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O frio cortava os lábios, deixava as crianças com as faces cor de violeta.
As mãos, encarceradas nos bolsos do casaco de lã.
E o vento era tudo.
Ela andava pela rua mesmo assim. Achava que a nova saia de lã, garimpada numa feira de subúrbio caia muito bem com aquele lenço vermelho que ela havia comprado de um vendedor sírio.
Na verdade, sentia-se meio árabe.
-“Poderia ser uma Cabille”, ela pensava. Cabelos escuros, pele quase branca, olhos verdes. “Sou como Zidane, aquele jogador de futebol”.
Na verdade, pouco ou nada conhecia sobre o povo árabe. Roupas, costumes exóticos, culinária particupar, religião.... tudo quase como um folhetim.
Suas botas de couro e salto alto pareciam um metrônomo no concreto úmido da calçada.
Entrou no bar, sentou-se à mesa dos amigos. Pra afastar o frio, tomaram um vinho, pediram um couscous marroquino. Quando a segunda garrafa rouge pousou sobre a mesa, trouxe junto um homem dos seus quarenta anos.
Ele falava um francês com os “rr” muito carregados. Pediu pra sentar na mesa.
Não olhava para as mulheres.
Brindava somente com os homens.
Lá pelas tantas, já quando a consciência abre concesões ao sonho, umas três garrafas verdes encostadas nos pés da mesa, veio a perguta: “ Você é Cabille?”
Ela riu, confiante. Retrucou no melhor francês que pôde: “Não, sou brasileira.”
Não demorou muito e o árabe vira pro marido dela e pergunta: “ Por quanto você vende sua mulher?”
Silêncio.
O marido só fala português. E o homem insiste. Ela, explica que o marido não entende francês.
“ Então traduza, ora!” responde o comprador.
“Penso que não entendi, senhor”. O cara repete a sentença, tal e qual.
“Ela chama o amigo dono do bar, que explica que no Brasil é diferente, as mulheres são consideradas iguais aos homens. A esta altura, na mesa ninguém sequer respirava..
O árabe, já de pé, pede desculpas, explica que era somente um elogio ao homem, que soube escolher tão, mais tão bem a esposa.
Eles pagam a conta, aliás, o dono do restô faz uma cortesia e eles pagam somente o vinho.
Ela tira o lenço vermelho e dourado do pescoço, guarda dentro da bolsa. Sonha em colocar uma blusa de malha e tomar um sol. Abre a porta, encara os graus negativos e liga o metrônomo em andamento presto.
Cabille nunca mais.

Comentários

Dante Accioly disse…
Caracas, prima! Só tu mesmo! Parece que tô é vendo o Rinaldo passando a nota fiscal pro árabe. Kkkkkkk!!!!! Adorei o "andamento presto"!
Germana Accioly disse…
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
poderia ser andamento prestíssimo, primo. saí de lá correndo!!!!!
depois rinaldo me troca por um camelo..... eu, hein!!!!
beijo pra ti.
Antonio Ximenes disse…
Germana.

Eu só posso dizer que conseguir criar imagens mentais do "fato pitoresco" que você narrou.

Muito legal.

Abração.
Germana Accioly disse…
pitoresco!

obrigada pela sempre agradável visita. são imagens interessantes, né?
Jorgeane disse…
Tinha que oferecer uns 50 pelo menos...kkkk

Minha Cuma não tem preço. Igual ao MasterCard.
Germana Accioly disse…
kkkkkkkkkkkkk

mas na dúvida....depois ele me trocava por uma garrafa de vinho... sei não!

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