terça-feira, 16 de outubro de 2007

A vida que imita a arte



Fui ver tropa de elite. Isso mesmo. Fui ver.

Resisti a todo e qualquer piratex porque não abro mão do cheiro da sala escura, do ritual de olhar o horário no jornal, entrar na fila, escolher um bom lugar pra sentar.
Esperei e lá vou eu neste feriadão assistir ao filme.
É obra de arte. Obra de arte da vida real, crua, nua, sangrando, até.
De um lado, a capacidade de uma equipe em contar esta história nada poética, transformando tudo em relato artístico.
Do outro, minha alma humanista levava uns sopapos. Durante a sessão, umas cinco vezes quase me levantei e saí. Mas pensava que deveria assistir até o fim. E contrariava meu desejo.
O resultado foi que ao final, já exausta, quando as luzes acenderam, eu era um molambo. Pernas dormentes não queriam sair da cadeira. Minhas lágrimas gritavam.
Com muito custo, saí do cinema.
E vamos pra cerveja. Me senti um E.T.
Somente eu tinha visto o filme como obra de arte. As outras pessoas tinahm visto no cinema, talvez, o jornal nacional.
Tentei ainda argumentar, espernear, explicar. Qual nada.
Então, reduzi minha mofada e antiquada sensibilidade ao meu peito, espremida.
Hoje, quando abro os jornais, a manchete é chocante:
Agente penitenciário se mata depois de assistir ao filme tropa de elite.
Ele efetuou os disparos ali mesmo, dentro da sala, enquanto subiam os créditos.
Subitamente, libertei a minha sensibilidade humanista que estava presa no peito. Que tipo de sentimento aquela película despertou no homem já desesperado?
Nunca vamos saber. Talvez nem devamos saber.
Pois é, meus caros. A vida imita a arte.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

A última vida


Cheiravam a jasmim as rosas mesquita.Ela passava a mão sobre sua pétalas amarelas, pequeninas, sem temer os espinhos. Um olhar mais atento e todo o ambiente cheirava a jasmim. Um perfume persistente. Distante, começava a sentir a chuva chegando. Um tropel firme e seguro, compasso bem marcado chegando pelos telhados vizinhos.
Antes fossem a salvação.
E o jasmim agora compactua com o agreste da terra batida molhada. A água sobre sua cabeça martela a mesma cantiga.
Entorpecida, já no limite da razão, despenca no chão. As longas tábuas do assoalho dançam sinuosas.
Sonha novamente seus sonhos de menina, fitas no cabelo. Relembra os planos ainda muito jovem. Nenhuma conexão com a vida.
Nenhuma ponte, nenhuma palavra em comum.
Vive-se mais no último instante. Vive-se, pelo menos. É a última chance.
Sono, muito sono. Certamente são os últimos momentos.
Olhar fixo nas telhas de argila. O teto vai subindo. Sumindo.
E o cheiro do jasmim resiste. Domina as frágeis roseiras.
Faz seu corpo descansar pela última vez.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Sabedoria



Instante é o intervalo entre o sinal abrir e o carro que está atrás buzinar. Millor Fernandes dizia mais ou menos isso. E os instantes estão cada vez mais intensos.

Tolerância, paciência, temperança.... são qualidades em extinção.
Chama o Millor!!!!!!!


segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Ninho


A gente saiu pra comprar um carro e acabou comprando um apartamento. Naqueles tempos, velhos tempos, nossa coragem era muito, muito maior do que a consciência de que deveríamos poupar, juntar, planejar.... compramos e pronto. Compramos e ponto.
As prestações mensais eram nada mais nada menos do que nosso salário junto!
E a nossa inocência foi tratando da vida. Nossos anjos da guarda devem ter trabalhado muito pra garantir que a gente realmente conseguisse honrar os compromissos.
O primeiro rebento já estava lá. Boquinha aberta, feito passarinho, esperando alimento.
Logo, veio o segundo pro ninho. E a família, naquele segundo andar, ia vivendo.
Portas arrancadas viraram estantes,
Cabos de vassouras, guarda-roupas.
Criatividade, criatividade.
Muito espaço pras crianças aprenderem a andar. Poucos móveis.
E os anjos da guarda, coitados, sem férias.
Era quadro vendido na véspera da intercalada, convite pra trabalho no mês das chaves....
FELICIDADE.
Hoje ele deixou de ser nosso.
Mudamos pra outro ninho, com nossos filhotes já batendo asas muito fortes.
Durante todo o dia, nenhum tipo de melancolia me veio à mente.
Mas agora, perdoem-me.
Senti falta do momento de improviso da minha vida.
Tínhamos um fusquinha verde-água. Saímos pra trocar o bichinho e acabamos comprando um ninho...

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Padecendo no Paraíso

Raízes robustas e folhas vívidas, meus meninos vão crescendo.
E eu, aprendendo com eles. Este clichê é a mais pura verdade. E que verdade incrível.
Vejo-me neles, mas vejo-os senhores também.
E o engraçado é que o passado vai ficando cada vez mais presente. É como se a gente segurasse forte a mão da história.
E o futuro inevitável virá. Os meus meninos serão sempre.




quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Musa

Repousa sobre o canapé, imóvel, a natureza morta.
Dormem os braços, as pernas, o quadril.
Dormentes, já não fazem parte do corpo.
Os braços enlaçam as faces,
Caminho que revela trilhas alvas no perfil.
Dialoga o ventre com o olhar atento.
O ritmo agitado do peito
No contratempo do corpo inerte.
Pulsam os seios nus:
Imagem cálida de santa venerada.
O pincel passeia a traços largos,
Linhas essenciais.
Curvas montanhosas e um jogo de luz e sombra
Cravam na tela a tinta acrílica.
O sol espreita a cena por entre as telhas vermelhas.
Irmanam-se os odores
Do corpo dela perfumado de mulher,
Dos corantes compactos no tecido,
Do cheiro forte da água que corre pela viela estreita.
Cansaço e sedução.
O melhor ângulo para a poesia dele.
O melhor argumento para eternizar a pele dela.
Foram-se tardes inteiras. Passaram-se anos. Traços mais livres e largos seguiram imortalizando a musa. Ancas vastas, carregadas de vida e história pelo corpo. Saciaram a certeza. Tudo sempre estivera assim. Tardes de amor, vida em comum.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Um sopro


No dia em que eu morri, de coração impregnado, chovia muito.

Não fazia frio.
As velas do teatro teimavam em brilhar. Resistiam aos humores da brisa como quem procura por oxigênio para alimentar os pulmões.

A peleja das velas ..... Suas sombras inquietas flamejavam figuras pelas paredes, entre as coxias, que subiam no palco como entidades de outro mundo. Vinham para uma longa festa.
No dia em que morri a chuva também brincava de existir. Os carros à porta do teatro, puxados por cavalos vigorosos e ela vinha como um raio. Dissipava suas gotas em córregos e nos meio-fios. Molhava as casacas pretas, desenhava com vapores abstrações nas janelas. Apressava os passos de salto agulha na pedra sabão e nos degraus de mármore da entrada.
Na sala de espetáculo, não se tomava conhecimento das nuvens fortes, nem sentia- se o vento úmido e denso.
La dentro os perfumes fundiam-se e as vozes eram como murmúrios, correnteza de rio que insinua a chegada.
Nada se decifrava antes de começar o concerto.
Como faço nesta vida, escolhi meu melhor xale. Vesti um modelo que mostrasse bem o meu colo num decote pouco insinuante que emoldurava os ombros. Cabelos displicentes sequer reagiam ao vento.
Acomodei os convidados nos camarotes e sentei-me para apreciar a orquestra talvez na terceira peça. O coração batia forte e suas ondas transbordaram pelos meus olhos. Como acontece nos dias de hoje, o choro era de felicidade.

Os metais contavam histórias. As cordas reagiam com lamentos.
Posso ouvir suas harmonias até hoje.

Foi quando o maestro anunciou. Fiquei em pé para aplaudir. O maestro dedicou para mim a próxima música.
O coração aplaudiu forte demais. Rasgou as veias, arrancou suas paredes.
A minha vista escureceu. Ainda olhei em volta e senti o instante último.
Uma dor forte e definitiva. Como uma vela que teimou e foi vencida pelo vento. Um sopro.
E foi assim que eu morri feliz.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...