sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Correnteza




Ele disse pra ela: poesia
Ela disse pra ele: sorriso.

Depois,
O corpo dela foi invadido pela poesia dele.
Poesia abstrata, na pele concreta.

O sorriso dela era cálido.
A poesia dele, areal.

Ela sabia que o amor é assim:
Um encontro de estranhos
Caminho junto a seguir

Então, enfim, a poesia dela foi envolvida pelo sorriso dele.

E nada mais havia a fazer.

Na ponte, correnteza do rio que corre por baixo,
Ela sorriu sem poesia.
E ele fez um verso triste.

Passaram um pelo outro
Sentidos opostos
Já de costas
E foi-se o momento preciso.
O sol tinindo ao meio-dia

Fez-se uma poesia anônima
Sem registro do sorriso real.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Enxaqueca



"Pat,
Tu num sabe de nada.
Ontem ainda eu tava louca de dor de cabeça. Já tinha desistido de tomar remédio, tentando aprender a "conviver" com esta companheira tão indesejada.
Eis que me surge a cura, da forma mais inesperada possível.
Fui almoçar no Shopping. Comi uma salada bem honestinha, sem excessos. Depois, quando tava saindo da praça de alimentação, minhas duas amigas (que no lugar de almoçar decidiram comer cada uma um pedaço ABUSADO de torta de chocolate com morango) viram uma confusão tremenda na Arezzo.

Na vitrine, a explicação: TRÊS PARES DE SAPATO R$ 99,00.Loucura! Loucura! Loucura!
A visão de fora da loja, pelo vidro, era de um filme mudo. Nenhum som chegava até nós. Mas os movimentos eram frenéticos.
Hormônios dançavam dentro da loja.
Mulheres seguravam um pé somente do modelo e procuravam o outro entre as cadeiras, por baixo das prateleiras.... Você não acredita a confusão.
Minha cabeça latejava.
Minhas amigas, claro, entraram.
Pedi às meninas que escolhessem somente um par pra mim (um par pra cada uma) e fui
pagar uma fatura na lotérica.
A cabeça não dava trégua. E eu carregando aquela dor há três dias, ou talvez mais.
Quando voltei à Arezzo, já não havia mais como entrar na loja. Os seguranças estavam na porta e minhas amigas, loucas lá dentro. Uma delas veio até a saída e me mostrou uma sacola cheinha de sapatos que ela tinha "escolhido pra mim".
Fiquei na fila me sentindo uma idiota, enquanto esperávamos alguma pessoa mais consciente deixar aquele lugar. Eu era a quinta da fila. Até que chegou a minha vez. Entrei.
O barulho não era de cinema mudo, absolutamente.
As loucas que estavam lá dentro ( inclusive esta aqui que vos escreve) falavam complusivamente. Cada uma que desse opinião na compra da outra.
Eu precisava ficar vigiando meus pares de sapato, sob pena perdê-los antes ainda de serem efetivamente meus. Esperava agora vagar uma das cadeiras pra eu experimentar um a um. Ou dois a dois......
Experimetei todos.... LINDOS!!!

A esta altura, meus hormônios eram, talvez, os mais animados da festinha.

Fui descartando alguns pares (com muito pesar) até ficar com quatro.
Um deles, escolhi pra minha mãe.
No final, naquela babel de anabelas, saltos agulhas, plataformas, chinelas rasteiras, e sapatilhas, cada uma de nós escolheu os seus e fechamos 12 pares!!!!!!
As três juntas, claro.
Saí com minha sacolinha, feliz da vida. Paguei o estacionamento do shopping e quando estava dentro do carro dei por conta: a enxaqueca tinha ido embora.
D-o-r d-e c-a-b-e-ç-a z-e-r-o.....
O problema, amiga, é que sapato da Arezzo é caro e eu não ou ter mais condição de fazer outra farra dessa em muito tempo....
Um beijo, Germana"

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Procura-se a menina dos olhos.



"Todo mundo tem um irmão meio zarolho, só a bailarina que não tem".


Eu era esta irmã. Tomei coragem depois de 35 anos e ajeitei o olhar. Alguns me disseram que perdi o charme. Outros, que nem havia motivo de mudança. Teve gente que ficou com raiva!

A VERDADE é que eu tinha perdido a capacipade de ver em profundidade. Agora, estou maravilhada com a possibilidade de ver e sentir as coisas diferente.

Pensando bem, eu já olhava de lado. Olhava difuso.

Agora, faço questão de arregalar meus oinho verdinho e procurar a menina dos olhos de todo mundo.

Eu nunca vi duplicado, como pensam que os estrábicos enxergam. Mas vivia enxergando tudo meio sem proporção.

A baliza no carro, eu fazia somente se houvesse muito espaço, porque não tinha noção da distância. Errava toda vez que ia colocar água no copo. Não sabia a altura dos degraus das escadas.

Isso tudo passou. Tou agora procurando a profundidade deste olhar, pra dentro de mim. Talvez por isso, o nome deste blog. Perder de vista. Ir até onde a vista alcança e enxergar outros olhares.

Sinto pelos meus irmãos, que agora não estão mais em sintonia com a música. Todos viraram bailarinos.

O pior cego é aquele que não pode ver em profundidade.


terça-feira, 14 de agosto de 2007

Não Jogue Lixo na Rua


O caminhão do lixo passou levando tudo o que via pela frente.
Varreu as cadeiras nas calçadas,
Recolheu os sorrisos e arrancou a esperança das mãos.
Os garis não passavam há semanas naquelas ruas. Chegaram com pressa.
A vibração do motor do caminhão fazia estremecer os barracos.
- Desliga a televisão, menino! Vem ver o lixo que chegou!
A criançada tomou logo o posto de abre alas do cortejo. Os mais velhos abriam as janelas.
Era um evento. Raro.
Todo mundo queria chegar perto da carga. Haveria lá dentro alguma coisa de valor, um engodo de fantasia. Uma boneca, uma cadeira, um rádio, quem sabe!
E como eu ia contando, o caminhão do lixo coletou mais do que deveria.
Passou sem cuidados pelos cachorros que latiam assutados com o alvoroço.
Levantou a água espessa das poças de lama da rua.
O vento de agosto, beira-rio, trazia aquele odor azedo.
A comunidade do Coque já viu muita gente ser morta.
Faca, foice, pedaço de pau, espingarda, revólver, estilete, punhal, faca de cozinha.
Mas nunca, nunca ninguém tinha visto um anjinho ser mandado pro mundo de Deus por um caminhão de lixo desavisado, que fez uma manobra enquanto um bando de meninos festejava por perto.
A festa do funeral.
Quando a sujeira toda saiu, ficou aquele corpinho franzino, numa viela que leva ao Rio Capibaribe. O chão úmido acolheu o pequeno, aconchegou seu suspiro.
A noite passou. O sol trouxe a má notícia.
A imprensa chegou antes do IML.
E apesar de todo o aparato, três linhas contaram a história no dia seguinte.
Uma fatalidade.
E a rua limpa.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Solidão no Coletivo



Morei em Paris. Isso é inesquecível.
Depois das primeiras semanas de admiração, e até mesmo de sensação de estar vivendo um verdadeiro conto de fadas, comecei a viver outra fábula.
A de passar pelo arco do triunfo e me parecer o marco zero do Recife; ver a Tour Eifell como mais um elemento natural da paisagem...
Eu estagiava na Sala Richelieu, no coração da cidade luz. Almoçava diariamente no refeitório da Comédia Francesa, tendo como paisagem os jardins do Petit Palais. Tudo isso é maravilhoso e inesquecível, mas virou rotina.
Todos os dias impreterivelmente às cinco da tarde eu saída do teatro, ia pro ponto de ônibus com a minha Carte Orange, totalmente integrada àquele sistema. Quando tinha um dinheirinho, tomava um sorvete na Hagen Dazs, que fica pertinho dali.
Pegava o ônibus 95, que ia me deixar na Gard du Nord. Eu estagiava no cartier chique e morava na banlieue, a periferia.
Perfeita vivência.
Os ônibus neste horário estavam invariavelmente cheios de crianças de todas as idades. Os carrinhos de bebê ocupavam espaços reservados junto às portas. Os mais velhos traziam suas mochilas às costas. Tudo ficava meio barulhento.
Todos os dias também eu percebia uma presença nada comum. Cabelo muito branco que fugia um pouco à touca de tricô arroxeada, um sobretudo azul claro muito, muito grosso. Ela também usava meias de lã escuras e tinha sempre um saquinho plástico na mão. Uma bolsa preta pequena, tipo carteira, que aparentava muitos anos de uso pousava no colo. Aquela senhora francesa estava em casa.
Não ficava em casa fazendo tricô, nem muito menos ia aos cafés encontrar os amigos.
A cada dia, ela escolhia um "parceiro" de conversa.
Com sua voz já meio falha, rouca e bem fraquinha, dava pitaco sobre educação das crianças. Com propriedade, falava sobre a mudança dos tempos.
Tinha mãos firmes. Caminhos azuis desenhados em alto relevo nas costas das mãos falavam tanto quanto as linhas da vida que se revelam pros ciganos. Seus gestos eram lentos.
E eu, estrangeira quase adaptada, aproveitava aquele momento para treinar e testar minha capacidade de compreensão na língua bastarda. Era bom compreender as conversas corriqueiras. Eu nem sentia vontade de falar.
Deixei de tomar o sorvete pra não perder o ônibus.
Procurava chegar mais perto dela a cada dia. Aquela figura comum me encantava.
Até que um dia sentei à sua frente. Ela me olhou e perguntou as horas. A resposta veio com um sotaque carregadíssimo. Claro que a segunda pergunta foi de onde eu era.
Respondi e aproveitei pra dizer que percebia a presença dela diariamente.
Foi o suficiente. Madame me contou que morava no ônibus. Aliás, tinha um apartamento minúsculo na Republique, mas como tinha pavor de solidão, passava o dia inteiro dentro daquele ônibus. Escolhera aquela linha porque gostava muito do itinerário, quase turístico. E porque também poucos imigrantes andavam por ali. Madame era francesa sangue puro. Talvez tenha aceitado conversar comigo pelos meus olhos verdes. Uma licença para uma sul americana, me pareceu.
Ousei e perguntei o que havia dentro do saquinho. Ela sorriu. Disse que eu era observadora. Tinha comida. Uns biscoitos, algum baguete, tomates, queijo. Preferia fazer as refeições na companhia de pessoas. Mesmo que fossem passageiros.
Não sentia solidão no coletivo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Declaração


Confesso, declaro para os devidos fins. Estou dependente.
Eu até tentei fugir, resisti, relutei.
Tudo em vão.
Ele me ofereceu pela primeira vez. Tudo foi ele.
Falou que era bom, que eu deveria tentar.
Mais uma vez.
Quando eu me arrisquei, ele me deu força. Disse que era exatamente assim.
Eu não tive culpa. juro.
Entrei nesse mundo sem conhecer nada, sem sequer saber os efeitos futuros.
Aliás, não existem efeitos prévios. Todos são póstumos mesmo.
Aí, a cada vez que eu tento novamente, ele aparece.
Parece que sabe.
E lê as coisas que eu escrevo, quase em primeira mão.
Aliás, acho que ele é o meu único leitor assíduo.
Nome de poeta, conhece tão bem o traçar das letras !!!!
Sem contar que em algum lugar, somos irmãos. Nomes invertidos, desejos díspares, como devem ter os irmãos. Calhou de sermos colegas de profissão. E calhou de eu me apaixonar pelos escritos dele. E, sendo mais velha, me sinto como uma caçula afagada, aprovada a cada recadinho que ele deixa aqui neste meu território.
Não bastasse, meu primeiro fruto tem o mesmo nome dele. Hoje eu sinto tanto, tanto orgulho de chamar meu pequeno e estar ao mesmo tempo, evocando nossa amizade....
E que se revoguem as disposições em contrário.

eu, menina




O olhar tão leve, que quase não existe. Um sorriso sem muita expectativa de se insinuar. Uma feição tímida, pensando ainda no que seria a vida. Lembro do dia desta foto. Eu tava de férias, na casa do meu avô materno. Sentada na mesa enorme, desenhava qualquer coisa no meu caderninho. Meu tio veio, sentou ao lado, ajustou a lente e registrou meu olhar infantil. Aliás, ele foi mais além. Ele capturou minha atmosfera de menina.

Tem uma palavra que tudo resume, Tudo explica e preenche os espaços. Uma palavra que ilustra e liga. Religa. Existem laços que são p...