
O clima era típico de natal.
Num sábado à tarde, shoppings coalhados de gente, cartões de crédito dançando em máquinas alheias, a família resolveu fazer um lanche.
Gente, gente, gente. Na entrada principal encontraram logo uma praça super iluminada, cores piscando, cheinha de renas, árvores com folhas de borracha e cobertas de neve de isopor.Uma fila circundava a pracinha de plástico. E ao final dela, Papai Noel, sentado numa poltrona vermelha e dourada, recebia os pequeninos.
De um lado, o filho mais velho, que não contava mais que seis anos, mas era muito espevitado, balançava seus cabelinhos de milho dourado e dizia:
-
Papai Noel não existe! É um homem vestido feito uma fantasia de carnaval.
Com a mão firme à da mãe, o pequeno, que tinha uns 3 anos, nem pestanejou:
- Existe sim, né, mãe??
Instalou-se a polêmica. A mãe olhava pra os cílios grandes e os olhos redondos do caçula, ávido que a verdade fosse esclarecida... ao mesmo tempo, sabia que seu mais velho tinha convicção de que tudo não passava de uma brincadeira.
Pensou rápido. E arriscou:
- Filho, Papai Noel existe pra quem acredita nele.
Silêncio entre os três.
Mas a mente inquieta do mais velho disparou:
- Quero sair da fila!
Incontinenti, pegou a mão do pai e arrastou. Estes gestos decididos eram a sua marca.
A mãe ficou com o pequenino naquela fila lenta, lenta....
O menino não largou a sua mão em nenhum momento, e às vezes soltava uma frase do tipo:
- Ele não existe, mas eu quero ficar aqui.
Até que chegou a vez do menino de olhos pretos encontrar-se com o Bom Velhinho.
E o Papai Noel escondido na barba branca impecável, abriu logo um sorriso...
para a mãe!-Germana, há quanto tempo!
E o menino, indignado:
- Mamãe, você conhece Papai Noel
e não me disse nada???????..........
A mãe muda, sorria meio sem graça.
Com a mãozinha em concha escondendo a boca, o menino foi ao ouvido do homem para fazer-lhe uma confidência. Afinal estavam entre amigos.
- Olha, Papai Noel, eu tenho um irmão deste tamanho (disse se esticando todo pra cima) que não acredita em você não.
Mas mande um presentinho pra ele mesmo assim, viu?O Papai Noel, que tinha amizade com a mãe desde a época em que ela tinha arriscado a carreira de atriz de teatro, encheu-se de emoção. Com o menino já muito bem acomodado no colo, chamou o fotógrafo. Pediu um tempo para enxugar as lágrimas e disse ao pequeno:
- Esta foto eu mesmo vou mandar pelo correio pra sua casa, certo?
O pequeno estava feliz, realizado. Saiu de lá sabendo que não poderia revelar o segredo ao seu irmão mais velho, tão desejoso por entrar no mundo real e participar da vida dos adultos.
Mas que Papai Noel existe... ah... isso existe!