
São sete da manhã e a poeira vermelha incensa a W3.
A piaçava arranha o asfalto. São mãos calejadas conduzindo aquele balé medíocre. Paro no sinal vermelho para ver o espetáculo.Tudo perfeitamente orquestrado.
O sol ainda se levanta. A fumaça preta que sai dos ônibus é a aurora destas bandas. Não vejo o orvalho.
Nem mesmo as roupas já gastas, sujas, escuras e remendadas aqui e ali ofuscam a sua autoridade. É a sua casa. A árida W3 é seu lar. Os canteiros são jardins vistosos que abrigam revoadas de pombos. Sua sala, marquises velhas de concreto. Talvez os semáforos sejam luminárias finamente alinhadas para embelezar o ambiente.
Após o trabalho de limpeza matinal, senta-se no jardim dos pombos e desenha. Não importa se os papelões vieram do lixo. Se seu lápis é um caco de carvão enjeitado pelo fogo.
Suas imagens toscas viram raios curvos, pontos de fuga. Reprodução de seu mundo particular. Absorto em suas viagens, ele nunca percebeu minha curiosidade.
Passo com meu carro todo dia e pertenço àquele universo. Uma anônima observadora. Uma coitada que todos os dias serve-se à mesa, espera o sinal de trânsito orientar suas partidas, voltando sempre ao apartamento cuja a porta está trancada.
Na sua rotina fiel, imagino, meu personagem é feliz. Seu mundo, à imagem e semelhança de seus devaneios divergentes, parece-me em paz.
E que coragem! Ter a mente insana numa cidade cartesiana. Na estética parnasiana, ele exerce o dadaísmo. Encontra nas retas paralelas e perpendiculares os becos que não vejo. Assume brechas de sua consciência entalhando seus sonhos do outro mundo.
Os carros seguem sua sina. O eixo é o rumo que dá no norte e no sul.
Fortes são os loucos. Fortes o bastante para subverter a rotina imposta pelo Plano Piloto.