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De que vale uma casa velha?

Sou moradora da Rua da Glória, no bairro da Boa Vista, no Centro do Recife. Moro numa destas casas orgânicas, antigas e generosas. Abro a janela e toco meu piano. Imagino a rua sorrindo, com saudade do tempo em que cada casa tinha um piano.
A Glória da ocupação dos judeus no início do século XX. A Glória do centro islâmico no século XXI. A minha Glória. A minha memória afetiva. O que sentir quando mais uma casa na rua é destruída pelo fogo? Mais uma.
Dessa vez, o sobrado dos girassóis na janela. Que fica na frente do centenário convento da Glória, sobrado vizinho à primeira sede do Clube Lenhadores. De que vale uma casa velha?
De que valem os pobres seres que nela habitam empilhados feito papelão? Faz um tempo, não muito, que um depósito de papel pegou fogo na Rua Velha. Bombeiro, Defesa Civil, gente morta, interdição da rua e tapume. Pronto. Foi feita a política institucional.
Depois, outros caíram. Foi a chuva. Foi o tempo. Foi a vontade de Deus. Foi a falta de uma política de respeito às pessoas e à memória. Foi mais um.
Era uma dessas pensões sustentadas pelo aluguel social – a política habitacional do município. Um sobrado secular (quem se importa? Não tinha nem espaço gourmet…). Um curto-circuito, numa casa caindo aos pedaços. Piso de madeira corrida, gente entulhada em cubículos.
Bombeiro, Defesa Civil, Samu, interdição da rua e tapume. Pronto. Foi feita a política institucional. Na cidade dos prédios espelhados que nada refletem de história, o que valem uns pobres quase cidadãos sentados no meio-fio.
A omissão mata. O descaso mata. A falta de respeito mata. E duas pessoas morreram no incêndio do sobrado dos girassóis na Rua da Glória. Os bombeiros não ouviram a população, que dava notícia da falta. Interditaram a casa sem a devida busca.
Os moradores, desolados, quebraram o cadeado, furaram o bloqueio e encontraram seus mortos. Triste. Desesperador. Apavorante. Essa chuva insistente não lava a alma. Encharca o peito e sufoca. A rua muda. Intranquila de dor.

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