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Mostrando postagens de Junho, 2017

Vida a vácuo

Quando se abre a tampa do pote, o perfume é o primeiro a se anunciar. Seus delicados e personalistas tons, num degradê de estímulos.  O perfume sugere o sabor. Induz o pensamento, persuadindo a memória, catando lembranças, futucando o passado. Assim mesmo é com ela.  Abre-se o pote da vida e a timidez do perfume vai saindo aleatória, encaminhada pelo curso da brisa que passa sem muito pesar.  Pote fechado há tanto tempo, curando o seu conteúdo, apurando os sabores e envelhecendo seus tecidos. Um dia, a luz está mais clara, os sinais são menos vermelhos e a vida abre passagem.  A tampa, resistente ao vácuo, finalmente eclode.
Seu estampido surdo.
Saem sabores inéditos, sai a vida cultivada ali, no simulacro vedado. E nada de tão novo acontece, a não ser a propriedade de si. A não ser a sensação de que a ninguém pertence sua vida.
Uma vida marinando nas décadas de uma casa cheia.
De uma cozinha repleta de amor, de um afeto tão imenso, capaz de blindar a si mesma de qualquer hecatomb…

alarme

Sou a urgência de um alarme.
Com a carência do grito que só cessa a partir de um toque.
Resiliente como o berro  ritmado.
Com a mesma insistência.
O alarme que não espera o tempo de quem dorme.
Que não se compadece do cansaço ou do sonho.
Sou isso, na verdade.
Urgente
Carente
Resiliente
Insistente
Ausente
Falante
Silente.

A culpa é do Chileno

Fiquei sozinha com a taça. Sozinha não. Jaziam na mesa ainda um quarto de torta de limão, uma travessa com torradas, uns limões espremidos e meia garrafa de vinho.
Matamos o guacamole. Devoramos o macarrão ao
Pesto. Detonamos a sobremesa.
Poderíamos ter aproveitado mais, só que era a hora do jornal nacional. Canal 13.
Subiram. Ouço perfeitamente as vozes da tv tomando o lugar da nossa conversa.
Este sentido involuntário que é a audição...
A gente fecha os olhos. A gente escolhe não tocar. A gente escolhe não provar.. mas não escolhe fechar os ouvidos. Desejo um aparelho que faça isso por mim.
Sigo na mesa, sentada.
Sigo no meu sentido de dialogar com a garrafa de vinho chileno (imagino que seja a
coisa mais próxima de um ser vivente). Um Cabernet Sauvignon bem razoável. Se fosse gente, eu pegava....
Sigo bebendo. Aproveito pra escrever. O cenário de fundo é o quintal. O cenário de fundo é o varal. O cenário deles sou eu.
Desce meu filho feito um saci com o pé machucado. São dezenove d…

Quiprocó

Quero um copo de paz. Uma dose de ausência, uma pitada generosa de alívio.
Quero dias mais longos, com o sol mais morno, com a pele menos ardente.
Quero dois dedos de silêncio.
Quero menos noites insones.
Quero a vida longe da agenda eletrônica que me monitora.
Quando abro os olhos, a vida bate na cara.
Quando enxergo o mundo, dá vontade sair correndo.
Quando me deparo com as ruas, tomo uma lapada de realidade.
Pára tudo, quero descer.
Não quero mais brincar de pega, nem brincar de me esconder.
Quero ser café com leite desta vez.
Cessou.
O jogo sem fim...