sexta-feira, 24 de março de 2017

liquidando a Fatura

Cancelei o cartão de crédito. 
Pra não viver de véspera, pra aprender a ser hoje o sempre.
Pra não depositar afeto na tarjeta de plástico, 
Pra não dividir as pequenas alegrias em 10 vezes sem juros. 
Cancelei o cartão de crédito.
Não tenho mais compras virtuais, 
Negócios internacionais, 
Sonhos impossíveis que o meu limite podia comprar.
Minha felicidade não paga mais juros, 
Nem refinancio os momentos.
A minha anuidade sou eu.
A minha fatura é a minha escolha de vida. 
A bandeira que eu levanto agora é a que eu acredito
Viver com o que posso e sou não tem preço.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Sororidade

A alma anda pesada. Encharcada. Roupa que se lavou e esqueceu de espremer .
A alma pinga, pendurada num desconfortável varal.
Fica ali, suspensa, chorando até secar.
Tudo é o tempo. Tudo é o vento. Tudo é o sol. E o sereno.
Um murmúrio triste ressoa no peito.  
Reclama, resmunga.
A lembrança da vida no vidro.
Ambiente estéril, álcool 70%, e o parto frio.
Um beijo final, cena de dor que a alma absorveu.

sábado, 4 de março de 2017

Maturi

Meu maturi quer cair do pé. E eu digo: cai não, maturi .Espera um pouco mais, aproveita a sombra, a seiva, a certeza do tronco.

Meu maturi quer cair do pé. E eu digo: vai chegar a hora, maturi. Vai chegar o tempo inevitável. E você cai doce, cai pronto.

Meu maturi quer cair do pé. Tá faltando uma peinha de nada....
E o maturi olha o imenso mundo azul, a imensa terra preta.
Cresce, pesa no galho, se enche de orgulho e ensaia o primeiro salto.

A seiva pinga do galho.

Rolou meu maturi.

Nem mais maturi....

Caiu na sombra da sua árvore.

Caiu inchado, caiu quase, quase pronto.

Não é mais maturi.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Fila de supermercado

Eu sempre achei esquisito este modo contemporâneo e capitalista de comprar comida. Você chega em um supermercado. Pega um carrinho. Coloca tudo o que deseja dentro do carrinho. Depois vai pra fila do supermercado. Coloca tudo o que escolheu na esteira para pagar. Coloca tudo dentro de uns sacos. Tudo no carrinho de novo. Depois, organiza na mala do carro. Chega em casa, tira tudo dos sacos e arruma na geladeira e na despensa. Lava as frutas, abre os saquinhos dos mantimentos e coloca nos vidros. E então começa a consumir. Isso se antes, dentro do carro mesmo, não já tenha atacado um pacote de biscoito....
         Desse processo meio burro, mas que até hoje repito - e olha que já faz uns 30 anos que vou ao supermercado praticamente toda semana -  tem uma etapa que eu adoro: a fila do supermercado.
         Feira é coisa íntima. No carrinho estão as nossas atitudes, os nossos hábitos, os nossos vícios. Estão alguns desejos secretos, quase todas as manias. Todos rotulados, pesados, etiquetados, enlatados, prontos para serem consumidos. Você olha pro carrinho alheio, tentando preservar o seu. Tem gente menos discreta que vai logo perguntando:
- O que você faz com este cogumelo? E presta?
Tem outros mais cordatos:
- Teria uma receita? Como se prepara?
E então você discorre detalhadamente sobre o “Mode d’emploi”, mesmo sabendo que nunca, jamais, em tempo algum, aquela pessoa vai se deter meio minuto que seja sobre aquela informação.
         Muitas vezes, destas orientações furtivas, saem conversas mais profundas. Sim, profundas! Tem coisa melhor do que falar de intimidade com um desconhecido? Uma pessoa que nunca mais vai te encontrar? Que nunca vai abrir tua geladeira?
         Lembro que, quando eu morava na França, fazia sempre as compras no FranPrix, um mercadinho bem popular. Mais barato, muitos imigrantes, muita solidão. As filas eram gigantes. E ali, numa terra estrangeira, a gente se soltava mais. As africanas falavam sobre suas receitas, ingredientes que eu jamais cheguei a provar. As indianas discorriam sobre as famílias imensas. Eu falava da minha saudade – palavra que só eu sabia conjugar- e sobre o que sentia naquele país.
Vez por outra, uma olhava pro carrinho da outra e perguntava:

- Este iogurte é bom? Seus filhos gostam?
- Vale a pena comprar este salame?

Perguntas com respostas sempre regadas a novas receitas – de vida e de panelas.

          Em Brasília era curioso. Comprava muita coisa na mercearia japonesa. Rótulos que não sabia ler. Mudei meus hábitos. Acostumei a experimentar. Preferia comprar tudo a pé mesmo. Ali eu aprendi histórias de forasteiros. Receitas misturadas de todo o país. E tanta sacola! 

Hoje moro na rua da Glória, no centro do Recife. Uma rua que abriga o único centro islâmico da capital, num momento em que muitos africanos estão chegando para tentar vida nova. A rua que já foi o porto dos judeus. Que hoje é meu endereço afetivo.
Frequento o mercadinho do bairro. Frequento o supermercado fino.
Compro coalho no mercadinho e mostarda no mercado de grife.
Outro dia uma africana vestida com aquelas vestes longas, com estampas tribais, me confidenciou, sussurrando com seu português quase incompreensível:
- Ontem joguei meio quilo dessa carne fora, porque não sei fazer. Não tive coragem de colocar na mesa, disse, aproveitando pra  analisar meu carrinho.
Dei algumas orientações, truques, algumas sugestões de acompanhamento e de preparo.
         Ela estava na minha frente, passou suas compras e eu fiquei. A caixa do supermercado me disse:
           - A gente que é daqui tem mesmo que ajudar. E atalhou: - A senhora hoje não está tão bem não é?
Ali me senti acolhida. Passando o coalho e o limão, dei um risinho e falei que toda araruta tem seu dia de mingau. Agradeci, digitei minha senha do cartão. Saí até melhor.

         Dessa vez trouxe as compras na mão, nos saquinhos reforçados pelo empacotador que se ofereceu pra me acompanhar até em casa.
         - Precisa não, ta tranquilo.

         Cumprimentei no caminho seu Pedro da carne e seu Pedro da fruta. Na esquina encontrei a minha manicure, que a cada semana me recebe cheia de novas ideias no salão que tem o nome de Beleza Pura.

            Mas, aí, já é outra história.....

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Azul de icapuí

Pena Filho teria adorado estes dias no Icapuí. Vertiginosamente. Um lugar! Que lugar!
Estive lá. O azul, a claridade defronte, a imensa linha do horizonte!
Em Icapui não se pinta os sapatos de azul. O azul que nos envolve, a águaverde que nos toca, a lua que nos visita....revisita.
O mundo que nos rouba os sonhos não chegou lá. Que bom.
Foi ali, na ponta a falésia, uma casinha de pescador e nela um
Amor gigante!
Nos olhos do Tio João e da Tia Stela, o blue do poeta. O blues do balanço do mar. O alento.
Na mesa da cozinha, em torno da comida, nos alimentamos de afeto.
Foi ali, poeta.
Cozinha com Vista pro mar e a gente discutindo em nossas palavras o amor ao transitório.
A vida, esta passageira....
(Para Tio João, Tia Stela e Carlos Pena Filho, três fazedores de verso na minha vida)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O permanente.







Nunca mais fui a mesma.
Não que não seja eu. Sou mais eu que nunca.
Mas, nunca mais fui a mesma.
Atravessar a rua ou dar um mergulho no mar aberto passaram a ter outro significado.
Não era mais eu sozinha. Era eu e um mundo inteiro de possibilidades, opções e oportunidades. De amar e de escolhas. Era eu com dois corações batendo em mim.
Era eu com 22 anos. E você esperando pra nascer.
Dizem que hoje o tempo passa mais rápido. Dizem que isso é física quântica. E que um dia a gente vai viajar no tempo.
Eu cá comigo tenho o palpite que o tempo não passa. Se acumula, que nem areia nas portas das casas nas dunas. Que nem água em ralo entupido.
O meu tempo, pelo menos, é assim. Sou capaz de sentir cada frame dele.
Talvez porque este amor seja física quântica. Como é que um projetinho de gente pode ser maior que um adulto? Como é que, saindo de mim, fica mais forte que eu? Como é, finalmente, que este sentimento não gasta com o tempo? E como é que o finalmente nunca chega ao fim?
Hoje eu sentei na mesa do jantar contigo e todos nós. Nós 4. Eu já disse um tempo: somos como os pontos cardeais. Somos diferentes, antagônicos às vezes, e somos referências.
Então, na mesa do jantar, você na minha frente, o bolo de chocolate e café ainda morno (e meio tronxo), feito pelas minhas mãos...
Eu e a teimosia de continuar querendo reunir todo mundo em torno da mesa!
Você à minha frente e o tempo se avolumando na porta. Você à minha frente e eu pensando: você, 22. Eu, 44.
Hoje fecha-se este ciclo. Você tem 22 anos. Viveu o tempo que eu vivi até te conhecer.
A gente chegou.  E eu hoje sou mais eu que nunca.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

UNS

Uns
Rua Pereira Simões, 742.
As grades que protegiam a casa também revelavam o nosso cotidiano. Era uma vida aberta. Sem muros. Todos morando juntos, cada um com seus desejos jovens.
Ana Luiza, Zé Renato e Pan. Meus primeiros companheiros de vida. Os que mais me ensinaram, os que hoje eu mais amo. Aquela casa foi nosso último endereço coletivo, comum. Depois dali fomos traçando outras trajetórias. Lembro do piso de taco, das almofadas coloridas ao lado do som. Dos almoços que Dona Margarida fazia e que nos mantinham unidos na mesa.
A música nos trouxe também esta unidade. Os vinis que chegavam era trabalhados, investigados, absorvidos, ouvidos e re-ouvidos. Até hoje quando sonho com a minha vida em família, sonho com aquela casa. A trepadeira que invadia as grades, a música que ocupava tudo, a pronta entrega de mamãe lá no fundo! O piano no quarto....
Hoje, 30 anos depois, a tecnologia me trouxe de volta uma trilha sonora, um bilhete para o passado, uma passagem. Cada faixa daquele disco me diz muito. Me traz demais.
Bobagens, meu filho, bobagens, ela poderia dizer. Eram meus quinze anos. E a valsa foi Eclipse Oculto. Uma festa na sala das almofadas. Coisa mais bonita é você embalou meu primeiro beijo.
Lembro de Ana Luiza dançando toda fantasiada, com os achados que garimpava no quarto de mamãe. “A minha alegria atravessou o mar.”...  A gente ria. Emendava na rumba “Mamãe eu quero ir à cuba, quero ver a vida lá”. A gente dançava.
Minhas viagens existenciais, muitas vezes com Zé Renato ao meu lado, dividindo o quarto,  lembram “Sou um homem comum... qualquer um....”
Tão forte esta obra de arte nas nossas vidas que outro dia, aos 78 anos, nossa mãe citou “Choque entre o azul e o cacho de acácias”, para falar de uma contradição da vida. A Poesia da nossa mãe, tão contraditória quanto os versos de Caetano.
Tudo é dez, tudo é mil, tudo acaba, nada tem fim. Pan, os discos sempre entravam pelas tuas mãos. Era uma delicadeza displicente. Você sempre trazia o novo.
Eu hoje, ouvindo este disco mais de uma dezena de vezes, entendi que amar, dar tudo, não ter medo... tocar.... cantar o mundo... por o dedo no lá! Nossa banda da terra é outra. É o que construímos e ainda vamos construir.

E nós ali, cada um na sua viagem, irmãos e mãe de uma família esquisita, sempre fomos e sempre estaremos ligados por uma energia pura, que se chama amor.