sexta-feira, 17 de julho de 2015
dueto de três
São dois.
Espaço binário, metades inteiras e únicas.
São dois.
Cabeças pensantes, imagens de luz.
São dois.
Combinações infinitas de formação e vida!
São dois.
E juntos, somos únicos.
São quase homens.
São para o mundo afora.
São dois.
Cada um.
Somos três.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Estelita. Da glória
Na porta aberta da minha casa, para
um carro.
- Olá, bom dia! Este é o número
310?
- É sim. Eu moro aqui.
- Morei nessa casa. Vim do
interior para estudar e esta era uma pensão. Fui tão feliz nesta casa!!!
- Assim como eu sou hoje!
- A dona desta pensão chamava-se
Estelita.
Minha voz embargou. Estelita
ocupou a Glória. Em 1963!!!!
Na viela sinuosa, que imita o
curso de um rio, a vida passa sob o sol. Uma rua orgânica, o curso da água, o
curso da vida. Uma rua vestida de sol. Aqui não há sombra. O sol banha cada
pedra, ilumina as fachadas. Varais dão conta do cotidiano.
Casas de gente com riso aberto
nunca estão fechadas. Carregam em sua alma, portais. Histórias banais, pequenos
romances, amores perdidos, tristezas imensas estão armazenadas em suas paredes,
em cada ladrilho. Janelas abertas para o tempo, passagem.
E como compete aos viajantes do
tempo, uso da licença poética para contar uma história que também é minha.
Ela não devia ser alta. Nem muito
feliz. Nem triste. Serena. Riso plácido. Imagino um coração grande, crescido de
vida. Um espírito de acolhimento andando pela casa comprida, pisando no
ladrilho hidráulico verde e azul. As flores desenhadas no chão com ares de
jardim. Um tapete desgastado pelos tantos visitantes no tempo. Era tapeçaria
rara, trabalho de artesão.
Na esquina com a Leão Coroado o
Clube Lenhadores fazia suas tertúlias. À frente estavam os cânticos do convento.
Era um caldeirão cultural. A rua dos judeus. A rua dos estudantes. A rua do
Lenhadores. A rua da Glória.
Como uma foto de família, uma
carta de amor, um tecido estampado, também a história desbota. Deixa pistas,
marcas, pequenos traços. Um roteiro sutil para observadores atentos. A música
silenciou. Lenhadores fechou. As fachadas descascaram. O convento se recolheu.
De testemunha, a memória, a
história e os ladrilhos hidráulicos. Da Glória, restou a alcunha. E quem
enxerga através da lente do passado?
Casas sem teto. Rua sem dono.
E quem enxerga através da lente
do passado?
O Recife cresceu. Verticalizou.
Migrou.
Não é só gente que é vítima de
preconceito. O bairro no coração da capital virou marginal.
Amamos a casa sem teto. Criamos varanda,
criamos quintal. Chuva tamborilando no telhado. Passarinho de mudança para o Pau
Brasil. Flores no jardim, hera no muro.
Ocupamos com amor. Ocupamos com
cheiro de comida. Ocupamos com as crianças rindo na hora do café da manhã.
Esta Rua sempre foi nossa. Mesmo
antes de existirmos. Toco meu piano, abro a janela e declaro minha paixão. Não
importa quem ouve. Faço um afago à história. Respiro sua vida.
Glória!
terça-feira, 16 de junho de 2015
Obrigação
E se me obrigarem a escrever?
Se escrevendo me sinto obrigada a pensar, pensando, a ser alguém.
E se, me obrigando a escrever, eu mesma vou saindo de mim..
Residindo no papel, nas teclas do piano ou
Em qualquer coisa que o valha.
Existindo em histórias alheias criadas para encantar a vida real.
Que alguém? Que pessoa?
E se me obrigarem a qualquer coisa de nada valerá.
Porque explodem na minha cabeça as frases.
Infiltradas como agentes secretos nos meus pensamentos mais cotidianos.
E serei clandestina, fugitiva, refugiada.
Olharei para você na mesa do café da manhã e falarei sobre câmbio, greves ou sobre a banana que acabou.
Não mais te amolarei com meus pensamentos imprecisos, minhas fábulas alheias à realidade.
Olharei pra você com uma expressão séria, equilibrada.
Dentro de mim um carnaval acontece. Meu segredo. Meu eu. Minhas verdades todas pilheriando.
E falarei que o café está gostoso, que da próxima vez, sim, compraremos a mesma marca.
E levo calmamente o pão à boca.
Enquanto o cheiro do café alimenta minha alma inquieta. Enquanto a xícara antiga me conta vidas passadas.
E se não me obrigarem, escreverei.
Porque para escrever não preciso de nada.
Nem de caneta, nem de papel.
nem mesmo de memória.
Para escrever, preciso de mim.
Sobre terra e sangue vermelhos
Pra mim é muito importante respeitar os seus desejos, as suas convicções mesmo quando elas são tão bobas no meu conceito. Procuro colocar-me no seu lugar. entender o 'Porque" de tudo o que nos faz inteiros e que estão tatuados nas nossas personalidades, sinalizando nosso caráter e indicando finalmente a pessoa que somos.
Por isso talvez amor esteja neste momento de querer te deixar livre.
Pra conseguir viver nesta terra de cerrado vermelho, onde a areia é mais forte do que o líquido que corre nas veias das pessoas. E não consigo outra forma senão a de te deixar traçar teus desejos.
Vejo você tentando encontrar seu tempo dentro do espaço e não encontro como te auxiliar.
Sei que temos tempos diferentes, sei que precisamos de coisas distintas.
Por isso eu procuro deixar você respirar de mim.
Porque sei o quanto eu sou capaz de envolver as pessoas na minha vida.
Faço isso porque quero te ver feliz.
Hoje saí do CCBB com o choro atravessado na garganta.
Fico mais uma vez perdida na imensidão dos meus pensamentos. Nas avenidas largas e longas dos mistérios da vida.
Eu queria ter te deixado lá, envolvido no teu universo. Não queria ter te presenteado com a estrada dura, os sinais enfadonhos.
Sobretudo, sei o quando o tempo é diferente pra nós dois.
Penso também porque tenho tanta dificuldade em aceitar que cuidem de mim. E retomo um tempo distante, criança, quando REALMENTE precisava de cuidados pra crescer e aprender a ser. E tudo o que eu respirava era a ausência.
Hoje, já mulher inteira, talvez eu refute o carinho do meu marido com medo de depois respirar a ausência. Talvez. Eu não sei.
não sei de nada.
sigo na minha estrada longa e larga, cheia de grandes bifurcações e imensos retornos.
sigo.
você ao meu lado.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Carta ao marido
Hoje senti que você me falta. A vida alheia - a desgraça alheia- me fez pensar em você.
Não que deseje-as para mim. É que o fim dos outros me trouxe a profunda reflexão de que não é isso que eu quero pra nossa história.
Contudo, como roteirista teimosa, escrevo diversas cenas onde somos diferentes. Eu, menos forte, menos amarga. Você, mais meu. Eu, mais doce e paciente. Você, menos sonho e mais chão.
E neste meu devaneio, o enredo se perde. E é aí que reside o problema. No limite, posso tentar escrever (reescrever) a minha história.
A sua é um capítulo à parte. Não posso escolher a sua métrica nem a minha rima.
Não posso nem mesmo determinar quantas páginas ou capítulos cabem nesse romance.
Não obstante, insisto em escrever.
Nem que seja para me livrar destes malditos pensamentos, que ou me perturbam ou me consomem...
Acabei de sair da exposição de Clarice. A exposição de uma escritora. Percebi o quanto sinto amor pelas palavras. Talvez tanto quanto você pelas cores. Descobri também que o desenho do papel "me plait beaucoup".
Então, às vezes escrevo pra soltar ou acalmar minhas feras. Outras, aproveito para contemplar minha obra acéfala na celulose.
Hoje comecei escrevendo com uma caneta sem tampa encontrada no arroubo e na desordem da minha bolsa. Nem sabia quais eram meus monstros. Acabei escrevendo pra você. Talvez tenha escrito pra mim mesma, obedecendo cegamente as instruções de Ferreira Gullar e profundamente comovida por Clarice.
Mas, como diria Freud, e como confirmaria Yung, bolas ao acaso!
Hoje faz 16 anos que nos misturamos de amor e fundamos Dante ( que significa durável, permanente).
Esta é a razão que o meu ser feminino encontrou. Fazer uma confissão. Amo você, mas desejo imensamente que o meu roteiro seja adaptado, filmado e exibido.
As coisas existem. O amor existe. O casamento, este, é o roteiro produzido.
Lá vou eu.
As linhas nunca acabam. São o futuro. Estão em branco.
beijo, Germana.
Não que deseje-as para mim. É que o fim dos outros me trouxe a profunda reflexão de que não é isso que eu quero pra nossa história.
Contudo, como roteirista teimosa, escrevo diversas cenas onde somos diferentes. Eu, menos forte, menos amarga. Você, mais meu. Eu, mais doce e paciente. Você, menos sonho e mais chão.
E neste meu devaneio, o enredo se perde. E é aí que reside o problema. No limite, posso tentar escrever (reescrever) a minha história.
A sua é um capítulo à parte. Não posso escolher a sua métrica nem a minha rima.
Não posso nem mesmo determinar quantas páginas ou capítulos cabem nesse romance.
Não obstante, insisto em escrever.
Nem que seja para me livrar destes malditos pensamentos, que ou me perturbam ou me consomem...
Acabei de sair da exposição de Clarice. A exposição de uma escritora. Percebi o quanto sinto amor pelas palavras. Talvez tanto quanto você pelas cores. Descobri também que o desenho do papel "me plait beaucoup".
Então, às vezes escrevo pra soltar ou acalmar minhas feras. Outras, aproveito para contemplar minha obra acéfala na celulose.
Hoje comecei escrevendo com uma caneta sem tampa encontrada no arroubo e na desordem da minha bolsa. Nem sabia quais eram meus monstros. Acabei escrevendo pra você. Talvez tenha escrito pra mim mesma, obedecendo cegamente as instruções de Ferreira Gullar e profundamente comovida por Clarice.
Mas, como diria Freud, e como confirmaria Yung, bolas ao acaso!
Hoje faz 16 anos que nos misturamos de amor e fundamos Dante ( que significa durável, permanente).
Esta é a razão que o meu ser feminino encontrou. Fazer uma confissão. Amo você, mas desejo imensamente que o meu roteiro seja adaptado, filmado e exibido.
As coisas existem. O amor existe. O casamento, este, é o roteiro produzido.
Lá vou eu.
As linhas nunca acabam. São o futuro. Estão em branco.
beijo, Germana.
Balada
Minha quase respiração presta homenagem à minha quase vida.
Lembra-me que existo a dor insistente acima das sobrancelhas.
Taciturna, sonho em escrever sobre flores, jardins e chuvas de verão.
Obscura, encerro-me nas próprias veias.
Não enxergo o mundo à minha volta, sendo o meu universo tão complexo.
Lembra-me que existo a dor insistente acima das sobrancelhas.
Taciturna, sonho em escrever sobre flores, jardins e chuvas de verão.
Obscura, encerro-me nas próprias veias.
Não enxergo o mundo à minha volta, sendo o meu universo tão complexo.
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Feliz saudade
Dizem que o tempo não para. Eu até concordo. Mas às vezes ele volta, às vezes ele para por um segundo no passado. Um ponto onde a felicidade era máxima. Um instante em que se eterniza o amor. Eu tinha seis anos. Ou cinco.... e os dias se contavam pelos papeis coloridos com lápis de cor. E as tardes se esvaiam nas brincadeiras de amarelinha na calçada do vizinho... Seu Joselito.
Às vezes pegava carona na entrega de cimento. A carroça ia pesada, voltava levinha... e Fortaleza passava pelos meus olhos. O imenso quintal do depósito do vovô, onde brincávamos de escritório.
Palavras mágicas até hoje são a chave para este portal: Cochixo, Marilac, depósito Tiradentes, merendar, pão de milho, "senha menina reia"....
E o rádio que contava tudo do mundo.... Só que na verdade o mundo era na Monsenhor Furtado.
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