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Mostrando postagens de Agosto, 2007

Correnteza

Ele disse pra ela: poesia
Ela disse pra ele: sorriso.

Depois,
O corpo dela foi invadido pela poesia dele.
Poesia abstrata, na pele concreta.

O sorriso dela era cálido.
A poesia dele, areal.

Ela sabia que o amor é assim:
Um encontro de estranhos
Caminho junto a seguir

Então, enfim, a poesia dela foi envolvida pelo sorriso dele.

E nada mais havia a fazer.

Na ponte, correnteza do rio que corre por baixo,
Ela sorriu sem poesia.
E ele fez um verso triste.

Passaram um pelo outro
Sentidos opostos
Já de costas
E foi-se o momento preciso.
O sol tinindo ao meio-dia

Fez-se uma poesia anônima
Sem registro do sorriso real.

Enxaqueca

"Pat,
Tu num sabe de nada.
Ontem ainda eu tava louca de dor de cabeça. Já tinha desistido de tomar remédio, tentando aprender a "conviver" com esta companheira tão indesejada.
Eis que me surge a cura, da forma mais inesperada possível.
Fui almoçar no Shopping. Comi uma salada bem honestinha, sem excessos. Depois, quando tava saindo da praça de alimentação, minhas duas amigas (que no lugar de almoçar decidiram comer cada uma um pedaço ABUSADO de torta de chocolate com morango) viram uma confusão tremenda na Arezzo.

Na vitrine, a explicação: TRÊS PARES DE SAPATO R$ 99,00.Loucura! Loucura! Loucura!
A visão de fora da loja, pelo vidro, era de um filme mudo. Nenhum som chegava até nós. Mas os movimentos eram frenéticos.
Hormônios dançavam dentro da loja.
Mulheres seguravam um pé somente do modelo e procuravam o outro entre as cadeiras, por baixo das prateleiras.... Você não acredita a confusão.
Minha cabeça latejava.
Minhas amigas, claro, entraram.
Pedi às meninas que escolhessem som…

Procura-se a menina dos olhos.

"Todo mundo tem um irmão meio zarolho, só a bailarina que não tem".

Eu era esta irmã. Tomei coragem depois de 35 anos e ajeitei o olhar. Alguns me disseram que perdi o charme. Outros, que nem havia motivo de mudança. Teve gente que ficou com raiva!
A VERDADE é que eu tinha perdido a capacipade de ver em profundidade. Agora, estou maravilhada com a possibilidade de ver e sentir as coisas diferente.
Pensando bem, eu já olhava de lado. Olhava difuso.
Agora, faço questão de arregalar meus oinho verdinho e procurar a menina dos olhos de todo mundo.
Eu nunca vi duplicado, como pensam que os estrábicos enxergam. Mas vivia enxergando tudo meio sem proporção.
A baliza no carro, eu fazia somente se houvesse muito espaço, porque não tinha noção da distância. Errava toda vez que ia colocar água no copo. Não sabia a altura dos degraus das escadas.
Isso tudo passou. Tou agora procurando a profundidade deste olhar, pra dentro de mim. Talvez por isso, o nome deste blog. Perder de vista. Ir até o…

Não Jogue Lixo na Rua

O caminhão do lixo passou levando tudo o que via pela frente.
Varreu as cadeiras nas calçadas,
Recolheu os sorrisos e arrancou a esperança das mãos.
Os garis não passavam há semanas naquelas ruas. Chegaram com pressa.
A vibração do motor do caminhão fazia estremecer os barracos.
- Desliga a televisão, menino! Vem ver o lixo que chegou!
A criançada tomou logo o posto de abre alas do cortejo. Os mais velhos abriam as janelas.
Era um evento. Raro.
Todo mundo queria chegar perto da carga. Haveria lá dentro alguma coisa de valor, um engodo de fantasia. Uma boneca, uma cadeira, um rádio, quem sabe!
E como eu ia contando, o caminhão do lixo coletou mais do que deveria.
Passou sem cuidados pelos cachorros que latiam assutados com o alvoroço.
Levantou a água espessa das poças de lama da rua.
O vento de agosto, beira-rio, trazia aquele odor azedo.
A comunidade do Coque já viu muita gente ser morta.
Faca, foice, pedaço de pau, espingarda, revólver, estilete, punhal, faca de cozinha.
Mas nunca, …

Solidão no Coletivo

Morei em Paris. Isso é inesquecível.
Depois das primeiras semanas de admiração, e até mesmo de sensação de estar vivendo um verdadeiro conto de fadas, comecei a viver outra fábula.
A de passar pelo arco do triunfo e me parecer o marco zero do Recife; ver a Tour Eifell como mais um elemento natural da paisagem...
Eu estagiava na Sala Richelieu, no coração da cidade luz. Almoçava diariamente no refeitório da Comédia Francesa, tendo como paisagem os jardins do Petit Palais. Tudo isso é maravilhoso e inesquecível, mas virou rotina.
Todos os dias impreterivelmente às cinco da tarde eu saída do teatro, ia pro ponto de ônibus com a minha Carte Orange, totalmente integrada àquele sistema. Quando tinha um dinheirinho, tomava um sorvete na Hagen Dazs, que fica pertinho dali.
Pegava o ônibus 95, que ia me deixar na Gard du Nord. Eu estagiava no cartier chique e morava na banlieue, a periferia.
Perfeita vivência.
Os ônibus neste horário estavam invariavelmente cheios de crianças de todas as idad…

Declaração

Confesso, declaro para os devidos fins. Estou dependente.
Eu até tentei fugir, resisti, relutei.
Tudo em vão.
Ele me ofereceu pela primeira vez. Tudo foi ele.
Falou que era bom, que eu deveria tentar. Mais uma vez.
Quando eu me arrisquei, ele me deu força. Disse que era exatamente assim. Eu não tive culpa. juro.
Entrei nesse mundo sem conhecer nada, sem sequer saber os efeitos futuros.
Aliás, não existem efeitos prévios. Todos são póstumos mesmo.
Aí, a cada vez que eu tento novamente, ele aparece.
Parece que sabe.
E lê as coisas que eu escrevo, quase em primeira mão. Aliás, acho que ele é o meu único leitor assíduo.
Nome de poeta, conhece tão bem o traçar das letras !!!!
Sem contar que em algum lugar, somos irmãos. Nomes invertidos, desejos díspares, como devem ter os irmãos. Calhou de sermos colegas de profissão. E calhou de eu me apaixonar pelos escritos dele. E, sendo mais velha, me sinto como uma caçula afagada, aprovada a cada recadinho que ele deixa aqui neste meu território. Não bastasse, …

eu, menina

O olhar tão leve, que quase não existe. Um sorriso sem muita expectativa de se insinuar. Uma feição tímida, pensando ainda no que seria a vida. Lembro do dia desta foto. Eu tava de férias, na casa do meu avô materno. Sentada na mesa enorme, desenhava qualquer coisa no meu caderninho. Meu tio veio, sentou ao lado, ajustou a lente e registrou meu olhar infantil. Aliás, ele foi mais além. Ele capturou minha atmosfera de menina.