alma anda pesada. Encharcada. Roupa que se lavou e esqueceu de espremer .
A alma pinga, pendurada num desconfortável varal.
Fica ali, suspensa, chorando até secar.
Tudo é o tempo. Tudo é o vento. Tudo é o sol. E o sereno.
Um murmúrio triste ressoa no peito.  
Reclama, resmunga.
A lembrança da vida no vidro.
Ambiente estéril, álcool 70%, e o parto frio.
Um beijo final, cena de dor que a alma absorveu.

sábado, 4 de março de 2017

Maturi

Meu maturi quer cair do pé. E eu digo: cai não, maturi .Espera um pouco mais, aproveita a sombra, a seiva, a certeza do tronco.

Meu maturi quer cair do pé. E eu digo: vai chegar a hora, maturi. Vai chegar o tempo inevitável. E você cai doce, cai pronto.

Meu maturi quer cair do pé. Tá faltando uma peinha de nada....
E o maturi olha o imenso mundo azul, a imensa terra preta.
Cresce, pesa no galho, se enche de orgulho e ensaia o primeiro salto.

A seiva pinga do galho.

Rolou meu maturi.

Nem mais maturi....

Caiu na sombra da sua árvore.

Caiu inchado, caiu quase, quase pronto.

Não é mais maturi.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Fila de supermercado

Eu sempre achei esquisito este modo contemporâneo e capitalista de comprar comida. Você chega em um supermercado. Pega um carrinho. Coloca tudo o que deseja dentro do carrinho. Depois vai pra fila do supermercado. Coloca tudo o que escolheu na esteira para pagar. Coloca tudo dentro de uns sacos. Tudo no carrinho de novo. Depois, organiza na mala do carro. Chega em casa, tira tudo dos sacos e arruma na geladeira e na despensa. Lava as frutas, abre os saquinhos dos mantimentos e coloca nos vidros. E então começa a consumir. Isso se antes, dentro do carro mesmo, não já tenha atacado um pacote de biscoito....
         Desse processo meio burro, mas que até hoje repito - e olha que já faz uns 30 anos que vou ao supermercado praticamente toda semana -  tem uma etapa que eu adoro: a fila do supermercado.
         Feira é coisa íntima. No carrinho estão as nossas atitudes, os nossos hábitos, os nossos vícios. Estão alguns desejos secretos, quase todas as manias. Todos rotulados, pesados, etiquetados, enlatados, prontos para serem consumidos. Você olha pro carrinho alheio, tentando preservar o seu. Tem gente menos discreta que vai logo perguntando:
- O que você faz com este cogumelo? E presta?
Tem outros mais cordatos:
- Teria uma receita? Como se prepara?
E então você discorre detalhadamente sobre o “Mode d’emploi”, mesmo sabendo que nunca, jamais, em tempo algum, aquela pessoa vai se deter meio minuto que seja sobre aquela informação.
         Muitas vezes, destas orientações furtivas, saem conversas mais profundas. Sim, profundas! Tem coisa melhor do que falar de intimidade com um desconhecido? Uma pessoa que nunca mais vai te encontrar? Que nunca vai abrir tua geladeira?
         Lembro que, quando eu morava na França, fazia sempre as compras no FranPrix, um mercadinho bem popular. Mais barato, muitos imigrantes, muita solidão. As filas eram gigantes. E ali, numa terra estrangeira, a gente se soltava mais. As africanas falavam sobre suas receitas, ingredientes que eu jamais cheguei a provar. As indianas discorriam sobre as famílias imensas. Eu falava da minha saudade – palavra que só eu sabia conjugar- e sobre o que sentia naquele país.
Vez por outra, uma olhava pro carrinho da outra e perguntava:

- Este iogurte é bom? Seus filhos gostam?
- Vale a pena comprar este salame?

Perguntas com respostas sempre regadas a novas receitas – de vida e de panelas.

          Em Brasília era curioso. Comprava muita coisa na mercearia japonesa. Rótulos que não sabia ler. Mudei meus hábitos. Acostumei a experimentar. Preferia comprar tudo a pé mesmo. Ali eu aprendi histórias de forasteiros. Receitas misturadas de todo o país. E tanta sacola! 

Hoje moro na rua da Glória, no centro do Recife. Uma rua que abriga o único centro islâmico da capital, num momento em que muitos africanos estão chegando para tentar vida nova. A rua que já foi o porto dos judeus. Que hoje é meu endereço afetivo.
Frequento o mercadinho do bairro. Frequento o supermercado fino.
Compro coalho no mercadinho e mostarda no mercado de grife.
Outro dia uma africana vestida com aquelas vestes longas, com estampas tribais, me confidenciou, sussurrando com seu português quase incompreensível:
- Ontem joguei meio quilo dessa carne fora, porque não sei fazer. Não tive coragem de colocar na mesa, disse, aproveitando pra  analisar meu carrinho.
Dei algumas orientações, truques, algumas sugestões de acompanhamento e de preparo.
         Ela estava na minha frente, passou suas compras e eu fiquei. A caixa do supermercado me disse:
           - A gente que é daqui tem mesmo que ajudar. E atalhou: - A senhora hoje não está tão bem não é?
Ali me senti acolhida. Passando o coalho e o limão, dei um risinho e falei que toda araruta tem seu dia de mingau. Agradeci, digitei minha senha do cartão. Saí até melhor.

         Dessa vez trouxe as compras na mão, nos saquinhos reforçados pelo empacotador que se ofereceu pra me acompanhar até em casa.
         - Precisa não, ta tranquilo.

         Cumprimentei no caminho seu Pedro da carne e seu Pedro da fruta. Na esquina encontrei a minha manicure, que a cada semana me recebe cheia de novas ideias no salão que tem o nome de Beleza Pura.

            Mas, aí, já é outra história.....