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quarta-feira, 14 de junho de 2017

A culpa é do Chileno

Fiquei sozinha com a taça. Sozinha não. Jaziam na mesa ainda um quarto de torta de limão, uma travessa com torradas, uns limões espremidos e meia garrafa de vinho.
Matamos o guacamole. Devoramos o macarrão ao
Pesto. Detonamos a sobremesa.
Poderíamos ter aproveitado mais, só que era a hora do jornal nacional. Canal 13.
Subiram. Ouço perfeitamente as vozes da tv tomando o lugar da nossa conversa.
Este sentido involuntário que é a audição...
A gente fecha os olhos. A gente escolhe não tocar. A gente escolhe não provar.. mas não escolhe fechar os ouvidos. Desejo um aparelho que faça isso por mim.
Sigo na mesa, sentada.
Sigo no meu sentido de dialogar com a garrafa de vinho chileno (imagino que seja a
coisa mais próxima de um ser vivente). Um Cabernet Sauvignon bem razoável. Se fosse gente, eu pegava....
Sigo bebendo. Aproveito pra escrever. O cenário de fundo é o quintal. O cenário de fundo é o varal. O cenário deles sou eu.
Desce meu filho feito um saci com o pé machucado. São dezenove degraus do mezanino ao térreo. Ele tem dezenove anos. Um pra cada degrau. Ouço o ritmo desengonçado dos seus pulos. Eu, sem carapuça. Não posso me esconder.
Bebe água, pega uma maçã na fruteira e sobe novamente. Antes, me pergunta: ta tudo bem, mãe?
- Ta.
Na trilha sonora, Zileide Silva fala da lava jato. Eu procuro focar no texto que escrevo.
Eu dialogo com o texto ou ele me distrai? No momento em que eu decidir o ponto final, fico alheia.
O texto é a minha audiência, meu ibope. Meu datafolha.
O dia imenso me traz enormes reflexões.
Tem uma ninhada de gatos em cima do telhado. Bangu, o cachorro, não sabe que hoje as emendas da Lei de Diretrizes orçamentárias foi aprovada. Ele late para os gatos no telhado.
Meu vizinho também não sabe da pauta da câmara.
Eu ando pelo Mundo. Todo dia o trajeto é o seguinte: Glória, Matriz, maciel pinheiro, hospício, parque 13 de maio.
Vejo esgoto, feira, cheira cola. Vejo ambulante, loja fechando, sino de igreja trovejando. Continuo na mesa. Não importa se a cabeça faz revisão do dia...
A toalha da mesa parece uma colônia de scargots. Em preto e branco.
Doi na vista.
Ele volta e eu me sinto profundamente incomodada com a presença.
- já acabou o jornal?
- A parte que eu queria, já!
Acabando o chileno. E eu mais ébria.
O tempo passa por mim sentada na mesa.
A semana foi de lascar e hoje é o dia dos namorados.
Eu idealizo sim.
E sigo vivendo a vida possível.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Férias para a dor


Antes me dói a dor do outro.
Mais fácil do que sentir a minha.
Mais altruísta, menos trabalhoso.
A dor do outro não me cura.
Nem me adoece.
Uma saudade permanente, uma inquietude sem nome.
Me atrapalha a vida. Isso. A vida me atrapalha.
Agora mesmo, escrevendo, preciso parar inúmeras vezes. Atender o telefone, assinar um documento, responder a alguém.... Eu querendo me conectar comigo mesma e a vida me puxando pra fora. Minha viagem para dentro sendo interrompida.
Eu mesma não aguento o peso das horas, dos dias, dos anos.
Antes me dói o futuro, que é incerto.
Porque o passado em mim já simbiótico, camufla-se.
Reveste-se de memória,
Fantasia-se de falsos pesadelos,
Enfeita-se de antigos aromas.
Preciso de férias para minhas viagens internas.
Como companhia. eu mesma.
Respeitando minha dor.
Quem serei eu hoje sem a dor que carrego?
O que me edifica e o que me destroi?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Tempo roubado




A ladra sou eu.
Tenho roubado meu tempo
Enganada por ondas de satélite
Envolvida por relações de gelo.
Eu mesma ligo para o seqüestrador do meu tempo.
Tenho a senha, a conexão.
E sou uma refém voluntária,
Sem possibilidade de volta,
Sem resgate para pagar.

Roubo a mim mesma
E o produto deste delito 
Olho no olho,
Afeto de filho,
Frase dita em momento impreciso...
É mercadoria sem volta.

Se posso acessar no meu mundo imaginário quantas vezes quiser o momento passado,
Na vida real perco o link.
Não resgato o endereço IP.
O mote passou e não foi gravado, ninguém curtiu.

Visito o site da prisão pra ver se alguém está me vendo. 
Estou na sala de estar, sentada na poltrona
alheia à vida real.
 
 Fiquei sem comentário.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...