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Mostrando postagens de Dezembro, 2015

Sem remédio

Quero hoje falar da minha dor. Da dor mais forte do que eu, da dor que inunda qual enxurrada e cobre de lama todo meu jardim.
Quero hoje sentir a dor. Numa tentativa louca de gastar e diminuir o volume à porta do peito.  esquecer e esconder a dor não tem sido eficaz. Quero me solidarizar com a minha dor, sentar na mesma mesa e dividir o mesmo copo.  Chora, minha dor. Chora.  Desafoga o peito, que só assim tudo se vai.  Atrás da dor deve haver um campo vasto e forte. Verde e profícuo. Quero hoje que a dor me ouça. Quero que a minha solidão me acompanhe. Que depois do almoço possamos desfrutar de um café sem pressa e sem açúcar. De doce, basta a vida.  Minha ironia e minha dor são íntimas.  Minha dor é filha da saudade, mãe da minha maternidade, irmã da alma.  Atravessamos a rua juntas, dormimos e acordamos lado a lado.  Minha dor não dói no corpo. Não tem analgesia.  Onde dói? Não sei.  Onde cura? Não sei.  Que remédio?  Sente a dor. 

Saudade, Clarice

O tamanho da alma da gente ninguém pode medir. E quanto mais larga, mais profunda e mais densa, mais abriga sentimentos. E insanidades.  Não existe um tamanho padrão, nem sequer uma grade de números que encaixam ou se enquandram.
Eu, como todo mundo, não sei o tamanho da minha.  Calço 35. Visto 40. Tenho um grau de miopia.  Mas a alma, flutua.  Só sei que hoje ela está inundada, ou seria irrigada?  Costumo dizer que sou uma pessoa das águas, porque choro de alegria e de tristeza. Choro de orgulho e de vergonha. Choro de graça. Hoje a alma está, assim, adolescente.  Nasci em 1972. Quando comecei a ler Clarice ela já tinha partido.  E será que parte quem deixa tanto? Mas Clarice me pegou forte por suas narrativas existenciais. Foram anos relendo tudo como se fosse a primeira vez. Não sou especialista em Clarice. Sou leitora dela.
Hoje eu encontrei Clarice. E ela ouviu a minha música. E ela me fez ouvir a minha música. Passei 20 anos sem tocar. E que presente tocar para Clarice! O bairro dela é…