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fAlTa MuItO

São tempos difíceis.  São tempos difíceis. Eu ainda não sei falar da revolução dentro de mim, nem do golpe lá fora.  Ou seria o golpe dentro de mim e a revolução lá fora.... Eu ainda não sei. Falta muito. Ainda não sei escrever sobre este rebuliço, este gesto largo e firme que me trouxe a esta paisagem estonteante. Ainda não sei me situar com as novas gavetas. Onde guardo os talheres, onde estão os colares, o saca rolhas, o pano de chão? Onde acomodo meus gestos viciados, onde dobro minhas memórias já passadas? Falta muito. Eu ainda olho para as cadeiras da sala como uma turista. Esqueço onde fica o lixeiro e não tenho nenhuma intimidade com a máquina de lavar. Não aprendi o tempo do elevador. A viagem do 14º até o térreo me parece intercontinental. Tenho atravessado mares, a propósito. Todos os dias. Onde devo ter guardado aquela extensão? Onde se esconde a chave do carro? Qual é o abrigo das minha dores? As paredes ainda em branco reverberam um eco que intriga. Casa sem mem…
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PRESTES.

Estou prestes.
Prestes a me lançar no abismo da certeza.
Imagino o salto. Certo. Preciso.
A beleza de não saber onde o vento me fará pousar.
Estou prestes a escolher a direção.
Avulsa, despregada.
O verbo estar não define. Não estou....
Estar soa estático. Soa estabilizado. Soa controlado. Soa cômodo. Soa linha de chegada.
E eu me defino, antes, de partida.
Partida, só que inteira. Para o novo. O salto, lançamento. Vernissage de mim mesma.
Minha inauguração. A minha, cada dia.
 Não quero mais amanhecer e me perceber em dívida comigo mesma.
Nem ter a triste sensação de tempo perdido.




Mulher Maravilha em primeiro lugar

A ideia era fazer um diário de bordo. Um registro de tudo o que vivemos na viagem de mulheres ao Sertão do Pajeú. Queria voltar ao trabalho com um relato fidedigno. Cartesiano. Celulares carregados, procurando o melhor ângulo para fotos e vídeos. Não consegui. O foco estava no sentir. Estava no viver e não no relatar. Não consegui. Foi uma daquelas viagens em que a gente esquece o telefone, abandona a internet. Estava conectada com outras ondas. Não perdi os momentos, como alguém pode pontuar. Guardei todos. Fiz questão de não enxergar através das lentes. Viagem longa, estrada reta, são ótimos bálsamos. Para curar agonias da rotina massacrante. Pra pensar melhor sobre a vida e para chegar ao destino de peito aberto, um pouco esvaziado do que nos atropela no dia a dia. Fui. Às cinco da manhã fiz uns sanduíches e coloquei tudo na bolsinha térmica que comprei na revista da natura. Nunca tinha usado. Fiz uns sandubas de queijo e pesto. Pão baguete. Dividi em quatro. Outras coisitas qu…

A teimosia do amor

Que alegria estar aqui com tanta gente importante nas nossas vidas!

Que alegria reunir todas e todos neste cenário tão lindo e significativo, construído com amor, partilhado por tantos e tantas de nós. Acredito que muitos e muitas aqui têm histórias pra contar que viveram nesta casa, neste jardim.

Quem está aqui pela primeira vez, seja bem vindo e bem vinda à vivenda Tesser, mais que uma casa, um endereço de acolhimento, que muito me diz sobre generosidade e acolhida.

Paula e Luana, que emoção, que gratidão, que imensidão ver vocês duas aqui na minha frente, mãos dadas, olhos brilhando!

A Paula é para mim uma dessas pessoas fundamentais na vida. Fundamental para a minha alegria, fundamental para o meu futuro. Quis esta mesma vida que, vindas de uma mesma família, ainda com toda esta identificação, tivéssemos morado apenas 8 meses na mesma cidade nesses 40 anos mais ou menos que nos conhecemos.

Paulinha, minha prima virou irmã, minha prima gêmea, como costumamos nos chamar. Talvez a m…

Egotrip

Foi um ano de perdas e ganhos.
Um ano de tantas voltas! E tantas emendas de vida! O meu ano começou com festa. De arromba. Foi uma festa de despedida de um momento da vida. Toquei ao piano a valsa do Adeus. Foi por acaso, mas não foi aleatório. Foi como se aos 45 eu fechasse livros, ciclos, possibilidades. Foi como se eu reunisse gente querida pra dizer que dali pra frente seria diferente. A festa que bombou na rua da Glória foi a vernissage da minha metamorfose. Foi um ano de menos medo. Menos solidão. Mais força. E um ano anunciando uma mulher madura, minha festa de debutante para apresentar quem eu sou. Apostando no ciclo virtuoso do amor como escudo a todo o resto negativo. Dando a cara a tapa na vida, abrindo as opiniões e enchendo os pulmões para dizer: que felicidade não ser unanimidade! Que alegria ter as minhas! No meu mundo ideal todas as pessoas são felizes, mas tenho as minhas. Tenho a lista dos afetos. Foi um ano de lagarta, me assustando com minhas reações, não enten…

I have a dream.

Sonhar que voa, que quer ser outra pessoa, mudar de nome, de identidade, um cabelo mais preto, tocar um instrumento.... Um que seja, você tem? Na aula de inglês, gente jovem se capacitando, ficando até tarde da noite, três horas de aula seguidas... it’s hard.... Quando o Teacher pergunta “What’s your dream?”, responde o silêncio. Ele flexibiliza pra resposta ser em portuguese. Silêncio na língua nativa. Eu vendo sonhos. Na sala, cadeiras dispostas em círculos, a energia não flui. Constrangidos, os alunos se entreolham. Um mais ousado salta: sonho ter dinheiro de pagar as contas. A outra responde: sonho em me aposentar. Eu fiquei com vergonha de falar dos meus. Já realizei um monte deles. Ter filho, morar fora do país, cantar, representar, dormir na praia. E tenho outro lote. Respondi, assim, tímida: I dream to learn English. Nem sei se estava certa a frase. E a turma fez um levante geral. Não, não foi porque acharam que eu bajulei o professor. Foi porque eles odeiam, não suportam…

Esquerda

Você samba de que lado?
Que bloco é o da sua rua?
Que luta é a do seu braço?
Que mundo cabe no seu ideal?
Qual é o país que constroi o seu futuro?
Hoje acordei com vontade de dizer a quem quiser ouvir que eu tenho lado.
Eu não escolhi a esquerda. Eu sou de esquerda.
Ser de esquerda não se compara a escolher qual cordão você vai dançar no pastoril.
Não tem relação com que time você prefere.
Eu não conseguiria sambar do outro lado porque acredito neste. Acredito num projeto de mundo pra geral, que diminua as desigualdades, que aumente as oportunidades, que não privilegie quem sempre teve privilégios.
Ser de esquerda não é ser apenas de um partido político. É enxergar nas organizações instrumentos de inclusão e de luta.
Nasci numa família que discute política na mesa de jantar. Ainda ficava de ponta de pé pra alcançar o tampo da mesa e o assunto era a ditadura e a resistência. Tinha sempre violão e política na roda.
Política não é um projeto pessoal. É um projeto de vida.
Por isso hoje, …