domingo, 23 de junho de 2013

Mídia, parlamento e sociedade. Equilíbrio sutil.

Vou pedir permissão dos meus leitores para fugir do script. Sempre busco aqui neste espaço um caminho subjetivo, poético e autoreferente. Porém hoje acordei e dei de cara com um artigo que escrevi para a revista da Câmara dos Deputados, há mais de dois anos.
Fala justamente sobre a crise de representação, sobre confiança na democracia e sobre a intermediação da mídia. O artigo é um recorte de uma monografia que escrevi para a conclusão de uma pos graduação em política na no Centro de Ensino e Formação superior da Câmara, em Brasília.

Como muitas vezes nossas conversas mais acaloradas não permitem tanta reflexão, procuro dizer o que penso através da linguagem que melhor conheço: a escrita.

O texto é longo. Mas vai assim mesmo, na íntegra.


Sugestões e críticas são muito bem vindas.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

#eueosmeninos



             


               O mundo de gente. O mar de desejos. O oceano de reivindicações. Pec 37, corrupção,segurança, educação, cultura. Tudo padrão FIFA. Menos a parte da corrupção.  
                O mundo representado diante da crise de representação democrática. 
                Quase, quase todos os cartazes em punho eram frases que eu já tinha lido no Facebook. Não, não sou contra as redes sociais, de jeito nenhum. Sou usuária, já dependente. Senti, de cara, foi que o Facebook foi às ruas. Um mundo de hastags.
                 Ir a manifestações de rua sempre foi natural. Sou do Recife. Cidade em que o carnaval é uma grande manifestação. O pernambucano entende de multidão. Por isso, muito sem medo, sempre levei meus filhos. Pras manifestações políticas e pro carnaval. Plantei neles esta semente.
                E floresceu que nem o pau-brasil que semeamos no quintal. Meus meninos têm discurso. Meus meninos são protagonistas. Cresceram como uma árvore frondosa.
                Lá do alto, o pau-brasil nos observa, vela nossos dias, abriga os pássaros. Lá de longe, começo a ver os meninos que eu levava firmes à minha mão, andando mais rápido do que eu. Vão na frente, confiantes.
                Meu coração de mãe militante entende que este é o sentimento de eternidade. Vejo o meu fervor neles. Vejo a minha coragem nos olhos deles. Uma transferência não me falta, fortalece.
                Não é a primeira manifestação deles. Mas é como se fosse. Antes foi ensaio. Agora é estréia.
                Eu vi o mundo pelos olhos dos meninos. E ele ainda começava no Recife. 
                Na bandeira de Pernambuco que um carrega até exaurir os músculos. No Pavilhão Nacional que o outro amarra como uma capa de herói. Na camisa do mangue boy. No punho erguido. Na palavra de ordem.
                   #vemprarua #recifeacordou #alutanaopara #foracorrupcao #segurancapadraofifa.As hastags que mobilizaram meus meninos são as causas contemporâneas.

                Eu vi o mundo pelos olhos dos meus filhos. Agora posso dizer: Meus filhos cresceram. E eu estava lá. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

mapa da mina

Tenho muitos segredos para você.
São proibidos.
Anárquicos.
Infantis.
Alguns, rebeldes.
Uns tantos revolucionários.
Não são segredos. São Botijas.
Encontre-as.
Afague- as e domine-as.
Não são segredos, penso agora.
São mistérios. Mapas da mina.
No subsolo do inconsciente, perdidos tal náufrago em terra estranha.
Resgate-os. E será como me libertar de um exílio.
Desvende o enigma.
Um quebra-cabeças imenso com encaixes perfeitos.
O segredo sou eu.

sábado, 1 de junho de 2013

Mãe da Luz

Luís,

Você é filho da certeza.
Uma certeza imensa de que o meu amor de mãe chegaria a abraçar mais um fruto.
Você também é filho da alegria mais pura.
Dentro daquele envelope de plástico transparente tinha um papel dobrado com o resultado de um exame. Eu não precisava ler para saber que você já se fazia. Mas abrir, ler, foi como explodir de alegria. Até hoje se penso em um momento muito feliz da minha vida, lembro do dia em que saí do laboratório com o exame na mão, sem conseguir parar pra pegar um taxi ou um ônibus. Fui andando até a nossa casa, parando em cada telefone público, avisando aos quatro ventos a surpresa do meu ventre.
Você é filho da prosperidade. Já nasceu nos trazendo notícias boas, fazendo a família crescer e ficar mais forte.
Eu sou mãe.
 Mãe da alegria de viver que você tem.
Mãe da sua alma universal.
Mãe do seu olhar sobre o mundo.
Mãe do seu jeito de aprender a viver.
Hoje você faz 15 anos.
Um orgulho imenso me move.
Você é Luís.

Filho de Germana e Rinaldo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Filha do Mangue


Vem a chuva a me acordar às quatro da manhã.  
Quatro e trinta e sete.
Tocando um samba canção nas telhas do meu quarto. Chegou mansinha convidando a bailar.
A introdução era um ritmo tirado da caixa de fósforo. Leve, quase canção de ninar.
Me faço de difícil. Fico ouvindo, mas não abro os olhos. A minha intenção era que ainda fosse noite e eu estivesse sonhando.
Mas a chuva não é qualquer uma. Chuva de maio me lembrando que nasci num dia assim. Chuva de inverno, temperamento forte. E ela engrossa a bateria, fazendo um samba enredo.
Sou do frevo, não sei sambar.
Levanto pra saudar a mãe natureza.
Tomo meu café com uns pinguinhos me beijando no alpendre.
É preciso arrumar a calha.
Volto pra cama, crente que tinha amainado a minha inquilina.
A rua sendo lavada pela água que veio do céu. 
Escolho o melhor jeito de me enfronhar pelo travesseiro, consigo me aninhar. 
Mas eis que me chega o cheiro da terra molhada e então ouço um tropel.
Agora não é mais samba. 
Fico deitada curtindo aquele concerto infinito. Sinfônico.
O gato se esgueira pelas frestas da porta da varanda. 
O cachorro late em resposta.
A TV, mesmo com o som ligado, fica muda. 
Chove.
Não troco isso por nenhum dia de sol radiante.
Sinto a umidade a 90% na minha pele. 
Gosto do sabor da maresia que a chuva me traz. 
Sou filha do mangue do Recife. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Poligamia





Casei umas 15 vezes nos últimos anos. Talvez tenha sido mais.  
A primeira vez casei com os olhos. Olhei, apaixonei, casei.
Bodas de papel.
Na segunda vez decidi formalizar. Um casamento coletivo, no cartório. Tinha gente de todo tipo junto.
Bodas de algodão.
O casamento seguinte foi na igreja. Trocamos as alianças num ritual singelo. O primeiro filho nos braços.
Bodas de trigo.
As bodas de flores foram com um homem trabalhador, pensava no bem estar da família. Compramos o apartamento.
Depois, me surgiu um homem mais maduro, mais leve. Gostava de sair à noite, de viajar.
Bodas de madeira.
Com as bodas de açúcar ganhei meu segundo filho. Doce, alma de artista, olhos curiosos. Igual ao pai.
Bodas de latão para os tempos difíceis, bodas de barro para o artesão. Amei o jardineiro, fui amante do menino.Do puro. Do macho.
As frágeis bodas de papoula me trouxeram um homem inseguro. Amei.
Buscando firmeza, encarei as bodas de zinco. Depois de aço. Esbarrei na beleza do ônix.
No tempo do ardor, me enfronhei pelas bodas de linho e renda. Tempo do marfim.
O príncipe me chegou em um cavalo branco nas bodas de cristal. Fui sua bela. Adormeci no amor.
As bodas de turmalina me pareceram sem sal.
As de cretone foram cretinas.
Estou nas bodas de porcelana. São lindas. Encantam. Porém, carecem de delicadeza no cotidiano.
Não sou volúvel. Sou criativa.
A questão não é ser casado. É estar. Verbo de ligação, que faz laço, costura a frase e a vida.
O segredo é casar todo dia.
Há 20 anos. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

#Abusada





Somente uma pobre coitada ingênua teria acreditado novamente naquela situação.
Dá até pra se vangloriar. 
Pouquíssimas pessoas no mundo inteiro, nestes seis ou um pouco mais bilhões de pessoas teriam  a mesma capacidade.
Praticamente uma mutação genética.
Ela faz parte de uma elite. A elite dos crédulos.
Não conseguiu matar a Poliana dentro de si. 
Nem a Poliana Moça. 
Talvez tenha traços irreversíveis do Pequeno Príncipe. 
E de Fernão Campelo Gaivota.
Ainda bem que nunca leu Paulo Coelho.
Seria o golpe final, sem volta ao mundo real.
Araruta tem seu dia de mingau. Já tava em tempo de colocar as barbas de molho. E Gato escaldado normalmente tem medo de água fria.
Ela não. Ignorou tudo. E a sabedoria popular agora gritava dentro da cabeça.
Mais uma cabeçada da vida pra entender que tem hora que é preciso ter amor próprio. 
E desconfiômetro.
Nada mudou.
Aliás, mudou.
Ficou pior. 

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...