sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Sem remédio

Quero hoje falar da minha dor. Da dor mais forte do que eu, da dor que inunda qual enxurrada e cobre de lama todo meu jardim.
Quero hoje sentir a dor. Numa tentativa louca de gastar e diminuir o volume à porta do peito. 
esquecer e esconder a dor não tem sido eficaz. Quero me solidarizar com a minha dor, sentar na mesma mesa e dividir o mesmo copo. 
Chora, minha dor. Chora. 
Desafoga o peito, que só assim tudo se vai. 
Atrás da dor deve haver um campo vasto e forte. Verde e profícuo.
Quero hoje que a dor me ouça. Quero que a minha solidão me acompanhe. Que depois do almoço possamos desfrutar de um café sem pressa e sem açúcar. De doce, basta a vida. 
Minha ironia e minha dor são íntimas. 
Minha dor é filha da saudade, mãe da minha maternidade, irmã da alma. 
Atravessamos a rua juntas, dormimos e acordamos lado a lado. 
Minha dor não dói no corpo. Não tem analgesia. 
Onde dói? Não sei. 
Onde cura? Não sei. 
Que remédio? 
Sente a dor. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Saudade, Clarice



O tamanho da alma da gente ninguém pode medir.
E quanto mais larga, mais profunda e mais densa, mais abriga sentimentos. E insanidades. 
Não existe um tamanho padrão, nem sequer uma grade de números que encaixam ou se enquandram.
Eu, como todo mundo, não sei o tamanho da minha. 
Calço 35. Visto 40. Tenho um grau de miopia. 
Mas a alma, flutua. 
Só sei que hoje ela está inundada, ou seria irrigada? 
Costumo dizer que sou uma pessoa das águas, porque choro de alegria e de tristeza. Choro de orgulho e de vergonha. Choro de graça. 
Hoje a alma está, assim, adolescente. 
Nasci em 1972. Quando comecei a ler Clarice ela já tinha partido. 
E será que parte quem deixa tanto? Mas Clarice me pegou forte por suas narrativas existenciais.
Foram anos relendo tudo como se fosse a primeira vez. Não sou especialista em Clarice. Sou leitora dela.
Hoje eu encontrei Clarice. E ela ouviu a minha música. E ela me fez ouvir a minha música. Passei 20 anos sem tocar.
 
E que presente tocar para Clarice! O bairro dela é também o meu. Somos vizinhas de um tempo desigual.
Quando subiram os créditos eu nem sabia o que falar. E ainda não sei.
Mas tinha que escrever. Num medo de perder o sentimento, que se infiltra em tantas vielas e travessas.
Tudo tão particular e universal.
Hoje a minha alma é toda de Clarice.
No São Luiz vejo o rio beijando a aurora e o sol e mais uma vez deixo os olhos livres.
Só gratidão. O prelúdio da gota d'água de Chopin tem outro sentido pra mim a partir de hoje.
( Para Taciana Oliveira, que montou a vida de Clarice e me fez tocar para ela)

sábado, 12 de dezembro de 2015

Tem uma palavra que tudo resume, Tudo explica e preenche os espaços. Uma palavra que ilustra e liga. Religa. Existem laços que são p...