quarta-feira, 8 de junho de 2011
simples assim....
Foi um abraço apertado, mãos pequeninhas, braços roliços.
Um abraço entre continentes, que se ligaram para sempre.
Mas naquele momento, as duas meninas de cabelinho escuro não sabiam disso. Estavam somente pensando na brincadeira que se seguiria àquelas apresentações.
O fascínio de quem vive em países tão distantes era misturado a uma intimidade de irmã.
5 e 6 anos.....
E os dias se seguiam como quem não vê o tempo passar.
Uma bicicleta para duas. E se seguia uma rotina meio cansativa para quem assistia à cena. Cada uma dá uma volta. Cada uma dá duas voltas.....assim era pulando corda, brincando de elástico, dividindo as bonecas.
- Aliás, como é mesmo boneca em francês?
- E aquele personagem que tem uma varinha mágica, como se diz em português???
E as férias acabavam. Anos se passavam. As meninas-moças se reencontraram.
Trocaram ideias.
A que veio do frio trouxe maquiagem diferente, a que estava no calor tinha roupas mais alegres.
Trocaram as brincadeiras, mas a cumplicidade aumentou.
E as meninas-moça viraram mulheres.
A mais nova teve filho primeiro e a mais velha mandou uma carta que dizia: “é engraçado, porque enquanto você vive a experiência de mãe, eu estou aqui fazendo mestrado. É como se você experimentasse por mim”. E foi mesmo. Ela teve dois filhos homens.
Anos depois, as famílias se encontraram no velho continente. Moravam porta com porta. Saíam parceiras para o supermercado, com a mochila nas costas. Uma cozinhava pra outra....
E até que nasceram as duas filhas da mais velha. E num é que a mais nova reviveu mesmo a experiência da maternidade????
Esperam, agora, ficar juntas por todo o tempo.
Ver os netos juntas, envelhecer juntas.
A amizade que surgiu num abraço envolveu as vidas.
E elas, nascidas primas, se fizeram irmãs.
domingo, 5 de junho de 2011
Sem título, 2011
Quanto mais me despedaço, mais inteira pareço ser.
Quanto mais me entrego à dor, mais rápido passo por ela.
Intensa.
Vivo em poucos dias minhas décadas,
Teorizo em minutos minhas lógicas.
Sigo em busca da minha verdade, parte ficção.
Quanto mais busco, mais me encontro
No amor, no sonho e na linha da vida.
Quanto mais me entrego à dor, mais rápido passo por ela.
Intensa.
Vivo em poucos dias minhas décadas,
Teorizo em minutos minhas lógicas.
Sigo em busca da minha verdade, parte ficção.
Quanto mais busco, mais me encontro
No amor, no sonho e na linha da vida.
domingo, 22 de maio de 2011
lucidez
Flores no vaso.
Cortinas na janela.
Velas na mesa.
Assim segue a minha vida, fugindo dos fantasmas.
Flores para alegrar o ambiente, cortinas para proteger do sol, velas iluminam os caminhos.
E lá se vão quase quatro décadas!
E o passado nunca esteve tão perto, dentro de mim, afagando minhas lembranças. É engraçado, porque quanto mais tempo faz, mais me alegro, mais me aproximo, mas me enriqueço com as lembranças.
Chego mesmo a entender porque quando chegamos lá no final da vida, lá quando voltamos à infância e esquecemos a realidade, nos transportamos para o universo de criança. Esta viagem às avessas tem lá sua lógica. Evoca-se os amigos, busca-se paisagens perdidas, fuça-se o colo materno.
E quem me lê (se é que alguém o faz) deve ter já vivido pequenos lampejos como este: café de roça, cuscuz de milho verde, perfume de lavanda, cheiro de manga... alguma coisa já levou você pro passado. E qual seria, então, o problema de não sair mais de lá?
Se a vida passada era melhor, ou se dela extraímos somente o bom extrato, relegando seu bagaço ao lixo.
Guardo meu lixo em um lugar seguro, para qualquer dia ter a lucidez de tratá-lo.
Disso tudo, eu aqui na insignificância dos meus 39 anos, só posso ter uma certeza, quase frágil.
Viver é mesclar o passado e o futuro. E nesta viagem perigosa, quase uma alucinação, o risco é ficar no meio do caminho, perdendo o prumo na linha imaginária que divide a realidade da lembrança.
Viver é estar.
E o abajur na contra luz,
A cortina na penunbra,
A toalha rendada da mesa,
A nova receita na panela
Continuam cuidando de mim.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Furto da vida
Provei, na mesma taça, uma bebida amarga e doce.
O agridoce da vida.
Amargo do fim
Doce do recomeço
Fim de quem estava no meio
Recomeço de quem já traçou seu rumo.
Na mesma taça fina e larga, os sabores misturados não estão exatamente em harmonia.
Na minha alegria sincera coube o profundo pesar.
Comemorei a vida a cada gole.
É o cálice de quem compartilha.
Minha taça novamente está vazia.
Provei, tomei, engoli os dois sabores ao mesmo tempo, até a última gota.
Não me furto à vida.
O agridoce da vida.
Amargo do fim
Doce do recomeço
Fim de quem estava no meio
Recomeço de quem já traçou seu rumo.
Na mesma taça fina e larga, os sabores misturados não estão exatamente em harmonia.
Na minha alegria sincera coube o profundo pesar.
Comemorei a vida a cada gole.
É o cálice de quem compartilha.
Minha taça novamente está vazia.
Provei, tomei, engoli os dois sabores ao mesmo tempo, até a última gota.
Não me furto à vida.
domingo, 1 de maio de 2011
vaga música
Enquanto o batom desliza, enchendo de carmim os sulcos fininhos dos meus lábios, eu finjo que me concentro. Concentro-me intensamente em fingir. Não estou ali. Tampouco quero estar. Pinto devagar os traços pouco definidos da minha boca, como se fosse uma tarefa árdua, solitária e indispensável.
Olho no espelho mas, na verdade, nem sou tão perfeccionista. Ganho tempo naquele ambiente tão vago. A música que toca vem lá dos anos 1990. As pessoas são um pouco lentas, umas vegan, outras diplomatas.
Ninguém se conhece direito e a luz difusa que entra pelas janelas ajuda a manter o clima.
Misterioso.
Olho pra tudo aquilo e penso que a trilha sonora, as roupas, o cardápio, as pessoas – incluindo eu- todos estamos descolados da realidade. Coletivamente unidos pela alienação.
Eu bebo uma sangria, antes estava bebendo vinho... experimentei coca cola...
E o vermelho opaco da minha boca já não é escudo para o vento seco.
Uma da manhã.
Vou ao banheiro desta vez.
Enquanto o batom desliza, enchendo de carmim os sulcos fininhos dos meus lábios, eu finjo que me concentro. Concentro-me intensamente em fingir. Não estou ali. Tampouco quero estar. Pinto devagar os traços pouco definidos da minha boca, como se fosse uma tarefa árdua, solitária e indispensável.
Olho no espelho mas, na verdade, nem sou tão perfeccionista. Ganho tempo naquele ambiente tão vago. A música que toca vem lá dos anos 1990. As pessoas são um pouco lentas, umas vegan, outras diplomatas.
Ninguém se conhece direito e a luz difusa que entra pelas janelas ajuda a manter o clima.
Misterioso.
Olho pra tudo aquilo e penso que a trilha sonora, as roupas, o cardápio, as pessoas – incluindo eu- todos estamos descolados da realidade. Coletivamente unidos pela alienação.
Eu bebo uma sangria, antes estava bebendo vinho... experimentei coca cola...
E o vermelho opaco da minha boca já não é escudo para o vento seco.
Uma da manhã.
Vou ao banheiro desta vez.
Enquanto o batom desliza, enchendo de carmim os sulcos fininhos dos meus lábios, eu finjo que me concentro. Concentro-me intensamente em fingir. Não estou ali. Tampouco quero estar. Pinto devagar os traços pouco definidos da minha boca, como se fosse uma tarefa árdua, solitária e indispensável.
terça-feira, 12 de abril de 2011
E quem sabe sonhavas meus sonhos.....
Eu já nem olho pra trás.
Mas a menina que encheu as mãos de tinta, sujou os pés e a camisa nova da mãe num dia sob a brisa de Olinda ainda vive.
Vive na mesma casa a mãe jovem, encantada pelo pequeno bebê de cabelos de milho e olhos de jabuticaba.
A segunda mãe, que recebeu nos braços um neném cheio de vida e ideias, vive no jardim.
E outras mulheres foram se chegando neste ambiente. A forte, a frágil, a livre, a submissa.
A cozinheira, a gourmet, a amante, a casta.
Todas elas amam o mesmo homem.
Amam o cara que pintou “homenagem aos olhos dela”.
Amam o homem que plantou o primeiro filho, lourinho.
Amam o que é pensador igual ao segundo bebê.
Amam o empreendedor, o artista, o macho, o casto.
Todos estes homens são meus.
Todas estas mulheres são suas.
Feliz bodas de rosas....
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Ainda não entendi.
Fiquei plantada no umbral pertinho da escada rolante. Um mar de gente, um tsunami de expressões, de pensamentos, de interesses. Gente amada, mau-amada, gente feliz, gente feia, gente bonita.
Comprei um pastel de queijo e um refresco de caju e simulava estar saboreando devagar aquela porção. Mas na verdade, aquele era o meu disfarce. Eu disfarçava muito mal. Por trás de mim de repente aparece um homem numa cadeira de rodas. Autônomo em seu rastafári e sua boina tricolor, pegou o elevador. Desapareceu da minha vista.
E na escada rolante, descia agora um baita contêiner de lixo, com dois homens se acabando pra conseguir equilibrar as coisas. Dois muitos depois, os mesmos rapazes de uniforme azul quase piscina sobem, com o tal container vazio, pelo menos parecia, pelo pequeno esforço que ele estavam imprimindo ao bicho.
Aí eu decidi descer a escada. E foi engraçado. Porque um rapaz assim bem normal me parou e disse: “você entrou aqui quando eu entrei e agora está saindo....eu fiquei percebendo que vc subiu e comeu muito devagar seu pastel”.
Eu ri por dentro, troquei quaisquer palavras com ele, procurei ser gentil, mas no fundo, lá dentro de mim, pairava a dúvida.
Na rodoviária do Plano Piloto eu não era a observadora antropológica. Eu era um bicho sendo observado tal qual quem está num aquário, ou num zoológico.
Bizarro....
Eu e a rodoviária ainda não nos entendemos.
Comprei um pastel de queijo e um refresco de caju e simulava estar saboreando devagar aquela porção. Mas na verdade, aquele era o meu disfarce. Eu disfarçava muito mal. Por trás de mim de repente aparece um homem numa cadeira de rodas. Autônomo em seu rastafári e sua boina tricolor, pegou o elevador. Desapareceu da minha vista.
E na escada rolante, descia agora um baita contêiner de lixo, com dois homens se acabando pra conseguir equilibrar as coisas. Dois muitos depois, os mesmos rapazes de uniforme azul quase piscina sobem, com o tal container vazio, pelo menos parecia, pelo pequeno esforço que ele estavam imprimindo ao bicho.
Aí eu decidi descer a escada. E foi engraçado. Porque um rapaz assim bem normal me parou e disse: “você entrou aqui quando eu entrei e agora está saindo....eu fiquei percebendo que vc subiu e comeu muito devagar seu pastel”.
Eu ri por dentro, troquei quaisquer palavras com ele, procurei ser gentil, mas no fundo, lá dentro de mim, pairava a dúvida.
Na rodoviária do Plano Piloto eu não era a observadora antropológica. Eu era um bicho sendo observado tal qual quem está num aquário, ou num zoológico.
Bizarro....
Eu e a rodoviária ainda não nos entendemos.
Assinar:
Postagens (Atom)
Horizonte
Pausar. Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...
-
Quase tudo pode ser verdade, E das maiores. Quase, quase tudo pode ser real. Depende da capacidade imaginativa de quem vê, Da competência de...
-
Aurora, Praia, Sol, União, Harmonia, Angustura, Amizade, Saudade, Alegria, Glória, Hora, Calçadas. Eu vim de um lugar onde as ruas tinham es...
-
Deu no jornal. Foi manchete em letras vermelhas, garrafais. MATOU O PAI COM QUEM TEVE 12 FILHOS Sua dor, sua revolta, sua mágoa virou um rom...


