quarta-feira, 11 de agosto de 2021

1095 dias

 


Comemore as suas batalhas

As derrotas 

Os êxitos

Vale comemorar as perdas

Os ganhos

As dores

As curas

Conte as cicatrizes

Cuide das feridas

Permita a desconstrução

E o renascimento

Se deixe crescer

Expandir

Permita o voo

Um dia, quando menos esperar, 

Você acorda beija-flor.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

conto de fadas

 

Era madrugada e a menina acordava num salto.

Um facho de luz vinha da sala.

Deslizava entre os lençóis, seus pés pequeninos tocavam o chão. O corredor era imenso! Ela descia os dois degraus e estava na sala de jantar.

- Não consigo dormir...

A luz acesa sobre a mesa iluminava muitos papeis. Mapas gigantes para os seus olhos tão pequenos.

Lá fora, o silêncio era cortado pelos grilos, o coaxar de uma ou outra rã... ou seria sapo...

Ela esfregava os olhos cansados.

- Já é de madrugada?

Nem bem conseguia, em pé, alcançar o tampo da mesa. Espichava-se na ponta de bailarina.

Aquelas noites de trabalho do pai eram especiais. Ele cansado do dia, esticando o expediente.

- Me conta uma história?

Segurava na sua mão, subia os dois degraus, atravessava o corredor imenso... tudo ia ficando penumbra.

Deitava a menina na cama, embrulhava com o lençol.

- Você é o meu presente.

Começava uma fábula qualquer, construída na hora. Eram histórias de agricultores, de cabrinhas professoras, de pessoas que se alfabetizavam.

A voz do pai, vencida pelo cansaço, ia ficando lenta.

A menina cutucava.

-Acabou?

Ele voltava à narrativa.

- Pai, conta uma de princesa?

Ele já não ouvia. Ressonava.

A menina se aninhava, enrolada no lençol.

Quiçá, sonhava com princesas, que libertariam agricultores... ou com príncipes professores de animais que ainda não sabiam ler. Ou com fadas madrinhas que, com suas varinhas, fariam a revolução.

Esta lembrança longínqua, de noites e noites e noites de conversa sussurrando pra não acordar a casa, desperta de um longo sono. Hoje a menina escreve suas próprias histórias. Revira memórias, dá nome aos sentimentos e embrulha tudo pra presente. 

Graças ao pai.

amor roubado

 

A saudade me paralisou

Engasgou a infância

Meus dez anos tomados de assalto


Perdi tanto:

as flores no quintal

as histórias antes de dormir


Um amor roubado


Os finais de semana programados

e a nossa tristeza quinzenal

eram traduzidos

nas paredes grossas

nas janelas pequenas

no pão torrado demais


Passei a acordar de madrugada

a  procurar seus vestígios

passei a querer esquecer 

mas era a dor que não passava


Lembro do cheiro

dos móveis comprados de segunda mão

na Rua da Conceição:

a mesa redonda de jacarandá

as cadeiras de madeira com encosto e assento de palha trançada

os lençóis estampados com babado azul

o jogo de damas

os brinquedinhos de chumbo


Lembro dos olhos dele

nos tempos mais turvos

quando me visitava na escola


Queria esquecer


Cresci silenciando

emudeci amadurecendo

a saudade que sentia

dos sanduíches de bolacha cream cracker com geleia de mocotó

de ser “embrulhada como múmia" 

da vitamina de abacate que não gostava de tomar de manhã

de visitar o peixe boi na Praça do Derby

de comer sanduíche de queijo no drive in


Trancaram meu peito

Perdi a chave

Construí um muro

Escondi a poesia


Era tudo saudade do meu pai

sábado, 10 de julho de 2021

Sábado



Depois da feira orgânica, café da manhã com mulheres queridas. Cada uma com sua história de vida. 

A pequena mesa redonda no terraço congraça nossas rotinas. 

A chuva caindo como cortina ali pertinho evoca os banhos na infância, as bicas de telha...

Em casa, experimento um momento só meu. Raro. 

A cozinha me convida pra um diálogo. 

Hoje quero leveza.

Um salmão com gergelim ao forno, ainda molhadinho... Batata doce assada. Na frigideira, cebolinha roxa, cogumelos de Paris e cenoura caramelizados. 

Não, não é sobre culinária.

É sobre prazer!

É sobre cozinhar pra si mesma e depois passar um café e comer um quadradinho de chocolate amargo, vendo aquele filme francês.

É sobre sentir devagar a crocância da cenoura, o sabor forte da cebolinha, a maciez do cogumelo e experimentar em cada garfada uma combinação diferente.

É sobre afagar o desejo de viver.

E amar a batata doce assada polvilhada com pimenta do reino. 

E sentir o salmão derretendo a cada mordida.

É sobre respeitar seu sábado. 

E prolongar a sensação de abraço.


terça-feira, 29 de junho de 2021

O primeiro vôo

 

Um beija flor pousa 

Sereno no meu ombro

Adorno desejado

Símbolo de vida

Leveza conquistada

A duras penas.


Um beija flor pousa 

Serelepe ao lado do peito

Bate suas asas

Ritmando meu coração

Beija minha orelha

Não sou flor!

Dormi mulher

Acordei colibri.

domingo, 27 de junho de 2021

vida de colibri




Tenho atentado para as mulheres que escrevem.


Aquelas que ousam, ousaram ou ousarão.


Aquelas antes de mim, de agora e do futuro.


Tenho atentado para este gesto de coragem.


A força de reescrever a história a partir dos olhos delas. Necessidade de ser porta voz de si e de suas crenças. Desejo de gerar para além do óbvio .


Nossos corpos impressos no papel, navegando pelas redes, adornando nossas mentes.


Tenho atentado para mulheres que, como eu, teimam e escrevem.


No intervalo do trabalho, no editor do word na fila do supermercado, enquanto esperam.


Esperamos muito, há muito tempo!


Uma espera muda.


bruxas ou santas


princesas ou devassas


musas desavisadas


certas ou erradas


Pelas regras alheias


Meu estado inquieta. Escrevo sob a insubordinação da minha mente. Sem pseudônimos ou codinomes. Tenho sentido a revolta ancestral, secular, universal. Estou atrasada. Levantei tarde, perdi o bonde, mas o que me vale é que encontrei o caminho. Acordei do sono lerdo que mais alienava que restaurava. Um denso desequilíbrio.


Ontem, sentei no chão da cozinha e chorei.


Olhei os móveis novos que comprei em uma loja popular e me deixei abandonar ali, cercada de aglomerado por todos os lados. No castelo de teias que teci pacientemente, baixei as armas.


Uma cozinha diz muito. Uma casa com cozinha (minha casa com cozinha) diz mais. Não quero ser provisória, mas ainda não sou definitiva. Não arrisco a permanência.


Um apartamento alugado


Um jogo de café barato


Uma cozinha de aglomerado


Tenho ensaiado ser.


O primeiro livro no forno, tatuagem inaugural marcada para terça de tarde. Vou me riscar. Escrever em mim mesma este conto. Um beija-flor de liberdade e leveza, que pousa sobre meu ombro esquerdo.  

Tenho atentado para as mulheres que escrevem, para aprender a contar a minha história.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Poesia


Vejo beleza no desfazer-se.

Desintegrar-se.

Esmaecer.

O caminho para deixar de existir

Rumo certo de tudo.

O oxigênio que nos pulmões mantém a vida

O oxigênio que ao léu

Enferruja

Oxida

Estraga.

A vida que se revigora

A vida que se finda.

Inerte

Consolo o destino

Amarro o discurso

Apaziguo o pensar


Que tudo é alfa e ômega

Que tudo é céu e inferno

Que tudo é vida e morte


Poesia, este recurso de imortalidade.






Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...