Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Março, 2013

Terra arrasada.

Acabei de matar todos os sonhos. Estavam podres.  Infectados.  Embolorados com o fungo da vida. A terra em que os plantei ficou estéril. Nenhum bicho ou planta, ou ser vivo dela se alimenta. Antes que morressem de tédio, matei-os.
Com a firmeza de quem os criou.
Delicadeza e autoridade para velar cada um.
Assim como deve ser. Prefiro a morte ao sofrimento. O horizonte vazio, às construções condenadas. O nada, ao delírio.

Ao Deus Dará

Os casarões do centro do Recife contam histórias.
Guardam nos ladrilhos hidráulicos do piso a estética de uma época, nos seus quintais brotam porcelanas, cacos de vidro, cristais de outrora. Têm em seus portais as almas que ali habitaram.  Nem tão poético assim. A história mais recente não dá conta nem faz jus ao passado.
Vire a página.
Relegados a “moradias sociais”, os imensos sobrados foram loteados em cubículos. Lá estão amontoados papelão, móveis, entulhos e gente.
Tudo no mesmo patamar, sem hierarquia. É uma solução para dar moradia a quem nada tem.
O recurso chama-se Aluguel Social. Bonito nome.
Criado para ajudar homens e mulheres que não têm condições de estruturar sozinhos a própria vida.
Desastroso.
Esta é a política da gambiarra. Sinto tristeza em ver, ao lado da minha casa, tanta gente entulhada, sem nenhuma assistência. Quem aparece sempre é a polícia. Nestas hospedarias improvisadas não tem água.
A luz é precária, convite a um acidente.  O crack é um hóspede presente. …

Hoje é quarta-feira

A cadela labrador que toma conta da academia de ginástica é obesa. Tem deputado querendo cadastar os viciados em crack do país intero. O nome dele é Osmar Terra. Ouço assim: Os Mar Terra... Nem tanto ao mar, nem tanto à terra... Grande coisa. A rua da Alegria chora pelo chão uma água fétida. A rua da Glória vive seus dias inglórios.O tal deputado deveria ir lá conferir.
E daí? Eu faço ginástica e como queijo de manteiga no café da manhã. O ventilador nina meu sono. Um amigo se perde pra sempre embaixo de uma carreta na BR 101. A vida que se vai e que não volta. A minha já ta mais pra lá do que pra cá e eu teimo. Passo a primeira, a segunda e a terceira.  Confiro o atraso regulamentar de 15 minutos, tou dentro. Paro nos sinais vermelhos e já vai me abusando esta coisa de andar na linha.

O GIGANTE

- Alô? - Oi mãe. Olha, ta tudo bem. - Já sei que não. - É que eu fui assaltado quando desci do ônibus. - MEU DEUSSS!!! - Calma, mãe. Tou ligando do telefone do policial. - O QUE?????? - É que querem que eu vá pra delegacia. -DELEGACIA???? VOCÊ TA ONDE? - Na Praça do entroncamento. - Tou indo praí.
...

É somente um menino, mas quando eu olho mesmo, com mais apuro, vejo a grandeza da sua alma.
Tanto, que às vezes nem da pra ver além.
Menino de olhos naif.

Hoje outro menino com os olhos naif camuflados assaltou o meu. Roubou, sim, mas antes foi roubado. Teve a vida roubada, teve a infância subtraída e agora tem a alma confiscada pela droga. Me vejo ao lado do meu filho e quase quero que a mãe do outro chegue pra ficar ao lado do camburão e confortá-lo. Não quero ouvir aquele choro quase sem propriedade, perdido, sem saber nem direito o que vai acontecer. Olho pro camburão e vejo um desperdício. Poderia ser um pianista. Um advogado. Um cientista. Um policial. Mais é um menino assust…