Pular para o conteúdo principal

Via Láctea.... Farinha Láctea



O dinheiro contado no bolso.
Na cabeça, a lista resumidíssima para ir ao supermercado.
Levava pela mão o primeiro filho: cabelinhos de trigo, olhinhos escuros curiosos, lábios vermelhinhos.
Segurava seus dedinhos, uns gominhos de laranja, como quem carrega uma peça rara.
No caminho, pouco mais de um quilômetro, o pequeno não parava de falar.
Ele adorava as palavras e sua mente indagava coisas impensáveis.
- Mamãe, como é que cavalo tira catota????
Ela pensava, ria no seu íntimo maravilhada com aquela cabecinha dourada e respondia, com paciência:
- Sabe que eu nunca pensei nisso, filho? Será que cavalo fica gripado?
Ele nem mesmo deixava a resposta ultrapassar os limites do ouvido e continuava:
- Mãe, hoje o almoço foi carne de sol.... e mataram o sol, foi?
Ela achava engraçado. Achava inteligente aquela pessoinha inventar estas coisas. Respondia com muito cuidado pra não deixar nenhuma palavra fora do lugar.
Quando chegaram ao supermercado, ela explicou ao filho que não poderia comprar muitas coisas. Iria pegar nas prateleiras somente o necessário. O menino se comportou muito, muito bem. Quietinho, sentado de frente pra ela no carrinho, continuava a conversa das imagens de quem começa a conhecer o mundo.
Voltaram pra casa, o sol já se punha.
O pequeno foi brincar no quarto e ela como todo dia, fez sua papinha, serviu por volta das sete da noite.
Era seu primeiro filho. Apaixonante.
Mais tarde, umas oito da noite, esperando o pai chegar do trabalho, deitaram-se os dois na rede. Ficavam sempre ali, olhos vidrados no céu.
Ela explicava o que sabia sobre a lua, os planetas, a via láctea....
E o menino curioso ouvia, calava, olhava.
Eles cantavam, deixavam o tempo passar como uma brisa leve e satisfeita.
Até que, de repente, ela viu uma estrela cadente.
No seu entusiasmo, precipitou-se ao filho:
-Uma estrela cadente, querido! Vai, vai, faz um pedido!!!!
O pequeno pensou rápido.
- Posso pedir qualquer coisa?
E a mãe:
- Vai, filho! Rápido!
E ele então desejou:
- Eu quero Farinha Láctea!!!!
Ela emudeceu. Naquela tarde, no passeio até o supermercado, tinha comprado Nescau.......

Comentários

Antonio Ximenes disse…
Germana.

Eu ri demais da pergunta sobre o cavalo... muito legal.

A criança é um pequeno universo de simplicidade. Uma simplicidade que nos falta quando crescemos.

Adorei a propaganda antiga da Farinha láctea... adorei o texto... adorei o pedido feito para a estrela... rs.

Até hoje... ainda gosto de comer farinha láctea pura com um pouquinho de açúcar.

Não cresci.

Abração.
Germana Accioly disse…
ximenes!

eu tb já me diverti muito com estas idéias infantis.
Farinha láctea na minha casa é uma coisa que não falta mais.kkkkkk
beijo
Anônimo disse…
Muito bom, Gê! Saudade de doer!!
Bjs
Cata
Germana Accioly disse…
querida! muita saudade tb!
primo, gosto de rir contigo!
Maíra Brito disse…
farinha láctea combina com pó de pirlimpimpim??
tb quero!
":)
Edson disse…
Crianças são almas puras, curiosas, observadoras... ...seu pensamentos combinam inocência, criatividadade, afeto e espontaneidade que pouco a pouco jvão sendo perdidos nos rígidos padrões que sismamos ser bom para elas na deformacao da igualdade. Deformação? Deformação sim! Assim como não existem dois DNA , duas folhas ou duas impressões digitais iguais, tampouco existem duas mentes iguais. Por isto eu lamento que nossas crianças sejam forcadas a " caberem" no mesmo formato de ensino no qual serão criativamente castradas. Lembro-me que pela primeira vez que entrei em um " deformatorio" de criatividade eu tinha sete anos de idade. Já sabia fazer música, tocar bastante bem piano, desenhar e colorir e juntar meus sonhos inocentes de "via lactea'" a idéias coerentes de pura reminiscências de minhas próprias ideias e sonhos tao inocentes. Havia, sempre o estimulo!, um grande fomentador de sonhos que longe estava de castra-los. Estímulos quase dissimulados, estímulos bem produtivos. Tudo era muito alegre e a felicidade? Geral!
Sim! Meus Pais, mas sobretudo minha mãe foram os meus "professores" na idade infantil e minha mãe, para
que eu continuasse a sonhar com música, convenceu meu pai e a meu irmão um ano mais velho, a serem seus aluno também. Então, toda a família tocava algum instrumento cada um estimulando os sonhos dos demais. Foi muito legal a minha infância. U

Edson disse…
Parabéns Germana! Por ter os filhos que sonham e criam realidades que são tão reais quanto os sonhos. Êh dessas reminiscências que surgem os grandes da vida.j Criar eh prescrutar o inconsciente fazendo-o emergir do nada dando-lhe a forma dos sonhos que ali vieram habitar. Parabéns Germana, por juntar seus sonhos aos dele permitindo que se irmanassem em criaturas tão vivas por de fato terem vida ao terem sido vividas, bem vividas e sentidas la no infinito da mente.

Postagens mais visitadas deste blog

A teimosia do amor

Que alegria estar aqui com tanta gente importante nas nossas vidas!

Que alegria reunir todas e todos neste cenário tão lindo e significativo, construído com amor, partilhado por tantos e tantas de nós. Acredito que muitos e muitas aqui têm histórias pra contar que viveram nesta casa, neste jardim.

Quem está aqui pela primeira vez, seja bem vindo e bem vinda à vivenda Tesser, mais que uma casa, um endereço de acolhimento, que muito me diz sobre generosidade e acolhida.

Paula e Luana, que emoção, que gratidão, que imensidão ver vocês duas aqui na minha frente, mãos dadas, olhos brilhando!

A Paula é para mim uma dessas pessoas fundamentais na vida. Fundamental para a minha alegria, fundamental para o meu futuro. Quis esta mesma vida que, vindas de uma mesma família, ainda com toda esta identificação, tivéssemos morado apenas 8 meses na mesma cidade nesses 40 anos mais ou menos que nos conhecemos.

Paulinha, minha prima virou irmã, minha prima gêmea, como costumamos nos chamar. Talvez a m…

Poligamia

Casei umas 15 vezes nos últimos anos. Talvez tenha sido mais.   A primeira vez casei com os olhos. Olhei, apaixonei, casei. Bodas de papel. Na segunda vez decidi formalizar. Um casamento coletivo, no cartório. Tinha gente de todo tipo junto. Bodas de algodão. O casamento seguinte foi na igreja. Trocamos as alianças num ritual singelo. O primeiro filho nos braços. Bodas de trigo. As bodas de flores foram com um homem trabalhador, pensava no bem estar da família. Compramos o apartamento. Depois, me surgiu um homem mais maduro, mais leve. Gostava de sair à noite, de viajar. Bodas de madeira. Com as bodas de açúcar ganhei meu segundo filho. Doce, alma de artista, olhos curiosos. Igual ao pai. Bodas de latão para os tempos difíceis, bodas de barro para o artesão. Amei o jardineiro, fui amante do menino.Do puro. Do macho. As frágeis bodas de papoula me trouxeram um homem inseguro. Amei. Buscando firmeza, encarei as bodas de zinco. Depois de aço. Esbarrei na beleza do ônix. No tempo do …

Mulher Maravilha em primeiro lugar

A ideia era fazer um diário de bordo. Um registro de tudo o que vivemos na viagem de mulheres ao Sertão do Pajeú. Queria voltar ao trabalho com um relato fidedigno. Cartesiano. Celulares carregados, procurando o melhor ângulo para fotos e vídeos. Não consegui. O foco estava no sentir. Estava no viver e não no relatar. Não consegui. Foi uma daquelas viagens em que a gente esquece o telefone, abandona a internet. Estava conectada com outras ondas. Não perdi os momentos, como alguém pode pontuar. Guardei todos. Fiz questão de não enxergar através das lentes. Viagem longa, estrada reta, são ótimos bálsamos. Para curar agonias da rotina massacrante. Pra pensar melhor sobre a vida e para chegar ao destino de peito aberto, um pouco esvaziado do que nos atropela no dia a dia. Fui. Às cinco da manhã fiz uns sanduíches e coloquei tudo na bolsinha térmica que comprei na revista da natura. Nunca tinha usado. Fiz uns sandubas de queijo e pesto. Pão baguete. Dividi em quatro. Outras coisitas qu…