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Fortes são eles





São sete da manhã e a poeira vermelha incensa a W3.
A piaçava arranha o asfalto. São mãos calejadas conduzindo aquele balé medíocre. Paro no sinal vermelho para ver o espetáculo.Tudo perfeitamente orquestrado.
O sol ainda se levanta. A fumaça preta que sai dos ônibus é a aurora destas bandas. Não vejo o orvalho.
Nem mesmo as roupas já gastas, sujas, escuras e remendadas aqui e ali ofuscam a sua autoridade. É a sua casa. A árida W3 é seu lar. Os canteiros são jardins vistosos que abrigam revoadas de pombos. Sua sala, marquises velhas de concreto. Talvez os semáforos sejam luminárias finamente alinhadas para embelezar o ambiente.
Após o trabalho de limpeza matinal, senta-se no jardim dos pombos e desenha. Não importa se os papelões vieram do lixo. Se seu lápis é um caco de carvão enjeitado pelo fogo.
Suas imagens toscas viram raios curvos, pontos de fuga. Reprodução de seu mundo particular. Absorto em suas viagens, ele nunca percebeu minha curiosidade.
Passo com meu carro todo dia e pertenço àquele universo. Uma anônima observadora. Uma coitada que todos os dias serve-se à mesa, espera o sinal de trânsito orientar suas partidas, voltando sempre ao apartamento cuja a porta está trancada.
Na sua rotina fiel, imagino, meu personagem é feliz. Seu mundo, à imagem e semelhança de seus devaneios divergentes, parece-me em paz.
E que coragem! Ter a mente insana numa cidade cartesiana. Na estética parnasiana, ele exerce o dadaísmo. Encontra nas retas paralelas e perpendiculares os becos que não vejo. Assume brechas de sua consciência entalhando seus sonhos do outro mundo.
Os carros seguem sua sina. O eixo é o rumo que dá no norte e no sul.
Fortes são os loucos. Fortes o bastante para subverter a rotina imposta pelo Plano Piloto.

Comentários

Antonio Ximenes disse…
Os olhos da loucura dão outros tons... outras cores para essa realidade fria.

Fortes são os loucos... que por mais caótica que seja a situação do mundo que os cerca... encontram seu labor... seu lar... seus amigos imaginários... em um mundo bem melhor criado a sua própria imagem e semelhança.

Abração.
Germana Accioly disse…
ximenes

O louco disso tudo é que tudo fica normal. Ontem encontrei Na "casa" dele umas 10 vassouras. todas tiradas do lixo. O louco disso tudo é que REALMENTE fica banal.
Dante Accioly disse…
Putz, prima. Havia um tempo que eu não passava por aqui (ou por alhures) por sincera falta de tempo, você sabe. Mas, depois que voltei a visitar os blogs amigos, foi aqui que decidi descansar as vistas. Mas você não me deixou (descançar). Que texto inquietante da porra. Cada imagem, cada alegoria, cada metáfora me levou bem para o meio da W3. Agora eu estou lá. Feito piche. Grudado no asfalto.
Mack disse…
saudade da tua voz...

beijo.
Germana Accioly disse…
primo, falotu esta figura de linguagem: meu personagem é grudado no asfalto! que bom que tu voltou.
mack, saudade tb, amiga. muito. muita.
Maíra Brito disse…
te vi de longe, na TV... eu correndo e vc se preparando pra uma gravação, eu acho. entre nós, uma dessas paredes de vidro da 'transparência'...
=)
Germana Accioly disse…
engraçado... pensei em vc quando estava na tv....
mas não te vi!
um dia vai chegar.
beijo!
Mana, que lindo, Mana, que lindo! Amei, amei, amei! Lindo! Escreve mais! Te amo.

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