quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Ano passado eu morri......




“Ano passado eu morri. Este ano não morro mais”.
Foi Zé Limeira, que ‘poetou’ esta frase.

Uma verdade contemporânea que empurra o tempo.

A gente morre sempre, às vezes dos mesmos males.
Conversa de mesa de bar à parte,
Viva o poeta Zé Limeira!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A noite em claro


Nestas horas, queria um cigarro, uma bebida forte, um entorpecente mágico.
Um relógio com minutos mais breves ou talvez uma mente com neurônios mais lentos.
Neurônios a menos seria o ideal.
Em casa, todos dormem.
Irrita a respiração compassada, o ressonar de um, o roncar leve do outro.
Um copo d’água, mais uns minutos de abandono no colchão bem forrado.
Primeiro, tenta controlar a respiração. E não pensar em nada.
Pense em nada.
Pense em nada.
Isso é letra de música.
Pense em nada, uô uô......”
Pronto. Pensou.
Agora é preciso recomeçar.
Não pense em coisa alguma. Isso.
Inspira, expira.
Inspira, expira.
Cabeça leve...... corpo leve..... olhos fechados.
E .... passa o caminhão do lixo.
Que barulho horrível!!!!! Como é que se consegue dormir com isso????
Liga a televisão, um filme americano com muitos carros sendo destruídos.
Um deles é arrastado por um avião! Parece Harry Potter.
Rien avoir.
É melhor ir pro computador.
Ver notícias, apagar e-mails.....
E eis que o sono chega, lá pelas três.
Deita. Espera. Cochila.
E toca o despertador. Cinco horas. Ta na hora dele tomar o antiinflamatório....
Ele olha ao lado, vê aquela criatura destruída.
-Não dormiu????
-Não, aliás, tava começando a dormir agora, responde com voz sonolenta.
- E porque não me acordou?????

O sol bateu à porta. Fecha os olhos, passou a noite em claro. O dia será longo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008





O frio cortava os lábios, deixava as crianças com as faces cor de violeta.
As mãos, encarceradas nos bolsos do casaco de lã.
E o vento era tudo.
Ela andava pela rua mesmo assim. Achava que a nova saia de lã, garimpada numa feira de subúrbio caia muito bem com aquele lenço vermelho que ela havia comprado de um vendedor sírio.
Na verdade, sentia-se meio árabe.
-“Poderia ser uma Cabille”, ela pensava. Cabelos escuros, pele quase branca, olhos verdes. “Sou como Zidane, aquele jogador de futebol”.
Na verdade, pouco ou nada conhecia sobre o povo árabe. Roupas, costumes exóticos, culinária particupar, religião.... tudo quase como um folhetim.
Suas botas de couro e salto alto pareciam um metrônomo no concreto úmido da calçada.
Entrou no bar, sentou-se à mesa dos amigos. Pra afastar o frio, tomaram um vinho, pediram um couscous marroquino. Quando a segunda garrafa rouge pousou sobre a mesa, trouxe junto um homem dos seus quarenta anos.
Ele falava um francês com os “rr” muito carregados. Pediu pra sentar na mesa.
Não olhava para as mulheres.
Brindava somente com os homens.
Lá pelas tantas, já quando a consciência abre concesões ao sonho, umas três garrafas verdes encostadas nos pés da mesa, veio a perguta: “ Você é Cabille?”
Ela riu, confiante. Retrucou no melhor francês que pôde: “Não, sou brasileira.”
Não demorou muito e o árabe vira pro marido dela e pergunta: “ Por quanto você vende sua mulher?”
Silêncio.
O marido só fala português. E o homem insiste. Ela, explica que o marido não entende francês.
“ Então traduza, ora!” responde o comprador.
“Penso que não entendi, senhor”. O cara repete a sentença, tal e qual.
“Ela chama o amigo dono do bar, que explica que no Brasil é diferente, as mulheres são consideradas iguais aos homens. A esta altura, na mesa ninguém sequer respirava..
O árabe, já de pé, pede desculpas, explica que era somente um elogio ao homem, que soube escolher tão, mais tão bem a esposa.
Eles pagam a conta, aliás, o dono do restô faz uma cortesia e eles pagam somente o vinho.
Ela tira o lenço vermelho e dourado do pescoço, guarda dentro da bolsa. Sonha em colocar uma blusa de malha e tomar um sol. Abre a porta, encara os graus negativos e liga o metrônomo em andamento presto.
Cabille nunca mais.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


O tempo não passa.
Ao lado de computadores cibernéticos, talvez do século 21,
Mulheres atravessam ruas com latas d’água nas cabeças.
Lá vai Maria, na idade média.
O tempo coexiste. O feudo territorial se contrapõe aos hiperlinks, sem fronteiras.
As construções de pedra do primeiro mundo têm vista para prédios inteligentes:
Paisagens estranhas harmonizadas nos olhares atentos.
O Rio que passa na minha rua é o mesmo de tantos milhares de anos. Mudam suas águas. Poetas já falaram disso......
O tempo definitivamente não passa.
O tempo se acumula.
E as palafitas resistem. E os foguetes interespaciais viram ônibus.
E faltam ônibus nas ruas da cidade.....

Tem uma palavra que tudo resume, Tudo explica e preenche os espaços. Uma palavra que ilustra e liga. Religa. Existem laços que são p...