quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Azul de icapuí

Pena Filho teria adorado estes dias no Icapuí. Vertiginosamente. Um lugar! Que lugar!
Estive lá. O azul, a claridade defronte, a imensa linha do horizonte!
Em Icapui não se pinta os sapatos de azul. O azul que nos envolve, a águaverde que nos toca, a lua que nos visita....revisita.
O mundo que nos rouba os sonhos não chegou lá. Que bom.
Foi ali, na ponta a falésia, uma casinha de pescador e nela um
Amor gigante!
Nos olhos do Tio João e da Tia Stela, o blue do poeta. O blues do balanço do mar. O alento.
Na mesa da cozinha, em torno da comida, nos alimentamos de afeto.
Foi ali, poeta.
Cozinha com Vista pro mar e a gente discutindo em nossas palavras o amor ao transitório.
A vida, esta passageira....
(Para Tio João, Tia Stela e Carlos Pena Filho, três fazedores de verso na minha vida)

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

UNS

Uns
Rua Pereira Simões, 742.
As grades que protegiam a casa também revelavam o nosso cotidiano. Era uma vida aberta. Sem muros. Todos morando juntos, cada um com seus desejos jovens.
Ana Luiza, Zé Renato e Pan. Meus primeiros companheiros de vida. Os que mais me ensinaram, os que hoje eu mais amo. Aquela casa foi nosso último endereço coletivo, comum. Depois dali fomos traçando outras trajetórias. Lembro do piso de taco, das almofadas coloridas ao lado do som. Dos almoços que Dona Margarida fazia e que nos mantinham unidos na mesa.
A música nos trouxe também esta unidade. Os vinis que chegavam era trabalhados, investigados, absorvidos, ouvidos e re-ouvidos. Até hoje quando sonho com a minha vida em família, sonho com aquela casa. A trepadeira que invadia as grades, a música que ocupava tudo, a pronta entrega de mamãe lá no fundo! O piano no quarto....
Hoje, 30 anos depois, a tecnologia me trouxe de volta uma trilha sonora, um bilhete para o passado, uma passagem. Cada faixa daquele disco me diz muito. Me traz demais.
Bobagens, meu filho, bobagens, ela poderia dizer. Eram meus quinze anos. E a valsa foi Eclipse Oculto. Uma festa na sala das almofadas. Coisa mais bonita é você embalou meu primeiro beijo.
Lembro de Ana Luiza dançando toda fantasiada, com os achados que garimpava no quarto de mamãe. “A minha alegria atravessou o mar.”...  A gente ria. Emendava na rumba “Mamãe eu quero ir à cuba, quero ver a vida lá”. A gente dançava.
Minhas viagens existenciais, muitas vezes com Zé Renato ao meu lado, dividindo o quarto,  lembram “Sou um homem comum... qualquer um....”
Tão forte esta obra de arte nas nossas vidas que outro dia, aos 78 anos, nossa mãe citou “Choque entre o azul e o cacho de acácias”, para falar de uma contradição da vida. A Poesia da nossa mãe, tão contraditória quanto os versos de Caetano.
Tudo é dez, tudo é mil, tudo acaba, nada tem fim. Pan, os discos sempre entravam pelas tuas mãos. Era uma delicadeza displicente. Você sempre trazia o novo.
Eu hoje, ouvindo este disco mais de uma dezena de vezes, entendi que amar, dar tudo, não ter medo... tocar.... cantar o mundo... por o dedo no lá! Nossa banda da terra é outra. É o que construímos e ainda vamos construir.

E nós ali, cada um na sua viagem, irmãos e mãe de uma família esquisita, sempre fomos e sempre estaremos ligados por uma energia pura, que se chama amor. 

sábado, 25 de junho de 2016

Dezoito.






Ele tinha 18 dias e me encarou. 
Olhou profundo nos meus olhos.
Mal tinha nascido. 
Fixou assim em mim.
Hipnotizou.
Aquele olhar falava.
E ele queria ver além.
E não fugia dos meus olhos.
Chegou num dia de chuva mansa.
Chegou garoando.
No seu nome eu coloquei a luz.
Nove meses antes já tinha anunciado.
Eu soube desde o início que ele vinha.
E mesmo quando o laboratório me entregou um resultado “inconclusivo”, eu ri no íntimo.
Não.
Ri com meu íntimo. Rimos juntos.
Entendi na hora que começaria ali uma história.
Nossa história.
Meu filho de olhos naïf,
O humanista,
Agora é maior.
Maior de idade.
Grande ele já é,
Sempre foi.
Maior que nós todos.
Esse homenzinho, ainda bem pequeno, me disse:
-Mãe, aqui sou o mais novo da família. Mas lá de onde eu vim, eu era o maior.Fiquei esperando todos vocês chegarem pra eu vir depois.
Acreditei na hora.
O que tem o mundo tatuado no coração.
E agora, começo a entregá-lo ao mundo.
Devagarinho, que não quero largar o osso.
Que quero retardar os dias, que quero aninhar outra vez no meu colo.
E eu, essa mãe inteira, essa pedra incrustada na rocha.
O mundo é inconclusivo.
Não nos dá mapas, nem manuais de uso.
Agora eu sou a pequena, assistindo o nascer do seu sol, o brotar das suas folhas, o crescer dos seus galhos.
Meus olhos naïf vão encontrar os teus.
E é só o olhar que importa agora.
E a gente tem se preparado pra isso.
Verdade, filho.
Hoje, aos seus 18 anos, fixo meus olhos nos seus e quero ver mais profundo.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Cheia muda

A cheia tinha levado na minha infância quase a casa toda. 
Morava na Estrada do Encanamento. 
Lembro pouco de 1975. 
A nossa retirada de casa às pressas, 
Um banquinho encostado na parede na janela do apartamento da minha tia, onde eu refugiada subia e via lá embaixo as coisas passeando pelas águas. 
Eu tinha 3 anos. Não entendia a tristeza. 
Admiro a beleza das águas até hoje. 
Na volta pra casa a chuva deixou a marca de um metro e meio.
Do tamanho da minha mãe, eu pensava. 
Lembro das fotos que restaram quarando nos varais, algumas manchadas. 
A gente passando sabão no alpendre imenso pra tirar a lama. 
São cenas perdidas. 
Recife e chuva combinam. 
Eu nunca tinha sentido tristeza de chuva até o dia em que a água veio se espreitando e invadiu o piano.
Invadiu e paralizou. 
Imobilizou.
Nada sobra da alma molhada. 
Quando seca, sem esperança, muda de cor. 
Meu piano mudo.
Eu muda. 
Hoje é noite de chuva e ele voltou.
Vou tocar pra água e seus ventos.
Porque a dor da espera escorreu feito correnteza.
E a música deixou uma marca maior que eu. 
Hoje tenho quase nada a mais que um metro e meio.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Jomard Aguaçã

Sexta-feira santa.
A mensagem maior é a do amor.
E como me disse um amigo hoje pelo wa: "nestes tempos de ódio, é bom andar amado".
É imprescindível, eu diria.
Então alguém bate à porta da minha casa. Jomard Muniz de Britto. Ele nos traz um texto.
Um poema.
Uma homenagem, talvez.
Viva os Aguaçã, que nasceram da teimosia do amor.
O amor, este sentimento insistente....
Jomard nos traz um poema sobre nós.
Nenhuma palavra, exceto as dele, podem nos traduzir hoje.
Mais amor, por favor!
Obrigada, Jomard!

quarta-feira, 23 de março de 2016

Baobá

Eu sonho em ser o Baobá da Praça da República.
Impávido. Imponente. Sereno.
Inatingível e sobrevivente.
Eu quero ser o Baobá. Ser a raiz, seu tronco imenso e solitário.
Meus galhos para o céu adornam o azul, quando sol.
Abrigam os pingos do cinza.
Sou um baobá.
Tenho certeza.
Passo pela praça da república e desejo imensamente ser a árvore forte.
Estou quase sendo um baobá.
O imenso vazio que há dentro de cada um é como meu coração.
Estar vazio não é de todo ruim.
Antes vazio que cheio de dor.
Desejo ser o baobá que não cede às chuvas, que não curva diante da tempestade.
Na minha pretensão, desejo. Rogo. Imploro.
Por esta placidez. Por esta imensa vida soberana.
Qual nada!
Não passo de uma erva daninha que, simbiótica, fofoca embaixo da sua sombra com raízes superficiais.
Sou a pequena folha que cai no final da tarde e flana pelos jardins ao sabor do vento.
E, pequena que sou, sonho grande.
Sim, quem sabe um dia, serei um baobá....



terça-feira, 15 de março de 2016

quando Naná se encantou

Ah,meu filho! Quando a gente emudece, é urgente que alguém nos traduza, que alguém nos ajude a tirar do peito o bloqueio que um grande choque pode provocar. Sabe-se lá porque, somente agora vi teu texto. Talvez, a providência. A dor pelo encantamento de Naná, eu guardei.
Agora, ligada a você pelos satélites e pelas redes, sinto uma maré leve me encharcando... a maré que nos inunda aos poucos. A força necessária que a dor provoca, pra depois ser saudade, ou lembrança, ou nostalgia... No caso de Naná, eu pergunto: será que vai quem tanto deixou? beijo. Eu aqui no Atlântico. Você, no Ártico. 
Você, meu tradutor:
"Ver Naná no palco era sentir tudo que a nossa cultura pode proporcionar. Um mestre que fez o mundo se ajoelhar às suas alfaias, berimbáus, gonguês, abês, ganzas e o que mais colocassem nas mãos de Naná. Já dizia Otto que "o celular de Naná é a Lua, e a Lua é o celular de Naná". Ele não era desse mundo. Hoje suas baquetas repousam sobre o couro das alfaias, mas o estridor do seu batuque reverberará para sempre no Recife, em Pernambuco, no mundo... na Lua.
Vai ser difícil ir pro Marco Zero numa sexta-feira de Carnaval e não ter o Mestre Naná para reger os mais de 500 batuqueiros de maracatu. Obrigado por tudo, Naná! A Cultura Pernambucana vivia em você, e agora você vive na nossa cultura, eternamente."

( Para Dante Aguaçã, meu prólogo ao seu texto)

Tem uma palavra que tudo resume, Tudo explica e preenche os espaços. Uma palavra que ilustra e liga. Religa. Existem laços que são p...