terça-feira, 26 de março de 2013

Terra arrasada.




Acabei de matar todos os sonhos.
Estavam podres.
 Infectados. 
Embolorados com o fungo da vida.
A terra em que os plantei ficou estéril.
Nenhum bicho ou planta, ou ser vivo dela se alimenta.
Antes que morressem de tédio, matei-os.
Com a firmeza de quem os criou.
Delicadeza e autoridade para velar cada um.
Assim como deve ser.
Prefiro a morte ao sofrimento.
O horizonte vazio, às construções condenadas.
O nada, ao delírio.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Ao Deus Dará




Os casarões do centro do Recife contam histórias.
Guardam nos ladrilhos hidráulicos do piso a estética de uma época, nos seus quintais brotam porcelanas, cacos de vidro, cristais de outrora. Têm em seus portais as almas que ali habitaram. 
Nem tão poético assim.
A história mais recente não dá conta nem faz jus ao passado.
Vire a página.
Relegados a “moradias sociais”, os imensos sobrados foram loteados em cubículos. Lá estão amontoados papelão, móveis, entulhos e gente.
Tudo no mesmo patamar, sem hierarquia.
É uma solução para dar moradia a quem nada tem.
O recurso chama-se Aluguel Social. Bonito nome.
Criado para ajudar homens e mulheres que não têm condições de estruturar sozinhos a própria vida.
Desastroso.
Esta é a política da gambiarra.
Sinto tristeza em ver, ao lado da minha casa, tanta gente entulhada, sem nenhuma assistência.
Quem aparece sempre é a polícia.
Nestas hospedarias improvisadas não tem água.
A luz é precária, convite a um acidente. 
O crack é um hóspede presente. Ou seria uma praga? Um predador? 
Vejo estas pessoas trocarem o dia pela noite, crianças crescendo sem nenhuma referência.
Falta tudo.
Falta humanidade.
Este aluguel é anti social. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Hoje é quarta-feira








A cadela labrador que toma conta da academia de ginástica é obesa.
Tem deputado querendo cadastar os viciados em crack do país intero.
O nome dele é Osmar Terra. Ouço assim: Os Mar Terra...
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra...
Grande coisa.
A rua da Alegria chora pelo chão uma água fétida.
A rua da Glória vive seus dias inglórios.O tal deputado deveria ir lá conferir.
E daí?
Eu faço ginástica e como queijo de manteiga no café da manhã.
O ventilador nina meu sono.
Um amigo se perde pra sempre embaixo de uma carreta na BR 101.
A vida que se vai e que não volta.
A minha já ta mais pra lá do que pra cá e eu teimo.
Passo a primeira, a segunda e a terceira. 
Confiro o atraso regulamentar de 15 minutos, tou dentro.
Paro nos sinais vermelhos e já vai me abusando esta coisa de andar na linha.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O GIGANTE



- Alô?
- Oi mãe. Olha, ta tudo bem.
- Já sei que não.
- É que eu fui assaltado quando desci do ônibus.
- MEU DEUSSS!!!
- Calma, mãe. Tou ligando do telefone do policial.
- O QUE??????
- É que querem que eu vá pra delegacia.
-DELEGACIA???? VOCÊ TA ONDE?
- Na Praça do entroncamento.
- Tou indo praí.
...

É somente um menino, mas quando eu olho mesmo, com mais apuro, vejo a grandeza da sua alma.
Tanto, que às vezes nem da pra ver além.
Menino de olhos naif.

Hoje outro menino com os olhos naif camuflados assaltou o meu.
Roubou, sim, mas antes foi roubado. Teve a vida roubada, teve a infância subtraída e agora tem a alma confiscada pela droga.
Me vejo ao lado do meu filho e quase quero que a mãe do outro chegue pra ficar ao lado do camburão e confortá-lo.
Não quero ouvir aquele choro quase sem propriedade, perdido, sem saber nem direito o que vai acontecer.
Olho pro camburão e vejo um desperdício. Poderia ser um pianista. Um advogado. Um cientista. Um policial.
Mais é um menino assustado e com crise de abstinência. Treme, o coitado. Pede socorro. Diz que precisa de tratamento. Clama.
Quero ir embora daquele lugar o quanto antes. Assino uns papeis.
Peço pra não machucarem o agressor. Pego forte na mão da vítima.
Saio sequelada, machucada.
No caminho, o gigante me consola. Minha lucidez me deixa cega.
Fico feliz de estar ao lado do meu filho numa hora dessas. Deixo ele no conforto da escola. Imagino um jantar pra consolar seus olhos assustados.
Se tem uma coisa que me faz grande é a maternidade. Um dia, quando nada mais existir, não quero ser lembrada. Já estou tatuada no peito dos meus filhos.

Tem uma palavra que tudo resume, Tudo explica e preenche os espaços. Uma palavra que ilustra e liga. Religa. Existem laços que são p...