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quarta-feira, 6 de março de 2013

O GIGANTE



- Alô?
- Oi mãe. Olha, ta tudo bem.
- Já sei que não.
- É que eu fui assaltado quando desci do ônibus.
- MEU DEUSSS!!!
- Calma, mãe. Tou ligando do telefone do policial.
- O QUE??????
- É que querem que eu vá pra delegacia.
-DELEGACIA???? VOCÊ TA ONDE?
- Na Praça do entroncamento.
- Tou indo praí.
...

É somente um menino, mas quando eu olho mesmo, com mais apuro, vejo a grandeza da sua alma.
Tanto, que às vezes nem da pra ver além.
Menino de olhos naif.

Hoje outro menino com os olhos naif camuflados assaltou o meu.
Roubou, sim, mas antes foi roubado. Teve a vida roubada, teve a infância subtraída e agora tem a alma confiscada pela droga.
Me vejo ao lado do meu filho e quase quero que a mãe do outro chegue pra ficar ao lado do camburão e confortá-lo.
Não quero ouvir aquele choro quase sem propriedade, perdido, sem saber nem direito o que vai acontecer.
Olho pro camburão e vejo um desperdício. Poderia ser um pianista. Um advogado. Um cientista. Um policial.
Mais é um menino assustado e com crise de abstinência. Treme, o coitado. Pede socorro. Diz que precisa de tratamento. Clama.
Quero ir embora daquele lugar o quanto antes. Assino uns papeis.
Peço pra não machucarem o agressor. Pego forte na mão da vítima.
Saio sequelada, machucada.
No caminho, o gigante me consola. Minha lucidez me deixa cega.
Fico feliz de estar ao lado do meu filho numa hora dessas. Deixo ele no conforto da escola. Imagino um jantar pra consolar seus olhos assustados.
Se tem uma coisa que me faz grande é a maternidade. Um dia, quando nada mais existir, não quero ser lembrada. Já estou tatuada no peito dos meus filhos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O sobrado das três janelas: A casa da minha avó



Manoel Bandeira dizia em um lindo poema sobre o Recife: : "A casa do meu avô… / Nunca pensei que ela acabasse!".
Lembro do sobrado avarandado em Casa Forte. Vila Deolinda....
O portão imenso para meus olhinhos tão meninos. Eu entrava pela cozinha . Morena me recebia com um doce, um mimo qualquer. Lurdes sempre a sorrir. Lá longe estava vovó. De braços abertos, carinho sem fim aquele.
Vovô Bento ficava na mesa imensa, sentado num banco de madeira alto.Se lembro dele, lembro de bolacha salgada de padaria, aquelas redondinhas... Eu sentava junto e comia. Ele ria solto!
Mas antes, no quarto que tinha uma porta defronte da cozinha, eu parava pra ouvir Maria Betânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil com Bentinho. Eu adorava ler tudo que estava escrito nos encartes dos vinis. Ali ele era apenas meu padrinho.Eu não entendia o que isso significava... Era um amigo, quase igual a mim, mas que conhecia todas as canções do mundo! Muito tempo depois, sim, ele ocupou o seu espaço.
Na varanda, em frente à mesa do Vovô, ficava a cadeira de balanço de Vovó Isaura. Ela sempre olhava minha roupinha (Tia Zezé era minha costureira particular!) e batia nota, fazia um comentário. Às vezes me contava uma história.
Eu lembro de uma cama que Fafá tinha, que era mágica! De dia era um móvel, uma estante, de noite virava cama mesmo.
Um pouco antes de partir Vovó me contou que eu tinha um berço ao lado da cama dela. E que eu chorava a noite inteira, que acordava a casa toda... Talvez por isso em meus sonhos até hoje aquela casa é tão presente. Lembro do piso, da distribuição dos cômodos, lembro também da grade do alpendre que abraçava uma parte da casa.
Pois quando vovó me falou, foi como se eu lembrasse, lá naquela memória antiga, desbotada, estes primeiros lampejos de amor. Entendi então que o amor é sensorial. Independe de memória ou de lembrança. Ele simplesmente É. 
Tem laços que nascem do sangue. Outros, são fruto do próprio amor. Cresci sob a grandiosa árvore de amor e generosidade cultivada por Vovó Consy. Sou neta do seu amor incondicional. Ela se foi. E sua herança é o exemplo. A eternidade é o laço de afeto. O céu ganhou minha avó. Mas eu jamais a perderei. Faz parte de mim.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...