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Poligamia





Casei umas 15 vezes nos últimos anos. Talvez tenha sido mais.  
A primeira vez casei com os olhos. Olhei, apaixonei, casei.
Bodas de papel.
Na segunda vez decidi formalizar. Um casamento coletivo, no cartório. Tinha gente de todo tipo junto.
Bodas de algodão.
O casamento seguinte foi na igreja. Trocamos as alianças num ritual singelo. O primeiro filho nos braços.
Bodas de trigo.
As bodas de flores foram com um homem trabalhador, pensava no bem estar da família. Compramos o apartamento.
Depois, me surgiu um homem mais maduro, mais leve. Gostava de sair à noite, de viajar.
Bodas de madeira.
Com as bodas de açúcar ganhei meu segundo filho. Doce, alma de artista, olhos curiosos. Igual ao pai.
Bodas de latão para os tempos difíceis, bodas de barro para o artesão. Amei o jardineiro, fui amante do menino.Do puro. Do macho.
As frágeis bodas de papoula me trouxeram um homem inseguro. Amei.
Buscando firmeza, encarei as bodas de zinco. Depois de aço. Esbarrei na beleza do ônix.
No tempo do ardor, me enfronhei pelas bodas de linho e renda. Tempo do marfim.
O príncipe me chegou em um cavalo branco nas bodas de cristal. Fui sua bela. Adormeci no amor.
As bodas de turmalina me pareceram sem sal.
As de cretone foram cretinas.
Estou nas bodas de porcelana. São lindas. Encantam. Porém, carecem de delicadeza no cotidiano.
Não sou volúvel. Sou criativa.
A questão não é ser casado. É estar. Verbo de ligação, que faz laço, costura a frase e a vida.
O segredo é casar todo dia.
Há 20 anos. 

Comentários

MARIA ACCIOLY disse…
Mas a sua mãe curtiu de montão.

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