Pular para o conteúdo principal

Faltam flores e frutas no café




Faltam flores no café. Estão arrumadas as xícaras em desalinho. Detalhes de manchas de refeições passadas são sutilezas cromáticas.
Faltam frutas no café. O pardo pão decora a toalha. Delírios estéticos.
Faltam vozes no café. Resta a monotonia. O cântico lerdo do vento à distância e a cadeira vazia à frente.
A vida dela, a quantas anda!
Resquícios de imagens, pessoas, experiências.
As mãos indecisas repetem como máquinas as ações de todo dia.
A faca rasga o pão.
A faca passa manteiga.
A faca cega.
Chega a se distrair com o barulho que o maxilar faz ao triturar o pão. O som da solidão. Quando as cadeiras tinham vida, tinham donos, e ela se aborrecia com a briga das crianças, com a balbúrdia na mesa, não ouvia aquele som.
Isso é solidão. Deve ser.
Melhor ouvir uma música.
Melhor sair dali.
Faltam flores e frutas.
Mas, em poucos dias morrerão as pétalas.
Em algum tempo as frutas murcharão.
Deixa assim.
Faltam flores e frutas no café.

Comentários

Antonio Ximenes disse…
Uma mesa de refeição silenciosa... é o pior sintoma... é o clímax da solidão.

Eu lembro que a hora da refeição era a hora de infernizar os irmãos... rir... brincar.

Era a hora em que a mãe da gente dizia: Vai comer só isso !?? Tá com "fastio" !?!??

Era um ritual para reforçar laços na hora de encher a barriga.

Essas eram as verdadeiras flores... as verdadeiras frutas.

Lindo texto... de coração.

Abração.
Germana Accioly disse…
Oi Ximenes. Que bom que vc gostou do texto. Confesso que hesitei antes de postá-lo. ele veio como um sopro e somente depois de lê-lo pela primeira vez percebi que é nada mais, nada menos do que medo do futuro.
Leonardo Werneck disse…
Uma mesa sem som, sem olhares é muito ruim, como o Antônio disse, é o clímax da solidão.


É um texto que me fez pensar, pq tenho me sentido só mesmo com a casa cheia, só dentro de mim, mas cheio de amor. É um estar só estranho. Um dia passa.

Beijos
Germana Accioly disse…
leonardo,

tudo um dia passa. a questão é COMO passa. às vezes a gente está sozinho, mas com o coração aquecido. Às vezes, ficamos sentindo nossas dores no meio de um monte de gente. Quando me sinto assim, como vc se sente agora, penso que devo tirar proveito destas dores. "canário que muda pena dói"
Dante Accioly disse…
Lá em casa tem flores e frutas e cadeiras ocupadas e espaço para ti e para os teus.
:)
Prima, saudade de ti!
Mack disse…
O texto tá lindo e doce, como não esteve o café da manhã. Mas também me preocupou... Te ligo hoje à tarde!

Beijo, minha amiga amada!
Germana Accioly disse…
=Dante, e como são inesquecíveis os cafés da manhã na tua casa. Experiências com as cafeteteiras, conversas sem fim..... saudade tb!
=Mack, hoje acordei querendo comprar uma garrafa térmica pra manter meus cafés mais quentinhos.... coincidência ou não, ganhei flores de manhã. As frutas estavam lá, eu não as via. Aí o celular tocou, ouvi uma voz amiga! Era tu com tua parabólica sintonizando meu canal.
beijo!
Mack disse…
Passei de novo pra desejar um Feliz Aniversário. Mas não desses parabéns da boca pra fora. Mando um parabéns de coração, desejando que tua nova idade te traga ainda mais alegria e saúde.
E que a maturidade aperfeiçoe tua paciência, fé e talento.

Bom dia, bom ano! Te adoro muitoooo, viu?

Beijo!
Antonio Ximenes disse…
Germana.

Eu sou "inxirido" mesmo... eu descobri pela Mack que hoje é o teu dia.

Sendo assim.

Vou ousar te desejar Feliz Aniversário... de coração blogueiro para coração blogueiro.

Te desejo frutas e flores e que este dia seja sempre de renovação.

Abração forte do Pitoresco que vos tecla.
Germana Accioly disse…
Queridos,

de blogueira para blogueiros, eu me senti muito feliz com estas mensagens! beijo grande

Postagens mais visitadas deste blog

A teimosia do amor

Que alegria estar aqui com tanta gente importante nas nossas vidas!

Que alegria reunir todas e todos neste cenário tão lindo e significativo, construído com amor, partilhado por tantos e tantas de nós. Acredito que muitos e muitas aqui têm histórias pra contar que viveram nesta casa, neste jardim.

Quem está aqui pela primeira vez, seja bem vindo e bem vinda à vivenda Tesser, mais que uma casa, um endereço de acolhimento, que muito me diz sobre generosidade e acolhida.

Paula e Luana, que emoção, que gratidão, que imensidão ver vocês duas aqui na minha frente, mãos dadas, olhos brilhando!

A Paula é para mim uma dessas pessoas fundamentais na vida. Fundamental para a minha alegria, fundamental para o meu futuro. Quis esta mesma vida que, vindas de uma mesma família, ainda com toda esta identificação, tivéssemos morado apenas 8 meses na mesma cidade nesses 40 anos mais ou menos que nos conhecemos.

Paulinha, minha prima virou irmã, minha prima gêmea, como costumamos nos chamar. Talvez a m…

Poligamia

Casei umas 15 vezes nos últimos anos. Talvez tenha sido mais.   A primeira vez casei com os olhos. Olhei, apaixonei, casei. Bodas de papel. Na segunda vez decidi formalizar. Um casamento coletivo, no cartório. Tinha gente de todo tipo junto. Bodas de algodão. O casamento seguinte foi na igreja. Trocamos as alianças num ritual singelo. O primeiro filho nos braços. Bodas de trigo. As bodas de flores foram com um homem trabalhador, pensava no bem estar da família. Compramos o apartamento. Depois, me surgiu um homem mais maduro, mais leve. Gostava de sair à noite, de viajar. Bodas de madeira. Com as bodas de açúcar ganhei meu segundo filho. Doce, alma de artista, olhos curiosos. Igual ao pai. Bodas de latão para os tempos difíceis, bodas de barro para o artesão. Amei o jardineiro, fui amante do menino.Do puro. Do macho. As frágeis bodas de papoula me trouxeram um homem inseguro. Amei. Buscando firmeza, encarei as bodas de zinco. Depois de aço. Esbarrei na beleza do ônix. No tempo do …

Mulher Maravilha em primeiro lugar

A ideia era fazer um diário de bordo. Um registro de tudo o que vivemos na viagem de mulheres ao Sertão do Pajeú. Queria voltar ao trabalho com um relato fidedigno. Cartesiano. Celulares carregados, procurando o melhor ângulo para fotos e vídeos. Não consegui. O foco estava no sentir. Estava no viver e não no relatar. Não consegui. Foi uma daquelas viagens em que a gente esquece o telefone, abandona a internet. Estava conectada com outras ondas. Não perdi os momentos, como alguém pode pontuar. Guardei todos. Fiz questão de não enxergar através das lentes. Viagem longa, estrada reta, são ótimos bálsamos. Para curar agonias da rotina massacrante. Pra pensar melhor sobre a vida e para chegar ao destino de peito aberto, um pouco esvaziado do que nos atropela no dia a dia. Fui. Às cinco da manhã fiz uns sanduíches e coloquei tudo na bolsinha térmica que comprei na revista da natura. Nunca tinha usado. Fiz uns sandubas de queijo e pesto. Pão baguete. Dividi em quatro. Outras coisitas qu…