segunda-feira, 30 de novembro de 2015
Férias para a dor
Antes me dói a dor do outro.
Mais fácil do que sentir a minha.
Mais altruísta, menos trabalhoso.
A dor do outro não me cura.
Nem me adoece.
Uma saudade permanente, uma inquietude sem nome.
Me atrapalha a vida. Isso. A vida me atrapalha.
Agora mesmo, escrevendo, preciso parar inúmeras vezes. Atender o telefone, assinar um documento, responder a alguém.... Eu querendo me conectar comigo mesma e a vida me puxando pra fora. Minha viagem para dentro sendo interrompida.
Eu mesma não aguento o peso das horas, dos dias, dos anos.
Antes me dói o futuro, que é incerto.
Porque o passado em mim já simbiótico, camufla-se.
Reveste-se de memória,
Fantasia-se de falsos pesadelos,
Enfeita-se de antigos aromas.
Preciso de férias para minhas viagens internas.
Como companhia. eu mesma.
Respeitando minha dor.
Quem serei eu hoje sem a dor que carrego?
O que me edifica e o que me destroi?
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
O doce e o amargo.
Minha presidenta e de todos os brasileiros,
Escrevo aqui do calor do Recife, cidade de tantas lutas e tanta tradição.
Se esta carta chegar às suas mãos, já será um imenso prazer.
Dizem por aqui que, quem adoça a boca dos meus filhos, a minha adoça.
Em primeiro lugar, Dilma, agradeço. Pela oportunidade que tantos jovens como o meu Dante estão vivendo, de conhecer outros países, outras culturas, outras línguas e, com isso, trazer uma infinidade de novas possibilidades ao nosso país e ao futuro de cada um.
Nossa família jamais teria como oportunizar uma experiência semelhante. Linda esta sua iniciativa de abrir a possibilidade para toda uma geração. Como mãe, vejo minha cria voar, crescer com a força da educação. Isso é política pública responsável e de longo prazo. Valorizar pessoas e, a partir delas, melhorar a sociedade.
Sou jornalista de formação, sou nordestina, mãe, mulher e cidadã. Desde muito cedo na vida compreendi que militância existe na política, mas também em cada um desses outros papéis.
E, permita-me dizer, aprendi muito com o seu exemplo.
Acompanhei sua trajetória desde o Ministério de Minas e Energia, um território povoado pelo poderio masculino. Quando me diziam: "Dilma é dura feito um homem", eu pensava: "Porque nós, mulheres, quando assumimos posições tradicionalmente masculinas, somos estigmatizadas justamente na questão de gênero? Porque sempre discutir o que nos afasta, e nunca o que nos une?"
Minha felicidade foi levar meus filhos (os dois homens) às ruas para comemorar a eleição da primeira mulher Presidenta deste país. Uma geração que, certamente, não tem a dimensão disso tudo, desta revolução, deste avanço e do imenso passo dado em direção à igualdade e ao empoderamento feminino. Com certeza, presidenta, meus filhos serão melhores do que eu.
A como mãe e mulher, sei que compreende a grandeza deste momento.
E eis que eu me entristeço quando, aos poucos, o discurso das ruas parece cegar. Como execrar de maneira tão abusiva e desespeitosa uma chefe do Poder Executivo eleita, quando os que foram mandantes de torturadores nunca sequer foram julgados? Cada vez que um misógino esbraveja, atinje a mim também. Ataca nossos direitos e ameaça o futuro.
O discurso preconceituoso de outros dá conta de uma sociedade que sempre dominou não aceita o fim da escravidão, não aceita o filho do pobre com a mesma oportudade que seus próprios filhos; não admite perder privilégios. Foram os donos da bola por tantos séculos que agora esbravejam. Esperneiam.
Aqui, da cidade que unem-se rio e mar, recebi a notícia deste feliz encontro com os jovens do Ciência Sem Fronteiras. Confesso que gostaria de estar aí por dois motivos.
Para conhecê-la e dizer o que agora escrevo, mas também para estar com meu filho, pois a saudade começa a tomar assento no meu peito. Coisa de mãe.
Desejo-lhe força para continuar transformando a vida de jovens como meu filho; seguir sendo exemplo a mulheres como eu; garantir o direito de expressão para todos os brasileiros, pensem ou ajam como queiram.
Que as falhas sejam apuradas e os desvios, ajustados para o bom caminho. Nosso país tem meios e instituições para tal. Eu acredito na política como agente transformador da sociedade. Acredito que política é lugar de gente bem intencionada. Acredito em você.
Dilma Roussef, você sempre terá a nossa admiração, a nossa lealdade e imenso respeito!
Obrigada e muita força!
Germana Accioly
Escrevo aqui do calor do Recife, cidade de tantas lutas e tanta tradição.
Se esta carta chegar às suas mãos, já será um imenso prazer.
Dizem por aqui que, quem adoça a boca dos meus filhos, a minha adoça.
Em primeiro lugar, Dilma, agradeço. Pela oportunidade que tantos jovens como o meu Dante estão vivendo, de conhecer outros países, outras culturas, outras línguas e, com isso, trazer uma infinidade de novas possibilidades ao nosso país e ao futuro de cada um.
Nossa família jamais teria como oportunizar uma experiência semelhante. Linda esta sua iniciativa de abrir a possibilidade para toda uma geração. Como mãe, vejo minha cria voar, crescer com a força da educação. Isso é política pública responsável e de longo prazo. Valorizar pessoas e, a partir delas, melhorar a sociedade.
Sou jornalista de formação, sou nordestina, mãe, mulher e cidadã. Desde muito cedo na vida compreendi que militância existe na política, mas também em cada um desses outros papéis.
E, permita-me dizer, aprendi muito com o seu exemplo.
Acompanhei sua trajetória desde o Ministério de Minas e Energia, um território povoado pelo poderio masculino. Quando me diziam: "Dilma é dura feito um homem", eu pensava: "Porque nós, mulheres, quando assumimos posições tradicionalmente masculinas, somos estigmatizadas justamente na questão de gênero? Porque sempre discutir o que nos afasta, e nunca o que nos une?"
Minha felicidade foi levar meus filhos (os dois homens) às ruas para comemorar a eleição da primeira mulher Presidenta deste país. Uma geração que, certamente, não tem a dimensão disso tudo, desta revolução, deste avanço e do imenso passo dado em direção à igualdade e ao empoderamento feminino. Com certeza, presidenta, meus filhos serão melhores do que eu.
A como mãe e mulher, sei que compreende a grandeza deste momento.
E eis que eu me entristeço quando, aos poucos, o discurso das ruas parece cegar. Como execrar de maneira tão abusiva e desespeitosa uma chefe do Poder Executivo eleita, quando os que foram mandantes de torturadores nunca sequer foram julgados? Cada vez que um misógino esbraveja, atinje a mim também. Ataca nossos direitos e ameaça o futuro.
O discurso preconceituoso de outros dá conta de uma sociedade que sempre dominou não aceita o fim da escravidão, não aceita o filho do pobre com a mesma oportudade que seus próprios filhos; não admite perder privilégios. Foram os donos da bola por tantos séculos que agora esbravejam. Esperneiam.
Aqui, da cidade que unem-se rio e mar, recebi a notícia deste feliz encontro com os jovens do Ciência Sem Fronteiras. Confesso que gostaria de estar aí por dois motivos.
Para conhecê-la e dizer o que agora escrevo, mas também para estar com meu filho, pois a saudade começa a tomar assento no meu peito. Coisa de mãe.
Desejo-lhe força para continuar transformando a vida de jovens como meu filho; seguir sendo exemplo a mulheres como eu; garantir o direito de expressão para todos os brasileiros, pensem ou ajam como queiram.
Que as falhas sejam apuradas e os desvios, ajustados para o bom caminho. Nosso país tem meios e instituições para tal. Eu acredito na política como agente transformador da sociedade. Acredito que política é lugar de gente bem intencionada. Acredito em você.
Dilma Roussef, você sempre terá a nossa admiração, a nossa lealdade e imenso respeito!
Obrigada e muita força!
Germana Accioly
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Vinte e um
Três vezes sete. Sete vezes três.
Números primos.
A idade da divisão das águas.
Hora de aprender a dividir, somar, multiplicar e diminuir.
Quatro operações para toda a vida.
Tanta métrica para falar de amor....
Tão pouca rima para viver.
E viver de rima pra quê, se a poética é maior no desigual.
A vida que ensina a viver é irregular.
A distância fortalece a alma dos que nela crêem.
Ando Pessoana, ando muito pessoal.
A maioridade evoca o significado do seu nome.
Durável na minha vida. Permanente.
Relação perene e longa.
Em você, a minha imortalidade.
Minha herança doada.
Meu sempre carimbado.
Dante.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Oferendas
Filhos são oferendas para o mundo
Flores jogadas ao mar
Garrafas com mensagens de fé
Cânticos de esperança
Filhos são entranhas
Tripas, bofes e coração
Unhas encravadas
Dores de coluna
Presentes e ofertas aos Deuses
Residem na dualidade
Moram no campo diverso
Dor que sinto e adormeço
Filhos são amor, missão
tesouros irmanados
prendas que nunca são nossas
canto da sereia
final e ponto.
Saudade é porto sem mar.
Flores jogadas ao mar
Garrafas com mensagens de fé
Cânticos de esperança
Filhos são entranhas
Tripas, bofes e coração
Unhas encravadas
Dores de coluna
Presentes e ofertas aos Deuses
Residem na dualidade
Moram no campo diverso
Dor que sinto e adormeço
Filhos são amor, missão
tesouros irmanados
prendas que nunca são nossas
canto da sereia
final e ponto.
Saudade é porto sem mar.
domingo, 16 de agosto de 2015
pra que rimar?
Tenho cá pra mim que a saudade é um ser solitário, incapaz de amar. Tenho ainda mais convicção porque, amando, não faria ninguém sofrer desse jeito.
Porque amar e sentir saudade são duas coisas que não deveriam andar juntas.
O amor é pleno, universal, transcende tempo e espaço. O amor é generoso. Não haveria de sofrer com a autoridade imposta pela saudade.
Falo isso com a propriedade de quem já andou com estes dois juntos.
Hoje estou prestes a sentir uma das maiores saudades da vida. E vim antecipando este sofrimento. Acordando de noite com esta dor sem destino nem remédio... Deixando de lado o que há de mais lindo e nobre, inegável e infindo.
Decidi jogar diferente com o futuro. Vou apostar no amor. No amor que construí desde sempre. Na dádiva que é ser mãe neste mundo de tantos bilhões de pessoas e este filho ser você!
Vou apostar na alegria que você me dá, e na promessa do que virá.
Vou investir no exemplo que eu te dei a vida toda. Moramos longe, moramos perto, sentimos frio, calor! Eu sempre te disse que o amor está em todo lugar. Aqui, em Paris, em Brasília e na Finlândia.
Porque o clichê mais verdadeiro do mundo é o que diz que o amor está dentro de nós.
Então! Acabei de despejar a saudade. No lugar dela, alojei o bem querer.
Que estes nove meses que você vai passar longe de mim sejam tão profícuos quanto os meses em que eu te esperei, antes de nascer.
Ali gerava um filho. Hoje, forma-se um homem.
Vou te esperar com esperança, não com dor. Vou te esperar com certeza, não com fragilidade.
Vou te esperar com menos pesar porque você nunca vai sair de mim.
A saudade, esta velha inquilina, certamente voltará. E eu vou oferecer a ela o meu amor por
você.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
dueto de três
São dois.
Espaço binário, metades inteiras e únicas.
São dois.
Cabeças pensantes, imagens de luz.
São dois.
Combinações infinitas de formação e vida!
São dois.
E juntos, somos únicos.
São quase homens.
São para o mundo afora.
São dois.
Cada um.
Somos três.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Estelita. Da glória
Na porta aberta da minha casa, para
um carro.
- Olá, bom dia! Este é o número
310?
- É sim. Eu moro aqui.
- Morei nessa casa. Vim do
interior para estudar e esta era uma pensão. Fui tão feliz nesta casa!!!
- Assim como eu sou hoje!
- A dona desta pensão chamava-se
Estelita.
Minha voz embargou. Estelita
ocupou a Glória. Em 1963!!!!
Na viela sinuosa, que imita o
curso de um rio, a vida passa sob o sol. Uma rua orgânica, o curso da água, o
curso da vida. Uma rua vestida de sol. Aqui não há sombra. O sol banha cada
pedra, ilumina as fachadas. Varais dão conta do cotidiano.
Casas de gente com riso aberto
nunca estão fechadas. Carregam em sua alma, portais. Histórias banais, pequenos
romances, amores perdidos, tristezas imensas estão armazenadas em suas paredes,
em cada ladrilho. Janelas abertas para o tempo, passagem.
E como compete aos viajantes do
tempo, uso da licença poética para contar uma história que também é minha.
Ela não devia ser alta. Nem muito
feliz. Nem triste. Serena. Riso plácido. Imagino um coração grande, crescido de
vida. Um espírito de acolhimento andando pela casa comprida, pisando no
ladrilho hidráulico verde e azul. As flores desenhadas no chão com ares de
jardim. Um tapete desgastado pelos tantos visitantes no tempo. Era tapeçaria
rara, trabalho de artesão.
Na esquina com a Leão Coroado o
Clube Lenhadores fazia suas tertúlias. À frente estavam os cânticos do convento.
Era um caldeirão cultural. A rua dos judeus. A rua dos estudantes. A rua do
Lenhadores. A rua da Glória.
Como uma foto de família, uma
carta de amor, um tecido estampado, também a história desbota. Deixa pistas,
marcas, pequenos traços. Um roteiro sutil para observadores atentos. A música
silenciou. Lenhadores fechou. As fachadas descascaram. O convento se recolheu.
De testemunha, a memória, a
história e os ladrilhos hidráulicos. Da Glória, restou a alcunha. E quem
enxerga através da lente do passado?
Casas sem teto. Rua sem dono.
E quem enxerga através da lente
do passado?
O Recife cresceu. Verticalizou.
Migrou.
Não é só gente que é vítima de
preconceito. O bairro no coração da capital virou marginal.
Amamos a casa sem teto. Criamos varanda,
criamos quintal. Chuva tamborilando no telhado. Passarinho de mudança para o Pau
Brasil. Flores no jardim, hera no muro.
Ocupamos com amor. Ocupamos com
cheiro de comida. Ocupamos com as crianças rindo na hora do café da manhã.
Esta Rua sempre foi nossa. Mesmo
antes de existirmos. Toco meu piano, abro a janela e declaro minha paixão. Não
importa quem ouve. Faço um afago à história. Respiro sua vida.
Glória!
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