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Dorme, anjo.....



Ele sempre a embalava nas noites quentes, nas noites frias, nas noites chuvosas.
Chegava manso, abraçava a menina com afeto. Suas histórias tinham personagens fantásticos. Tinham lições de vida e feitos heróicos. Embalava então a menina e, ao final, invariavelmente ouvia o pedido: canta aquela música.
Ele, às vezes já cochilando, cansado do dia da repartição pública, deitava-se do lado do colchão e entoava a canção de ninar num ritmo lento, quase compassado com as pálpebras infantis, que, teimosas, faziam esforço para se manter abertas.
Algumas vezes a menina via o pai dormindo e na crueldade infantil o acordava:
- Falta a parte do boi da cara preta, pai!
Ele se ajeitava e terminava a missão. Aí a menina se entregava. Ele então pegava o lençol dela e “mumificava” a criança. Ela adorava.
Dormia se sentindo amada.
Anos se passaram. Décadas marcadas no calendário.
Um dia, ela ouviu a música que ele cantava no rádio. Aumentou o som. E descobriu que aquela música ninara muitas filhas nas vozes de seus pais.
Sentiu todo aquele sentimento infantil novamente. Cantou pra seus filhos o hino a cada noite, embalando-os como seu pai fizera.
Hoje eles são adultos, os dois.
E ainda se embalam. Encantam-se com suas histórias, emocionam-se com suas vidas
Riem, choram, brincam de viver.

Comentários

Antonio Ximenes disse…
Germana.

Não tem como não se comover com essas coisas.

A minha "Bá" cantava "Eu te proponho" do Roberto Carlos.

Eu ficava pedindo, na minha linguagem de menino:

- Canta "Eu tipoponho"

Daqui a pouco... serei eu a cantar para o meu rebento... rs.

Bela imagem.

Abraço.
Dante Accioly disse…
Beijo pros dois. Pai e filha.
Raiana disse…
É como uma herança, né? repassar canções e histórias que vc ouvia quando era criança! ^^
Espero lembrar de muitas canções para se um dia eu for colocar alguém para ninar!
Muito lindo! ^^
Leonardo Werneck disse…
Lindo demais esse texto!


Beijos
Germana Accioly disse…
Queridos,

Que bom que este texto acordou em todos belíssimas lembranças!
beijos
Antonio Ximenes disse…
Germana: Passei por aqui para dar um "Alô".
Vou ficar aguardando teu próximo "post".
Abração.
Mack disse…
Gê, teu texto tão lindo me fu...
Agora tô me segurando com a saudade do não ter. Sabe como é?

Quem teve o carinho, guarda a doçura da lembrança. Mas só quem não o teve, sabe o quanto fez falta.

Mostra o texto pro teu pai. tá?

Beijo gigante, amiga!
Ultra Violet disse…
Filhos criados, problemas dobrados. Nunca deixam de ser crianças para nós.


Bjs.
Maíra Brito disse…
acho q te vi em BSB, faz um mês. talevz um pouco menos.
vc ainda está aqui?
eu ia encontrar Germana Pereira, na Fundaj do Recife, mas tinha na cabeça q ia encontra vc, Germana Accioly. Aí te vi e achei q não era vc.
mas desfiz o engano. falta só saber se vc era vc mesma
=)
bjosssss
Germana Accioly disse…
=Mack, não importa de onde, mas quem é doce recebeu doçura. e vc é das pessoas mais suaves que eu conheço. qua saudade da moléstia!!!!
= Ultra violet, obrigada pela sua visita!
=Maíra, querida! eu sou eu mesma.kkkkkkkkkkkkk
estou em Bsb. vamos nos ver?
Anônimo disse…
Texto lindo, Gê!Muito emocionante mesmo.
Também adorava ouvir as mesmas músicas do meu "painho" todas as noites! Cantei dezenas de vezes pra Bia e sempre me emociono quando a vejo repetindo as mesmas canções pras suas bonecas!
Bjs pra tú, amiga muito amada!
Siga os conselhos de Mack.
Cata

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