Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2018

o que tem de bonito?

Das coisas bonitas da vida, eu gosto de dizer, que os encontros ganham em todos os níveis.
Mesmo quando são improváveis, ou quando são "desencontrados".
Até os desencontros, são possibilidades de reencontros.
Andei me perdendo.
Andei vagando.
Andei me atropelando pra encontrar o caminho.






grito

Um grito rosnou forçando o silêncio da noite. Era desesperado, era quase uma loa. O grito passeou pela rua e não vi a sua voz. Era claro o tom de mulher. Era nítida a sua emoção. Fui até a janela do quarto e a rua estava vazia de pessoas. Mas o grito voava entre as árvores do parque. Eu senti como se fosse um desabafo. E era meu também. Era do meu filho e dos meus amores todos. Senti como se fosse a tentativa de sair de um aperto. A metáfora que me veio imediatamente foi a da sensação de tirar o sutiã no meio do dia. Você passa a manhã no trabalho e nem sente que está apertada. Quando vai chegando em casa pro almoço, sabe-se lá porque cargas d’água, o tal começa a incomodar. No elevador você tem ânsia de já ir se livrando. Quando chega em casa, tira os sapatos a caminho do quarto e desataca o sutiã ali mesmo, no corredor. Tira por dentro da roupa, por entre as mangas das camisas. Um desespero que não se explica. Você está na intimidade do seu lar. A comparação pode até ser banal, ma…

Menos pesar

Não espere que ninguém chegue junto. Não pense que qualquer apelo vale como estímulo. Que as pessoas vão se colocar no seu lugar, ou que vão entender a sua dor. A melhor decisão depois da grande decisão é esperar a demanda, sem expectativa. Sente, medite, ligue pra alguém. Mas não espere nada em troca. Não se troca afeto. Se acumula, se agrega. Amor não muda de dono. Não se vende. A escritura mais legítima é o sentir. A gente segue buscando nos carimbos, nos rituais e nas alianças a legitimação dos sentimentos. A gente insiste em reconhecer a firma do amor. A gente blasfema e maldiz o que ama. Sente, medite, entoe um mantra. Mas não se fie que alguma mão vai ser dada. Em tempos duros de redes sociais, um emoticon vale um abraço. Serão raras as pessoas que chegarão perto, dispostas a te dar colo. Melhor entender que dois beijinhos com olhos de coração são o melhor que as pessoas têm. Não se arrete com os amigos que não retornam. Não se amole com as palavras pela metade no zap. O sil…

fAlTa MuItO

São tempos difíceis.  São tempos difíceis. Eu ainda não sei falar da revolução dentro de mim, nem do golpe lá fora.  Ou seria o golpe dentro de mim e a revolução lá fora.... Eu ainda não sei. Falta muito. Ainda não sei escrever sobre este rebuliço, este gesto largo e firme que me trouxe a esta paisagem estonteante. Ainda não sei me situar com as novas gavetas. Onde guardo os talheres, onde estão os colares, o saca rolhas, o pano de chão? Onde acomodo meus gestos viciados, onde dobro minhas memórias já passadas? Falta muito. Eu ainda olho para as cadeiras da sala como uma turista. Esqueço onde fica o lixeiro e não tenho nenhuma intimidade com a máquina de lavar. Não aprendi o tempo do elevador. A viagem do 14º até o térreo me parece intercontinental. Tenho atravessado mares, a propósito. Todos os dias. Onde devo ter guardado aquela extensão? Onde se esconde a chave do carro? Qual é o abrigo das minha dores? As paredes ainda em branco reverberam um eco que intriga. Casa sem mem…

PRESTES.

Estou prestes.
Prestes a me lançar no abismo da certeza.
Imagino o salto. Certo. Preciso.
A beleza de não saber onde o vento me fará pousar.
Estou prestes a escolher a direção.
Avulsa, despregada.
O verbo estar não define. Não estou....
Estar soa estático. Soa estabilizado. Soa controlado. Soa cômodo. Soa linha de chegada.
E eu me defino, antes, de partida.
Partida, só que inteira. Para o novo. O salto, lançamento. Vernissage de mim mesma.
Minha inauguração. A minha, cada dia.
 Não quero mais amanhecer e me perceber em dívida comigo mesma.
Nem ter a triste sensação de tempo perdido.




Mulher Maravilha em primeiro lugar

A ideia era fazer um diário de bordo. Um registro de tudo o que vivemos na viagem de mulheres ao Sertão do Pajeú. Queria voltar ao trabalho com um relato fidedigno. Cartesiano. Celulares carregados, procurando o melhor ângulo para fotos e vídeos. Não consegui. O foco estava no sentir. Estava no viver e não no relatar. Não consegui. Foi uma daquelas viagens em que a gente esquece o telefone, abandona a internet. Estava conectada com outras ondas. Não perdi os momentos, como alguém pode pontuar. Guardei todos. Fiz questão de não enxergar através das lentes. Viagem longa, estrada reta, são ótimos bálsamos. Para curar agonias da rotina massacrante. Pra pensar melhor sobre a vida e para chegar ao destino de peito aberto, um pouco esvaziado do que nos atropela no dia a dia. Fui. Às cinco da manhã fiz uns sanduíches e coloquei tudo na bolsinha térmica que comprei na revista da natura. Nunca tinha usado. Fiz uns sandubas de queijo e pesto. Pão baguete. Dividi em quatro. Outras coisitas qu…

A teimosia do amor

Que alegria estar aqui com tanta gente importante nas nossas vidas!

Que alegria reunir todas e todos neste cenário tão lindo e significativo, construído com amor, partilhado por tantos e tantas de nós. Acredito que muitos e muitas aqui têm histórias pra contar que viveram nesta casa, neste jardim.

Quem está aqui pela primeira vez, seja bem vindo e bem vinda à vivenda Tesser, mais que uma casa, um endereço de acolhimento, que muito me diz sobre generosidade e acolhida.

Paula e Luana, que emoção, que gratidão, que imensidão ver vocês duas aqui na minha frente, mãos dadas, olhos brilhando!

A Paula é para mim uma dessas pessoas fundamentais na vida. Fundamental para a minha alegria, fundamental para o meu futuro. Quis esta mesma vida que, vindas de uma mesma família, ainda com toda esta identificação, tivéssemos morado apenas 8 meses na mesma cidade nesses 40 anos mais ou menos que nos conhecemos.

Paulinha, minha prima virou irmã, minha prima gêmea, como costumamos nos chamar. Talvez a m…

Egotrip

Foi um ano de perdas e ganhos.
Um ano de tantas voltas! E tantas emendas de vida! O meu ano começou com festa. De arromba. Foi uma festa de despedida de um momento da vida. Toquei ao piano a valsa do Adeus. Foi por acaso, mas não foi aleatório. Foi como se aos 45 eu fechasse livros, ciclos, possibilidades. Foi como se eu reunisse gente querida pra dizer que dali pra frente seria diferente. A festa que bombou na rua da Glória foi a vernissage da minha metamorfose. Foi um ano de menos medo. Menos solidão. Mais força. E um ano anunciando uma mulher madura, minha festa de debutante para apresentar quem eu sou. Apostando no ciclo virtuoso do amor como escudo a todo o resto negativo. Dando a cara a tapa na vida, abrindo as opiniões e enchendo os pulmões para dizer: que felicidade não ser unanimidade! Que alegria ter as minhas! No meu mundo ideal todas as pessoas são felizes, mas tenho as minhas. Tenho a lista dos afetos. Foi um ano de lagarta, me assustando com minhas reações, não enten…

I have a dream.

Sonhar que voa, que quer ser outra pessoa, mudar de nome, de identidade, um cabelo mais preto, tocar um instrumento.... Um que seja, você tem? Na aula de inglês, gente jovem se capacitando, ficando até tarde da noite, três horas de aula seguidas... it’s hard.... Quando o Teacher pergunta “What’s your dream?”, responde o silêncio. Ele flexibiliza pra resposta ser em portuguese. Silêncio na língua nativa. Eu vendo sonhos. Na sala, cadeiras dispostas em círculos, a energia não flui. Constrangidos, os alunos se entreolham. Um mais ousado salta: sonho ter dinheiro de pagar as contas. A outra responde: sonho em me aposentar. Eu fiquei com vergonha de falar dos meus. Já realizei um monte deles. Ter filho, morar fora do país, cantar, representar, dormir na praia. E tenho outro lote. Respondi, assim, tímida: I dream to learn English. Nem sei se estava certa a frase. E a turma fez um levante geral. Não, não foi porque acharam que eu bajulei o professor. Foi porque eles odeiam, não suportam…

Esquerda

Você samba de que lado?
Que bloco é o da sua rua?
Que luta é a do seu braço?
Que mundo cabe no seu ideal?
Qual é o país que constroi o seu futuro?
Hoje acordei com vontade de dizer a quem quiser ouvir que eu tenho lado.
Eu não escolhi a esquerda. Eu sou de esquerda.
Ser de esquerda não se compara a escolher qual cordão você vai dançar no pastoril.
Não tem relação com que time você prefere.
Eu não conseguiria sambar do outro lado porque acredito neste. Acredito num projeto de mundo pra geral, que diminua as desigualdades, que aumente as oportunidades, que não privilegie quem sempre teve privilégios.
Ser de esquerda não é ser apenas de um partido político. É enxergar nas organizações instrumentos de inclusão e de luta.
Nasci numa família que discute política na mesa de jantar. Ainda ficava de ponta de pé pra alcançar o tampo da mesa e o assunto era a ditadura e a resistência. Tinha sempre violão e política na roda.
Política não é um projeto pessoal. É um projeto de vida.
Por isso hoje, …

Carta ao filho caçula, adulto

Filho, Faz algumas noites que sonho com você. Um sonho tranquilo, de ressignificação, de repactuação. Um sonho que se repete. O sonho nada mais é do que nosso retrato inconsciente, o subconsciente mandando recados, sinais. Pois bem. Este sonho repetitivo começa com você pequeno, uns 3 anos. Entro no seu quarto e tem uma fila de carrinhos pelo chão. Me ofereço pra brincar e você me responde: “Já tô brincando, né, mãe?” Esta cena é a reprodução do que realmente acontecia. O sonho me fez lembrar a cena. No sonho, eu saio de fininho pra não te atrapalhar, achando tão, tão bonito essa tua independência. Na vida real, eu te olhava e saia de mansinho também. No sonho, “corta” pra uma cena de você grande, tocando no palco, no seu mundo.... e eu venho entendendo que são outros sonhos e que de alguma forma, você quer brincar esta brincadeira sozinho. Este sonho tem me levado a um lugar muito, muito profundo, Luís. Um lugar que me faz constantemente a pergunta: será que fui uma mãe à sua al…

#eufeminista

Era uma opinião. Era uma expressão, calcada na minha convicção de vida. Ancorada nos desalentos e desdenhos vividos em inúmeros, diversos momentos. Cada momento tem seu tempo.  Alguns são átimos. Outros, segundos, dias, noites longas, beijos curtos.

Tudo constrói o hoje. O amanhã é o agora que ainda não chegou.  Foco no dia que vivo. E o dia era aquele.

Sentada na mesa, a taça de vinho no terceiro refil tinha minha marca: batom rosa nas bordas, beijos desiguais. Éramos seis a  brindar.

Eu ando há uns anos me enfronhando pelas trilhas da feminina. Um roteiro subjetivo, impreciso e profundo. Não cheguei na rota decidida. Custo a definir, na verdade, como dei o primeiro passo. Talvez cansada de tanto abuso. Aos 11 anos, ja colecionava histórias que nunca podiam ser contadas nas rodas de amigos. Eram segredo, quase culpa dos meus olhos verdes. Endureci aos poucos, contrariando a minha natureza. Acabei vestindo o manto da responsabilidade que as vítimas não deveriam ter.

Voltando à mesa,…

Conto de carnaval

Era eu.
Eu, vestida numa saia de forro dourado e umas pérolas bem falsas aplicadas no tule preto, que eu comprei numa loja evangélica na rua Nova. Eu, com a tal saia sacra, com uma blusinha de lamê dourada frente única profana, que eu comprei na costureira da esquina. Eu, com a saia sacra, a blusa profana, o coração de quem já tem mais da metade da vida de carnavais brincados, pulados, amados, poetizados. Eu, com a roupa sacro-profana na festa mais mundana do calendário religioso. Uma pena lilás na cabeça, e cílios postiços da mesma cor, e meia arrastão fazendo o degradê. Para completar, maquiagem preta e roxa, feita por mim e finalizada pelas amigas que foram no esquenta tomar a sopa da sustância lá em casa. Sapatilha lilás nos pés que já completava três carnavais. Eu, toda paramentada para a festa sagrada. A concentração do bloco na frente da igreja da matriz. Tanta gente linda! Minha licença poética de ver o mundo todo decorado de luz e brilho. Começa a orquestra, rasgando a Rua …

2018....

2018. Ano par.
Mais que nunca precisamos dar as mãos.
Mais um.
Menos um.
Na dança ritmada do tempo, vale o balanço do que se foi. 
Vale a esperança para o que virá.
A mania que a gente tem de repartir o tempo, fatiar os sonhos e encher os pulmões.
Não se doma o tempo, modo contínuo. Contamos os anos e o tempo se conta em nós. No cabelo que prateia, na vista que embaça, na experiência inegociável!
Pois que o novo fôlego venha com tolerância ao próximo.
Que traga um hálito de paz.
E sejamos inteiros.
Desejo para 2018 o de sempre, para sempre: coragem de ser. Amor pra lascar. E força pra seguir lutando.
A vida não tira férias.