sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Sem remédio

Quero hoje falar da minha dor. Da dor mais forte do que eu, da dor que inunda qual enxurrada e cobre de lama todo meu jardim.
Quero hoje sentir a dor. Numa tentativa louca de gastar e diminuir o volume à porta do peito. 
esquecer e esconder a dor não tem sido eficaz. Quero me solidarizar com a minha dor, sentar na mesma mesa e dividir o mesmo copo. 
Chora, minha dor. Chora. 
Desafoga o peito, que só assim tudo se vai. 
Atrás da dor deve haver um campo vasto e forte. Verde e profícuo.
Quero hoje que a dor me ouça. Quero que a minha solidão me acompanhe. Que depois do almoço possamos desfrutar de um café sem pressa e sem açúcar. De doce, basta a vida. 
Minha ironia e minha dor são íntimas. 
Minha dor é filha da saudade, mãe da minha maternidade, irmã da alma. 
Atravessamos a rua juntas, dormimos e acordamos lado a lado. 
Minha dor não dói no corpo. Não tem analgesia. 
Onde dói? Não sei. 
Onde cura? Não sei. 
Que remédio? 
Sente a dor. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Saudade, Clarice



O tamanho da alma da gente ninguém pode medir.
E quanto mais larga, mais profunda e mais densa, mais abriga sentimentos. E insanidades. 
Não existe um tamanho padrão, nem sequer uma grade de números que encaixam ou se enquandram.
Eu, como todo mundo, não sei o tamanho da minha. 
Calço 35. Visto 40. Tenho um grau de miopia. 
Mas a alma, flutua. 
Só sei que hoje ela está inundada, ou seria irrigada? 
Costumo dizer que sou uma pessoa das águas, porque choro de alegria e de tristeza. Choro de orgulho e de vergonha. Choro de graça. 
Hoje a alma está, assim, adolescente. 
Nasci em 1972. Quando comecei a ler Clarice ela já tinha partido. 
E será que parte quem deixa tanto? Mas Clarice me pegou forte por suas narrativas existenciais.
Foram anos relendo tudo como se fosse a primeira vez. Não sou especialista em Clarice. Sou leitora dela.
Hoje eu encontrei Clarice. E ela ouviu a minha música. E ela me fez ouvir a minha música. Passei 20 anos sem tocar.
 
E que presente tocar para Clarice! O bairro dela é também o meu. Somos vizinhas de um tempo desigual.
Quando subiram os créditos eu nem sabia o que falar. E ainda não sei.
Mas tinha que escrever. Num medo de perder o sentimento, que se infiltra em tantas vielas e travessas.
Tudo tão particular e universal.
Hoje a minha alma é toda de Clarice.
No São Luiz vejo o rio beijando a aurora e o sol e mais uma vez deixo os olhos livres.
Só gratidão. O prelúdio da gota d'água de Chopin tem outro sentido pra mim a partir de hoje.
( Para Taciana Oliveira, que montou a vida de Clarice e me fez tocar para ela)

sábado, 12 de dezembro de 2015

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Férias para a dor


Antes me dói a dor do outro.
Mais fácil do que sentir a minha.
Mais altruísta, menos trabalhoso.
A dor do outro não me cura.
Nem me adoece.
Uma saudade permanente, uma inquietude sem nome.
Me atrapalha a vida. Isso. A vida me atrapalha.
Agora mesmo, escrevendo, preciso parar inúmeras vezes. Atender o telefone, assinar um documento, responder a alguém.... Eu querendo me conectar comigo mesma e a vida me puxando pra fora. Minha viagem para dentro sendo interrompida.
Eu mesma não aguento o peso das horas, dos dias, dos anos.
Antes me dói o futuro, que é incerto.
Porque o passado em mim já simbiótico, camufla-se.
Reveste-se de memória,
Fantasia-se de falsos pesadelos,
Enfeita-se de antigos aromas.
Preciso de férias para minhas viagens internas.
Como companhia. eu mesma.
Respeitando minha dor.
Quem serei eu hoje sem a dor que carrego?
O que me edifica e o que me destroi?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O doce e o amargo.

Minha presidenta e de todos os brasileiros,

Escrevo aqui do calor do Recife, cidade de tantas lutas e tanta tradição.
Se esta carta chegar às suas mãos, já será um imenso prazer.
Dizem por aqui que, quem adoça a boca dos meus filhos, a minha adoça.
Em primeiro lugar, Dilma, agradeço. Pela oportunidade que tantos jovens como o meu Dante estão vivendo, de conhecer outros países, outras culturas, outras línguas e, com isso, trazer uma infinidade de novas possibilidades ao nosso país e ao futuro de cada um.
Nossa família jamais teria como oportunizar uma experiência semelhante. Linda esta sua iniciativa de abrir a possibilidade para toda uma geração. Como mãe, vejo minha cria voar, crescer com a força da educação. Isso é política pública responsável e de longo prazo. Valorizar pessoas e, a partir delas, melhorar a sociedade.
Sou jornalista de formação, sou nordestina, mãe, mulher e cidadã. Desde muito cedo na vida compreendi que militância existe na política, mas também em cada um desses outros papéis.
E, permita-me dizer, aprendi muito com o seu exemplo.
Acompanhei sua trajetória desde o Ministério de Minas e Energia, um território povoado pelo poderio masculino. Quando me diziam: "Dilma é dura feito um homem", eu pensava: "Porque nós, mulheres, quando assumimos posições tradicionalmente masculinas, somos estigmatizadas justamente na questão de gênero? Porque sempre discutir o que nos afasta, e nunca o que nos une?"

Minha felicidade foi levar meus filhos (os dois homens) às ruas para  comemorar a eleição da primeira mulher Presidenta deste país. Uma geração que, certamente, não tem a dimensão disso tudo, desta revolução, deste avanço e do imenso passo dado em direção à igualdade e ao empoderamento feminino. Com certeza, presidenta, meus filhos serão melhores do que eu.
A como mãe e mulher, sei que compreende a grandeza deste momento.
E eis que eu me entristeço quando, aos poucos, o discurso das ruas parece cegar. Como execrar de maneira tão abusiva e desespeitosa uma chefe do Poder Executivo eleita, quando os que foram mandantes de torturadores nunca sequer foram julgados? Cada vez que um misógino esbraveja, atinje a mim também. Ataca nossos direitos e ameaça o futuro.
O discurso preconceituoso de outros dá conta de uma sociedade  que sempre dominou não aceita o fim da escravidão, não aceita o filho do pobre com a mesma oportudade que seus próprios filhos; não admite perder privilégios.  Foram os donos da bola por tantos séculos que agora esbravejam. Esperneiam.
Aqui, da cidade que unem-se rio e mar,  recebi a notícia deste feliz encontro com os jovens do Ciência Sem Fronteiras. Confesso que gostaria de estar aí por dois motivos.
Para conhecê-la e dizer o que agora escrevo, mas também para estar com meu filho, pois a saudade começa a tomar assento no meu peito. Coisa de mãe.
Desejo-lhe força para continuar transformando a vida de jovens como meu filho; seguir sendo exemplo a mulheres como eu; garantir o direito de expressão para todos os brasileiros, pensem ou ajam como queiram.

Que as falhas sejam apuradas e os desvios, ajustados para o bom caminho. Nosso país tem meios e instituições para tal. Eu acredito na política como agente transformador da sociedade. Acredito que política é lugar de gente bem intencionada. Acredito em você.

Dilma Roussef, você sempre terá a nossa admiração, a nossa lealdade e imenso respeito!

Obrigada e muita força!

Germana Accioly

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Vinte e um



Três vezes sete. Sete vezes três.
Números primos.
A idade da divisão das águas.
Hora de aprender a dividir, somar, multiplicar e diminuir.
Quatro operações para toda a vida.
Tanta métrica para falar de amor....
Tão pouca rima para viver.
E viver de rima pra quê, se a poética é maior no desigual.
A vida que ensina a viver é irregular.
A distância fortalece a alma dos que nela crêem.
Ando Pessoana, ando muito pessoal.
A maioridade evoca o significado do seu nome.
Durável na minha vida. Permanente.
Relação perene e longa.
Em você, a minha imortalidade.
Minha herança doada.
Meu sempre carimbado.
Dante.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Oferendas

Filhos são oferendas para o mundo
Flores jogadas ao mar
Garrafas com mensagens de fé
Cânticos de esperança

Filhos são entranhas
Tripas, bofes e coração
Unhas encravadas
Dores de coluna

Presentes e ofertas aos Deuses
Residem na dualidade
Moram no campo diverso
Dor que sinto e adormeço

Filhos são amor, missão
tesouros irmanados
prendas que nunca são nossas
canto da sereia
final e ponto.
Saudade é porto sem mar.

domingo, 16 de agosto de 2015

pra que rimar?




Tenho cá pra mim que a saudade é um ser solitário, incapaz de amar. Tenho ainda mais convicção porque, amando, não faria ninguém sofrer desse jeito.
Porque amar e sentir saudade são duas coisas que não deveriam andar juntas. 
O amor é pleno, universal, transcende tempo e espaço. O amor é generoso. Não haveria de sofrer com a autoridade imposta pela saudade. 
Falo isso com a propriedade de quem já andou com estes dois juntos. 
Hoje estou prestes a sentir uma das maiores saudades da vida. E vim antecipando este sofrimento. Acordando de noite com esta dor sem destino nem remédio... Deixando de lado o que há de mais lindo e nobre, inegável e infindo.
Decidi jogar diferente com o futuro. Vou apostar no amor. No amor que construí desde sempre. Na dádiva que é ser mãe neste mundo de tantos bilhões de pessoas e este filho ser você!
Vou apostar na alegria que você me dá, e na promessa do que virá.
Vou investir no exemplo que eu te dei a vida toda. Moramos longe, moramos perto, sentimos frio, calor! Eu sempre te disse que o amor está em todo lugar. Aqui, em Paris, em Brasília e na Finlândia.
Porque o clichê mais verdadeiro do mundo é o que diz que o amor está dentro de nós.
Então! Acabei de despejar a saudade. No lugar dela, alojei o bem querer.
Que estes nove meses que você vai passar longe de mim sejam tão profícuos quanto os meses em que eu te esperei, antes de nascer.
Ali gerava um filho. Hoje, forma-se um homem.
Vou te esperar com esperança, não com dor. Vou te esperar com certeza, não com fragilidade.
Vou te esperar com menos pesar porque você nunca vai sair de mim.
A saudade, esta velha inquilina, certamente voltará. E eu vou oferecer a ela o meu amor por
você.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

dueto de três





São dois.

Espaço binário, metades inteiras e únicas.

São dois.

Cabeças pensantes, imagens de luz.

São dois.

Combinações infinitas de formação e vida!

São dois.

E juntos, somos únicos.

São quase homens.

São para o mundo afora.

São dois.

Cada um.

Somos três.






segunda-feira, 22 de junho de 2015

Estelita. Da glória





Na porta aberta da minha casa, para um carro.
- Olá, bom dia! Este é o número 310?
- É sim. Eu moro aqui.
- Morei nessa casa. Vim do interior para estudar e esta era uma pensão. Fui tão feliz nesta casa!!!
- Assim como eu sou hoje!
- A dona desta pensão chamava-se Estelita.
Minha voz embargou. Estelita ocupou a Glória. Em 1963!!!!
Na viela sinuosa, que imita o curso de um rio, a vida passa sob o sol. Uma rua orgânica, o curso da água, o curso da vida. Uma rua vestida de sol. Aqui não há sombra. O sol banha cada pedra, ilumina as fachadas. Varais dão conta do cotidiano.
Casas de gente com riso aberto nunca estão fechadas. Carregam em sua alma, portais. Histórias banais, pequenos romances, amores perdidos, tristezas imensas estão armazenadas em suas paredes, em cada ladrilho. Janelas abertas para o tempo, passagem.
E como compete aos viajantes do tempo, uso da licença poética para contar uma história que também é minha.
Ela não devia ser alta. Nem muito feliz. Nem triste. Serena. Riso plácido. Imagino um coração grande, crescido de vida. Um espírito de acolhimento andando pela casa comprida, pisando no ladrilho hidráulico verde e azul. As flores desenhadas no chão com ares de jardim. Um tapete desgastado pelos tantos visitantes no tempo. Era tapeçaria rara, trabalho de artesão.
Na esquina com a Leão Coroado o Clube Lenhadores fazia suas tertúlias. À frente estavam os cânticos do convento. Era um caldeirão cultural. A rua dos judeus. A rua dos estudantes. A rua do Lenhadores. A rua da Glória.
Como uma foto de família, uma carta de amor, um tecido estampado, também a história desbota. Deixa pistas, marcas, pequenos traços. Um roteiro sutil para observadores atentos. A música silenciou. Lenhadores fechou. As fachadas descascaram. O convento se recolheu.
De testemunha, a memória, a história e os ladrilhos hidráulicos. Da Glória, restou a alcunha. E quem enxerga através da lente do passado?
Casas sem teto. Rua sem dono.
E quem enxerga através da lente do passado?
O Recife cresceu. Verticalizou. Migrou.
Não é só gente que é vítima de preconceito. O bairro no coração da capital virou marginal. 
Amamos a casa sem teto. Criamos varanda, criamos quintal. Chuva tamborilando no telhado. Passarinho de mudança para o Pau Brasil. Flores no jardim, hera no muro.
Ocupamos com amor. Ocupamos com cheiro de comida. Ocupamos com as crianças rindo na hora do café da manhã.
Esta Rua sempre foi nossa. Mesmo antes de existirmos. Toco meu piano, abro a janela e declaro minha paixão. Não importa quem ouve. Faço um afago à história. Respiro sua vida.
Glória!









terça-feira, 16 de junho de 2015

Sobre terra e sangue vermelhos


Pra mim é muito importante respeitar os seus desejos, as suas convicções mesmo quando elas são tão bobas no meu conceito. Procuro colocar-me no seu lugar. entender o 'Porque" de tudo o que nos faz inteiros e que estão tatuados nas nossas personalidades, sinalizando nosso caráter e indicando finalmente a pessoa que somos.
Por isso talvez amor esteja neste momento de querer te deixar livre.
Pra conseguir viver nesta terra de cerrado vermelho, onde a areia é mais forte do que o líquido que corre nas veias das pessoas. E não consigo outra forma senão a de te deixar traçar teus desejos.
Vejo você tentando encontrar seu tempo dentro do espaço e não encontro como te auxiliar.
Sei que temos tempos diferentes, sei que precisamos de coisas distintas.
Por isso eu procuro deixar você respirar de mim.
Porque sei o quanto eu sou capaz de envolver as pessoas na minha vida.
Faço isso porque quero te ver feliz.
Hoje saí do CCBB com o choro atravessado na garganta.
Fico mais uma vez perdida na imensidão dos meus pensamentos. Nas avenidas largas e longas dos mistérios da vida.
Eu queria ter te deixado lá, envolvido no teu universo. Não queria ter te presenteado com a estrada dura, os sinais enfadonhos.
Sobretudo, sei o quando o tempo é diferente pra nós dois.
Penso também porque tenho tanta dificuldade em aceitar que cuidem de mim. E retomo um tempo distante, criança, quando REALMENTE precisava de cuidados pra crescer e aprender a ser. E tudo o que eu respirava era a ausência.
Hoje, já mulher inteira, talvez eu refute o carinho do meu marido com medo de depois respirar a ausência. Talvez. Eu não sei.
não sei de nada.
sigo na minha estrada longa e larga, cheia de grandes bifurcações e imensos retornos.
sigo.
você ao meu lado.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Carta ao marido

Hoje senti que você me falta. A vida alheia - a desgraça alheia- me fez pensar em você.
Não que deseje-as para mim. É que o fim dos outros me trouxe a profunda reflexão de que não é isso que eu quero pra nossa história.
Contudo, como roteirista teimosa, escrevo diversas cenas onde somos diferentes. Eu, menos forte, menos amarga. Você, mais meu. Eu, mais doce e paciente. Você, menos sonho e mais chão.
E neste meu devaneio, o enrredo se perde. E é aí que reside o problema. No limite, posso tentar escrever (reescrever) a minha história.
A sua é um capítulo à parte. Não posso escolher a sua métrica nem a minha rima.
Não posso nem mesmo determinar quantas páginas ou capítulos cabem nesse romance.
Não obstante, insisto em escrever.
Nem que seja para me livrar destes malditos pensamentos, que ou me perturbam ou me consomem...
Acabei de sair da exposição de Clarice. A exposição de uma escritora. Percebi o quanto sinto amor pelas palavras. Talvez tanto quanto você pelas cores. Descobri também que o desenho do papel "me plait beaucoup".
Então, às vezes escrevo pra soltar ou acalmar minhas feras. Outras, aproveito para contemplar minha obra acéfala na celulose.
Hoje comecei escrevendo com uma caneta sem tampa encontrada no arroubo e na desordem da minha bolsa. Nem sabia quais eram meus monstros. Acabei escrevendo pra você. Talvez tenha escrito pra mim mesma, obedecendo cegamente as instruções de Ferreira Gullar e profundamente comovida por Clarice.
Mas, como diria Freud, e como confirmaria Yung, bolas ao acaso!
Hoje faz 16 anos que nos misturamos de amor e fundamos Dante ( que significa durável, permanente).
Esta é a razão que o meu ser feminino encontrou. Fazer uma confissão. Amo você, mas desejo imensamente que o meu roteiro seja adaptado, filmado e exibido.
As coisas existem. O amor existe. O casamento, este, é o roteiro produzido.

Lá vou eu.

As linhas nunca acabam. São o futuro. Estão em branco.

beijo, Germana.

Balada

Minha quase respiração presta homenagem à minha quase vida.
Lembra-me que existo a dor insistente acima das sobrancelhas.
Taciturna, sonho em escrever sobre flores, jardins e chuvas de verão.
Obscura, encerro-me nas próprias veias.
Não enxergo o mundo à minha volta, sendo o meu universo tão complexo.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Feliz saudade







Dizem que o tempo não para. Eu até concordo. Mas às vezes ele volta, às vezes ele para por um segundo no passado. Um ponto onde a felicidade era máxima. Um instante em que se eterniza o amor. Eu tinha seis anos. Ou cinco.... e os dias se contavam pelos papeis coloridos com lápis de cor. E as tardes se esvaiam nas brincadeiras de amarelinha na calçada do vizinho... Seu Joselito.
Às vezes pegava carona na entrega de cimento. A carroça ia pesada, voltava levinha... e Fortaleza passava pelos meus olhos. O imenso quintal do depósito do vovô, onde brincávamos de escritório.
Palavras mágicas até hoje são a chave para este portal: Cochixo, Marilac, depósito Tiradentes, merendar, pão de milho, "senha menina reia"....
E o rádio que contava tudo do mundo.... Só que na verdade o mundo era na Monsenhor Furtado.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Carta a um amigo


Germano,
Sempre achei, com todos os arrastos, que a Rua da Glória é uma rua feita de sol. Uma rua em que nasce e dorme o sol.
De manhã cedinho tenho o prazer de abrir minha porta, olhar pra esquerda e ver a rua lavada pela luz. À tardinha, voltando pra casa, o sol me encandeia. É a sua despedida. Tenho por este endereço um amor quase ancestral. Tanto, que morando aqui, é a primeira vez que me sinto no meu lugar. 
Nesta rua que, sem a lente poética, é suja, feia, triste. Ė quase preto e branca. Nossa casinha amarela, uma das poucas ilhas de cor.
Hoje foi um dia de luz. O sol acordou a Glória, o cheiro do cominho do vizinho subiu logo cedo. 
A espera, sem ansiedade, ė um exercício de beleza. E assim foi hoje.
A porta bateu, eu estava teminando um arroz. Corri. um banho råpido, desci as escadas serelepe.
Aliás, peço perdão para mais uma divagação. Quando eu era criança adorava quando minha mãe ia à sua loja. Ninguém, ou quase ninguém, tinha o meu nome. E você tinha. Pra mim era confortador. Lá na minha fantasia juvenil, imaginava que éramos do mesmo grupo. Era como se eu não estivesse sozinha. Mais tarde conheci outros Germanos e Germanas, e por muito tempo fiz meu clube em segredo.
Então, descendo as escadas, minha felicidade gigante era por você ter
aceito esta proposta, este convite de contar a historia dessa rua, a minha rua, com seu brilho e sua sombra.
Germano, sua fala não só me comtemplou. Era como se, de alguma forma, você estivesse contando a minha história,
sendo a sua.
Em muitos momentos, eu me perguntei porque abrir a janela e tocar meu piano com tanto amor para esta rua que mais parece um lixo. Imagino que, com as teclas e os acordes, de alguma forma suplico à historia que também não evapore.
Indaguei igualmente o porque de tanta dedicação a esta casa, este piso, estas pedras que nunca foram de meu pai, meu avô, ou bisavô.
Eu, recifense herdeira do mar de Iracema, dei de vir morar à beira do Capibaribe.
Pois bem, amigo. num clique, ou melhor, em takes, entendi. Sua fala emocionada, verdadeira, realista foi também confortante.
Me descobri nessa militância quase solitária, indo de encontro aos moinhos do consumo, da especulação, da dita modernidade muito mais leve e consciente do que o personagem de Cervantes.
E durante todo o dia suas palavras sábias de sentido me ninaram a mente. Saí dali e fui trabalhar. Hoje a missão foi numa comunidade pobre lá em Boa Viagem.  Vi tanta coisa parecida com o que vivo! Só não  encontrei a poética, a história.
Chegando em casa, assim, como quem grita, escrevi  este texto. Poderia ter escrito somente "Obrigada". Mas seria vazio.
Talvez desde pequena eu entendesse lá, longe da compreensão racional, que viemos realmente de um mesmo lugar. Da Glória. Da Boa Vista.

quinta-feira, 19 de março de 2015

nunca sou eu!

Tenho uma alma lusitana, só pode ser. 
Que vive entre o mar e o rio. 
Cheiro marinho e ar de mangue. 
Minha alma inquieta entre as águas me faz navegar.
Esta noite foi em sonho.
E era eu.
Em outro lugar.
E era minha alma em outro corpo. 
Mas era eu. 
Era a vida platônica saindo das cavernas e dominando as sombras do que eu nunca fui.
E uma das maiores, mais assustadoras e aterrorizantes era um perfil alheio. 
Não era eu.
Era uma outra pessoa, o mesmo sonho. Era outro cenário, o mesmo enredo.
A trama que me persegue a vida, que me faz viver e morrer.
Minha alma lusitana é dada a saudades. A nostalgia.
É leal.
E não me assusto ao dizer que como este, já escrevi dezenas. E os deletei, rasguei, maturei, decorei, reli, como quem quer expurgar um mal, uma bruxaria.
É isso o que muitas vezes esta ligação me soa.
A alguma coisa tão distante e presente, que bem não pode fazer.
A uma prisão ao passado que insiste em não ruir, mas que tampouco evolui em sua pena.
A tentativa tímida fica entre não atrapalhar a minha vida e não importunar a alheia.
Meus surtos vem e vão, de forma que em alguns momentos estou até mais em paz.
Esta noite fui acometida mais uma vez.
Mas não era eu. 
Era um disfarce. E eu tentava dizer. Só que eu sequer era vista.
Não precisa invocar Freud.
Nem as sincronicidades de Jung.
Tudo está explicado e dito.
Minha alma vê o barco da vida seguir em águas cada vez mais profundas. 

terça-feira, 17 de março de 2015

Expiração

Não se aprende na fantasia. 
Se aprende sendo. 
Todo começo é um recomeço.... 
E se começa a cada instante. 
Assim como a respiração, fundamental para a vida. 
Se morre a cada expiração. 
Se (re)nasce na inspiração. 
Assim como na arte. 
Inspiração leva à criação. Criatividade.
 Cada dia, uma longa respiração.
 Cada instante, um desafio. 
Um jogo de vida e morte, até o fim.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Violeiros de Abelardo





Andar pelo Recife e encontrar as figuras de Abelardo...

É como encontrar uma paisagem amiga. As figuras que ilustraram meu universo infantil, que mapearam meu afeto e que construíram em mim o amor pela cidade que nasci. 

No parque 13 de Maio, os violeiros quase tocavam pra mim, quase entoavam canções.
Dos escorregos também desenhados por Abelardo eu brincava silenciosamente com os cantantes de concreto. 
Artistas populares imensos, quando eu olhava do alto dos meus cinco anos. Expressões verdadeiras no rosto. Hoje passei na frente das esculturas e elas cantaram pra mim. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Clareia.  Como quem clareia a mente. Abre os portões da vida, maré cheia. Uma luz azul veludo parece terapia, destino, clarividência. 
O absurdo abriga o dia. 
Não é dia nem noite. O absurdo é lilás, branco, prata reflexo na pele. 
A lua plena sobre o nada. 
O nada respira fundo, equilibra os ares. 


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ele sou eu.


Faz tempo que fujo deste momento. 
Eu fujo dele, mas ele não me deixa em paz. 
Parece desenho animado, episódio de Tom e Jerry…
Então, mesmo quando estou fazendo qualquer coisa, ele me persegue. 
Ele sou eu mesma. 
No domingo, passeando pelo Cais José Mariano, uma mulher de costas nuas, com uma roupa domingueira, me faz lembrar.
Lavando a louça, exausta no final de um dia infernal, lá vem ele!
Ele não sou eu. Acho que não. Ele é quase eu. 
Ele não me domina, nem eu a ele. 
Ah, mas ele me apurrinha!
Agora estamos aqui os dois. Juntos. Eu e o meu pensamento.
Ele, de tão saudoso de mim, está confuso. Me cobra mais tempo, como um filho pequeno quando se chega do trabalho. 
Exige tempo, dedicação…
E joga em mim uma profusão de coisas. Na verdade, me resta apenas escrever. 
Calma, meu velho. Foram tempos difíceis. Eu estava ausente de mim mesma. 
Estou retornando. 
Estou voltando. 
Como um mergulhador que, sem oxigênio, precisa submergir com cautela. 
Como um faquir, que sai do seu transe morto de fome. 
Na rua tem gente me parando e perguntando por ele. "Onde estão seus textos?", me perguntam. 
Estão aqui, eu responderia. 
Mas aqui onde? De onde vem este impulso gigante, autoritário, imperioso, que não me deixa em paz? 
Prefiro então rir dizer que já já volto a escrever. 
Quando? 
Me falta a solidão. Ou a paz. 
Me falta o horizonte. 
A paisagem interna. 
E hoje ele amanheceu sem consolo. 
São mais de oito da noite. E, como numa conjunção astral, depois de muitos infernos, me encontro sozinha com ele. 
Somos amantes. 
Este é o nosso tempo, o templo sagrado. 
Alguém me chama. Paro por um segundo. Um hiato pra indicar que estou indisponível.  
Agora não. Estou escrevendo. 
O ano novo ainda não me deu paz. Uma dúzia de dias que parecem uma gincana. 
Hoje aconteceu. Abri a porta e ele veio. 
Como quem incorpora. 
Pode entrar. Não faça cerimônia, não temos mais idade pra isso. 
E ele inundou tudo com sua presença. 
E eu sou mais eu quando ele está por perto. 
Ah, quem dera ter a poesia sempre ao meu lado. Meu pensamento mais meu. 
E ainda penso que ele seja eu….

Tem uma palavra que tudo resume, Tudo explica e preenche os espaços. Uma palavra que ilustra e liga. Religa. Existem laços que são p...