Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
sexta-feira, 6 de março de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
o curioso caso da alma
Tem coisas que a gente carrega. Outras carregam a gente.
Há histórias que ficam entranhadas na memória. Outras buscam esconder-se entre os espaços vazios do cérebro. E talvez nunca se revelem.
Há as sensações que alojam-se na pele. Subcutâneas, muitas são hospedeiras, parasitas.
Os cheiros também são capazes de armazenar memória. Não é surpresa pra ninguém. Flores, perfumes, odores, ácidos, doces, cítricos, únicos.....
Carrego comigo várias dessas memórias. Elas ficam entulhadas em gavetas mal organizadas, alheatórias. Ontem, abri uma dessas gavetas que estão esborrando de histórias e amassei as antigas pra guardar mais uma.
É a memória de uma obra de arte.
É a memória de uma ficção.
Cumpri o ritual de ir ao cinema ontem. Um filme em que o homem nasce velho e morre moço.
E trouxe o drama comigo. Na reflexão de uma existência em fábula, encontrei a minha.
Tem gente que nasce velho, secular. A casca novinha, mas a alma de outros carnavais. Não julgo outros.
Minha alma me carrega. Me levanta, me orienta, me nina.
Minha alma me envelhece. É um ser compenetrado.
Às vezes, muito raramente, fujo dela. Dou piruetas, sacolejo, armazeno energia juvenil.
E então volto, abraço minh’alma.
Vou morrer velha, mesmo que hoje.
Há histórias que ficam entranhadas na memória. Outras buscam esconder-se entre os espaços vazios do cérebro. E talvez nunca se revelem.
Há as sensações que alojam-se na pele. Subcutâneas, muitas são hospedeiras, parasitas.
Os cheiros também são capazes de armazenar memória. Não é surpresa pra ninguém. Flores, perfumes, odores, ácidos, doces, cítricos, únicos.....
Carrego comigo várias dessas memórias. Elas ficam entulhadas em gavetas mal organizadas, alheatórias. Ontem, abri uma dessas gavetas que estão esborrando de histórias e amassei as antigas pra guardar mais uma.
É a memória de uma obra de arte.
É a memória de uma ficção.
Cumpri o ritual de ir ao cinema ontem. Um filme em que o homem nasce velho e morre moço.
E trouxe o drama comigo. Na reflexão de uma existência em fábula, encontrei a minha.
Tem gente que nasce velho, secular. A casca novinha, mas a alma de outros carnavais. Não julgo outros.
Minha alma me carrega. Me levanta, me orienta, me nina.
Minha alma me envelhece. É um ser compenetrado.
Às vezes, muito raramente, fujo dela. Dou piruetas, sacolejo, armazeno energia juvenil.
E então volto, abraço minh’alma.
Vou morrer velha, mesmo que hoje.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Carnaval pelo correio

Amigos, me mandem pelo correio
Um pouquinho de confete e serpentina,
Cheiro de cerveja misturado com batida de limão. Vocês encontram na Praça do Carmo, em Olinda.
Preciso do som de um trompete perdido da orquestra;
Os sons graves e agudos dos chocalhos nas costas do caboclo de lança;
Os raios do sol do sábado de Zé Pereira no dia do Galo da Madrugada, mas quero o sol do meio-dia, tinindo no juízo.
Quero um acorde de vassourinhas;
Quero meu sapato de carnaval cheio de lama, ficando furado no dedão.
Minha fantasia reciclada:
Aquela que usa a saia de bailarina com o corpete de melindrosa
E o chapéu de bruxa de antigos carnavais.
Quero dentro de um envelope
Umas purpurinas colhidas da rua do Bom Jesus
Pode ser da rua da Guia também.....
De Olinda, mandem um queijinho assado pra aplacar minha fome de folia,
E um caldo cana, pra restaurar minhas forças.
Quero, se possível, um fio do estandarte da Pitombeira.
“ Se a turma não saísse não havia carnaval.....”
Aqui já tenho as letras de Capiba,
Minhas lembranças momescas,
Os frevos de Nelson Ferreira....
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Um futuro inviável
Minha solidão é imensa.
O céu em prantos faz coro com meu coração.
E neste instante, penso na solidão do meu amigo eliminado.
Como será que se sente um homem em frente ao seu algoz?
No momento derradeiro, cano de ferro apontado pro peito,
Pólvora prestes a explodir.
- É VOCÊ QUEM EU QUERO, RAPAZ! (eis as últimas palavras que ele ouviu).
Uma solidão completa, impotência.
Um silêncio sepulcral, talvez.
Ou, quem sabe, passe rapidamente em sua mente o filme da vida:
Sonhos realizados, frustrações, futuro inviável.
Já faz alguns dias que ele se foi. Manoel Mattos foi assassinado.
Eu ainda não acredito no que dizem todos os jornais. Talvez ele saia de um esconderijo a qualquer momento.
Esta dor, que bate a minha porta e que em vão expurgo. Talvez seja a dor da lucidez. Não há mais fantasia. É tudo verdade. A voz que escuto longe, a imagem deste homem me aparece quando fecho os olhos. São artifícios.
E então, minha solidão em algum momento talvez se irmane com a solidão dele, prestes a ter seu coração dilacerado por um tiro. Um coração de homem.
Minha solidão de ser tão humana, demasiadamente humana.
Minha solidão de ser tão pouco humana.
Minha solidão por não ter feito nada.
O céu em prantos faz coro com meu coração.
E neste instante, penso na solidão do meu amigo eliminado.
Como será que se sente um homem em frente ao seu algoz?
No momento derradeiro, cano de ferro apontado pro peito,
Pólvora prestes a explodir.
- É VOCÊ QUEM EU QUERO, RAPAZ! (eis as últimas palavras que ele ouviu).
Uma solidão completa, impotência.
Um silêncio sepulcral, talvez.
Ou, quem sabe, passe rapidamente em sua mente o filme da vida:
Sonhos realizados, frustrações, futuro inviável.
Já faz alguns dias que ele se foi. Manoel Mattos foi assassinado.
Eu ainda não acredito no que dizem todos os jornais. Talvez ele saia de um esconderijo a qualquer momento.
Esta dor, que bate a minha porta e que em vão expurgo. Talvez seja a dor da lucidez. Não há mais fantasia. É tudo verdade. A voz que escuto longe, a imagem deste homem me aparece quando fecho os olhos. São artifícios.
E então, minha solidão em algum momento talvez se irmane com a solidão dele, prestes a ter seu coração dilacerado por um tiro. Um coração de homem.
Minha solidão de ser tão humana, demasiadamente humana.
Minha solidão de ser tão pouco humana.
Minha solidão por não ter feito nada.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
invenção

Inventei um sonho de granito e concreto.
Era um sonho verde, com flores no jardim.
Tinha um cachorro no quintal e meu filho brincando de cavalinho na mangueira carregada.
Inventei um sonho, confesso.
Com passarinhos cantando e um ventinho frio quando a noite caía.
Era um sonho azul, com amigos na varanda.
Tinha ainda música aos domingos.
Inventei e quase acreditei.
E nele havia redes entre as pilastras do alpendre.
Não inventei, contudo, o trator com grandes garras.
Não inventei, juro.
Gritei pro meu menino descer rápido da árvore.
Catei as mangas que pude.
Colhi algumas flores pra levar comigo.
Era ainda tardinha.
Acordei.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Viva Cecília Meireles!
Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.
Não escrevi esta frase. Nem invejo Cecília Meireles por tê-la concebido.
Ao contrário: alegro-me em saber que ela existiu e traduziu tantas sensações complexas com palavras simples.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
o luto dos peixes

- Diga tudo, menos isso!!!!!
Assim começou nossa primavera em Paris.
Uma campainha tocou e uns minutinhos depois ouvi Rinaldo repetir:
- Diga tudo menos isso, cara!!!!!
Era semana santa. Uns 11 amigos decidiram aplacar nossa saudade do Brasil. Estávamos morando em Saint Denis, cidade pertinho de Paris. A gente morava com os dois meninos num apartamento que não tinha mais de 50 metros quadrados. Mas a vontade de ver todo mundo era maior. E a gente teve sorte. Os vizinhos tinham vindo ao Brasil passar férias. E não eram quaisquer vizinhos. Eram minha prima-irmã e o marido dela. Gente que nos acolheu quando chegamos na cidade luz. Eles nos cederam o apartamento de dois quartos, banheiro cozinha e sala pra acomodar nossa trupe visitante.
A porta continuava aberta. A esta altura, toda a população do apartamento “1” se aglomerava na porta principal para saber o que estava acontecendo. Eram duas adolescentes brasileiras (minha irmã e uma amiga), um casal ítalo-brasileiro, mais dois amigos e a filha que estavam morando em Londres, dois grandes amigos com a filhinha do Recife, sem contar o filho mais velho dela que era brasileiro e morava em Milão.
As refeições eram monumentais! Nossos passeios, divertidíssimos, sempre acompanhados de dúzias de sanduíches. A primavera de Paris tinha cores a mais. Entrávamos no metrô juntos, íamos ao supermercado em bando. Tudo muito familiar. Tudo muito legal.
Na primeira noite, arrumamos todos em seus colchões, beliches, colchonetes. O casal de Recife e os dois filhos foram pro apartamento da minha prima, porta com porta. Decidimos que não usaríamos a cozinha, pra não mexer em nada.
Instruímos o pessoal a alimentar os peixes vermelhos (Reco-reco e Bolão). Azeitona tinha morrido uns meses atrás. O aquário ficava no quarto do casal. Eu sabia que os peixes eram de estimação.
Pois eis que nosso amigo do apê ao lado estava justamente nos informando a morte de Bolão.
- Diga tudo menos isso, por favor!!!! Rinaldo foi entrando no apartamento vizinho e uma romaria o acompanhava. O peixe jazia no congelador.
Eles contaram que estavam os dois deitados na cama de casal quando perceberam que um dos peixes, o Bolão, estava meio estranho. Ele, digamos, estava relaxado demais.
- E agora? Compramos outro igual pra deixar no lugar?
- De jeito nenhum, cara! São de estimação!
Coube a mim dar a notícia fúnebre.
Liguei pro Brasil, onde o verão em Fortaleza devia estar fervendo.
- Alô, Paulinha? Tenho uma notícia pra te dar. Qual?
- ..... O peixe subiu no telhado....
- .... Silêncio
- Paulinha????
- Mana, deixa que eu dou a notícia pra ele.
Uns minutos depois o telefone toca. Rinaldo recebe as instruções. Foi na jardineira do banheiro, contou três dedos à esquerda do pé de cebola e “plantou” o peixinho.
Foi. Todo mundo constrangido.
Reco-reco sozinho no aquário não teve companhia pra aquela noite.
Nos apertamos todos num só apartamento pra dormir.
Há que se respeitar o luto dos peixes também.
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