sábado, 1 de junho de 2013

Mãe da Luz

Luís,

Você é filho da certeza.
Uma certeza imensa de que o meu amor de mãe chegaria a abraçar mais um fruto.
Você também é filho da alegria mais pura.
Dentro daquele envelope de plástico transparente tinha um papel dobrado com o resultado de um exame. Eu não precisava ler para saber que você já se fazia. Mas abrir, ler, foi como explodir de alegria. Até hoje se penso em um momento muito feliz da minha vida, lembro do dia em que saí do laboratório com o exame na mão, sem conseguir parar pra pegar um taxi ou um ônibus. Fui andando até a nossa casa, parando em cada telefone público, avisando aos quatro ventos a surpresa do meu ventre.
Você é filho da prosperidade. Já nasceu nos trazendo notícias boas, fazendo a família crescer e ficar mais forte.
Eu sou mãe.
 Mãe da alegria de viver que você tem.
Mãe da sua alma universal.
Mãe do seu olhar sobre o mundo.
Mãe do seu jeito de aprender a viver.
Hoje você faz 15 anos.
Um orgulho imenso me move.
Você é Luís.

Filho de Germana e Rinaldo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Filha do Mangue


Vem a chuva a me acordar às quatro da manhã.  
Quatro e trinta e sete.
Tocando um samba canção nas telhas do meu quarto. Chegou mansinha convidando a bailar.
A introdução era um ritmo tirado da caixa de fósforo. Leve, quase canção de ninar.
Me faço de difícil. Fico ouvindo, mas não abro os olhos. A minha intenção era que ainda fosse noite e eu estivesse sonhando.
Mas a chuva não é qualquer uma. Chuva de maio me lembrando que nasci num dia assim. Chuva de inverno, temperamento forte. E ela engrossa a bateria, fazendo um samba enredo.
Sou do frevo, não sei sambar.
Levanto pra saudar a mãe natureza.
Tomo meu café com uns pinguinhos me beijando no alpendre.
É preciso arrumar a calha.
Volto pra cama, crente que tinha amainado a minha inquilina.
A rua sendo lavada pela água que veio do céu. 
Escolho o melhor jeito de me enfronhar pelo travesseiro, consigo me aninhar. 
Mas eis que me chega o cheiro da terra molhada e então ouço um tropel.
Agora não é mais samba. 
Fico deitada curtindo aquele concerto infinito. Sinfônico.
O gato se esgueira pelas frestas da porta da varanda. 
O cachorro late em resposta.
A TV, mesmo com o som ligado, fica muda. 
Chove.
Não troco isso por nenhum dia de sol radiante.
Sinto a umidade a 90% na minha pele. 
Gosto do sabor da maresia que a chuva me traz. 
Sou filha do mangue do Recife. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Poligamia





Casei umas 15 vezes nos últimos anos. Talvez tenha sido mais.  
A primeira vez casei com os olhos. Olhei, apaixonei, casei.
Bodas de papel.
Na segunda vez decidi formalizar. Um casamento coletivo, no cartório. Tinha gente de todo tipo junto.
Bodas de algodão.
O casamento seguinte foi na igreja. Trocamos as alianças num ritual singelo. O primeiro filho nos braços.
Bodas de trigo.
As bodas de flores foram com um homem trabalhador, pensava no bem estar da família. Compramos o apartamento.
Depois, me surgiu um homem mais maduro, mais leve. Gostava de sair à noite, de viajar.
Bodas de madeira.
Com as bodas de açúcar ganhei meu segundo filho. Doce, alma de artista, olhos curiosos. Igual ao pai.
Bodas de latão para os tempos difíceis, bodas de barro para o artesão. Amei o jardineiro, fui amante do menino.Do puro. Do macho.
As frágeis bodas de papoula me trouxeram um homem inseguro. Amei.
Buscando firmeza, encarei as bodas de zinco. Depois de aço. Esbarrei na beleza do ônix.
No tempo do ardor, me enfronhei pelas bodas de linho e renda. Tempo do marfim.
O príncipe me chegou em um cavalo branco nas bodas de cristal. Fui sua bela. Adormeci no amor.
As bodas de turmalina me pareceram sem sal.
As de cretone foram cretinas.
Estou nas bodas de porcelana. São lindas. Encantam. Porém, carecem de delicadeza no cotidiano.
Não sou volúvel. Sou criativa.
A questão não é ser casado. É estar. Verbo de ligação, que faz laço, costura a frase e a vida.
O segredo é casar todo dia.
Há 20 anos. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

#Abusada





Somente uma pobre coitada ingênua teria acreditado novamente naquela situação.
Dá até pra se vangloriar. 
Pouquíssimas pessoas no mundo inteiro, nestes seis ou um pouco mais bilhões de pessoas teriam  a mesma capacidade.
Praticamente uma mutação genética.
Ela faz parte de uma elite. A elite dos crédulos.
Não conseguiu matar a Poliana dentro de si. 
Nem a Poliana Moça. 
Talvez tenha traços irreversíveis do Pequeno Príncipe. 
E de Fernão Campelo Gaivota.
Ainda bem que nunca leu Paulo Coelho.
Seria o golpe final, sem volta ao mundo real.
Araruta tem seu dia de mingau. Já tava em tempo de colocar as barbas de molho. E Gato escaldado normalmente tem medo de água fria.
Ela não. Ignorou tudo. E a sabedoria popular agora gritava dentro da cabeça.
Mais uma cabeçada da vida pra entender que tem hora que é preciso ter amor próprio. 
E desconfiômetro.
Nada mudou.
Aliás, mudou.
Ficou pior. 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Conversa de irmã


- “Fito-te - E o teu silêncio é uma cegueira minha". (Fernando Pessoa)
- Vou explodir com esta frase. Sabe isso? Vou escrever isso também. Cacilda!
- Te amo.
- Moi aussi. Love you. Agora queria ardentemente ser poeta.
- E eu!!!!!!! Esse é o sonho.
- No meu caso, é necessidade.
- Você foi poeta agora!
- Foi mesmo.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Namorado Duty Free


Cansou de procurar a outra metade da laranja em português.
Já tinha ido aos quatro cantos.
Na chapada, encontrou um paulista neurótico.
No Recife, um candidato a Peter Pan.
O vizinho japa era gostosinho.Mas muito tímido.
Tinha um cara até legal no curso de roteiro que ela fazia uma vez por semana. Muito vaidoso.
Quando começava a falar, era pra se lascar.
Já tinha morado no Nordeste, arriscou Brasília, estava de volta à pauliceia desvairada.
Os Nordestinos, muito machos.
Os Brasilienses, muito quadrados.
Os Paulistas  não queriam mulheres de 40. Trocavam por duas de 20.
Uma vez ficou presa num elevador em plena passagem de ano com um outro que sequer sabia olhar no olho. Dispensou.
Pensou: o problema é comigo.
Fez plástica. Preenchimento dos lábios. Comissão de frente nova.
Pilates três vezes por semana.
Os 40 e tantos na pista de corrida.
E nada.
Depilação em dia. Cremes dentro da validade na farmacinha do banheiro. Leitura atualizada.
Um dia comprou uma passagem pro Chile. Uma amiga tinha um contato por lá.
Um arquiteto também dos seus quarenta e poucos, solitário.
Sabia pouco dele. Uma casa em reforma, batizada de Saravejo.
Um pouco do que conseguiu captar via Skype.
Malas prontas, passou pelo Duty Free.
A semana foi santa.
Na mala de volta trouxe uma história de amor. Daquelas quentes.
Não declarou na alfândega a outra metade da laranja. Valia muito mais do que o permitido.
E se tem laranja Bahia sendo produzida no Chile, é bom ir até lá saber o que é que o chileno tem.
E os brasileiros precisam aprender....

sem título, 2013



Não quero um texto novo, brilhando de frescor.

Não quero um texto sem rasuras, ou sem repetições.

Quero um texto tinindo de vida aberta por todos os lados.

Um texto que me comova pela verdade, não pela métrica.

Um texto que me envolva pela maturidade, não pela técnica.

Que agrade a poucos, que tenha sido escrito por muitos.

Muitas referências, muitas passagens.

Uma vitamina batida no liquidificador da existência.

Não quero mais frufrus, arrodeios, embolações.

Meu desejo é tão somente a felicidade.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...