quinta-feira, 9 de abril de 2015
Feliz saudade
Dizem que o tempo não para. Eu até concordo. Mas às vezes ele volta, às vezes ele para por um segundo no passado. Um ponto onde a felicidade era máxima. Um instante em que se eterniza o amor. Eu tinha seis anos. Ou cinco.... e os dias se contavam pelos papeis coloridos com lápis de cor. E as tardes se esvaiam nas brincadeiras de amarelinha na calçada do vizinho... Seu Joselito.
Às vezes pegava carona na entrega de cimento. A carroça ia pesada, voltava levinha... e Fortaleza passava pelos meus olhos. O imenso quintal do depósito do vovô, onde brincávamos de escritório.
Palavras mágicas até hoje são a chave para este portal: Cochixo, Marilac, depósito Tiradentes, merendar, pão de milho, "senha menina reia"....
E o rádio que contava tudo do mundo.... Só que na verdade o mundo era na Monsenhor Furtado.
segunda-feira, 30 de março de 2015
Carta a um amigo
Germano,
Sempre achei, com todos os arrastos, que a Rua da Glória é uma rua feita de sol. Uma rua em que nasce e dorme o sol.
De manhã cedinho tenho o prazer de abrir minha porta, olhar pra esquerda e ver a rua lavada pela luz. À tardinha, voltando pra casa, o sol me encandeia. É a sua despedida. Tenho por este endereço um amor quase ancestral. Tanto, que morando aqui, é a primeira vez que me sinto no meu lugar.
De manhã cedinho tenho o prazer de abrir minha porta, olhar pra esquerda e ver a rua lavada pela luz. À tardinha, voltando pra casa, o sol me encandeia. É a sua despedida. Tenho por este endereço um amor quase ancestral. Tanto, que morando aqui, é a primeira vez que me sinto no meu lugar.
Nesta rua que, sem a lente poética, é suja, feia, triste. Ė quase preto e branca. Nossa casinha amarela, uma das poucas ilhas de cor.
Hoje foi um dia de luz. O sol acordou a Glória, o cheiro do cominho do vizinho subiu logo cedo.
Hoje foi um dia de luz. O sol acordou a Glória, o cheiro do cominho do vizinho subiu logo cedo.
A espera, sem ansiedade, ė um exercício de beleza. E assim foi hoje.
A porta bateu, eu estava teminando um arroz. Corri. um banho råpido, desci as escadas serelepe.
Aliás, peço perdão para mais uma divagação. Quando eu era criança adorava quando minha mãe ia à sua loja. Ninguém, ou quase ninguém, tinha o meu nome. E você tinha. Pra mim era confortador. Lá na minha fantasia juvenil, imaginava que éramos do mesmo grupo. Era como se eu não estivesse sozinha. Mais tarde conheci outros Germanos e Germanas, e por muito tempo fiz meu clube em segredo.
Então, descendo as escadas, minha felicidade gigante era por você ter
aceito esta proposta, este convite de contar a historia dessa rua, a minha rua, com seu brilho e sua sombra.
Germano, sua fala não só me comtemplou. Era como se, de alguma forma, você estivesse contando a minha história,
sendo a sua.
Em muitos momentos, eu me perguntei porque abrir a janela e tocar meu piano com tanto amor para esta rua que mais parece um lixo. Imagino que, com as teclas e os acordes, de alguma forma suplico à historia que também não evapore.
Indaguei igualmente o porque de tanta dedicação a esta casa, este piso, estas pedras que nunca foram de meu pai, meu avô, ou bisavô.
Eu, recifense herdeira do mar de Iracema, dei de vir morar à beira do Capibaribe.
Pois bem, amigo. num clique, ou melhor, em takes, entendi. Sua fala emocionada, verdadeira, realista foi também confortante.
Me descobri nessa militância quase solitária, indo de encontro aos moinhos do consumo, da especulação, da dita modernidade muito mais leve e consciente do que o personagem de Cervantes.
E durante todo o dia suas palavras sábias de sentido me ninaram a mente. Saí dali e fui trabalhar. Hoje a missão foi numa comunidade pobre lá em Boa Viagem. Vi tanta coisa parecida com o que vivo! Só não encontrei a poética, a história.
Chegando em casa, assim, como quem grita, escrevi este texto. Poderia ter escrito somente "Obrigada". Mas seria vazio.
Talvez desde pequena eu entendesse lá, longe da compreensão racional, que viemos realmente de um mesmo lugar. Da Glória. Da Boa Vista.
A porta bateu, eu estava teminando um arroz. Corri. um banho råpido, desci as escadas serelepe.
Aliás, peço perdão para mais uma divagação. Quando eu era criança adorava quando minha mãe ia à sua loja. Ninguém, ou quase ninguém, tinha o meu nome. E você tinha. Pra mim era confortador. Lá na minha fantasia juvenil, imaginava que éramos do mesmo grupo. Era como se eu não estivesse sozinha. Mais tarde conheci outros Germanos e Germanas, e por muito tempo fiz meu clube em segredo.
Então, descendo as escadas, minha felicidade gigante era por você ter
aceito esta proposta, este convite de contar a historia dessa rua, a minha rua, com seu brilho e sua sombra.
Germano, sua fala não só me comtemplou. Era como se, de alguma forma, você estivesse contando a minha história,
sendo a sua.
Em muitos momentos, eu me perguntei porque abrir a janela e tocar meu piano com tanto amor para esta rua que mais parece um lixo. Imagino que, com as teclas e os acordes, de alguma forma suplico à historia que também não evapore.
Indaguei igualmente o porque de tanta dedicação a esta casa, este piso, estas pedras que nunca foram de meu pai, meu avô, ou bisavô.
Eu, recifense herdeira do mar de Iracema, dei de vir morar à beira do Capibaribe.
Pois bem, amigo. num clique, ou melhor, em takes, entendi. Sua fala emocionada, verdadeira, realista foi também confortante.
Me descobri nessa militância quase solitária, indo de encontro aos moinhos do consumo, da especulação, da dita modernidade muito mais leve e consciente do que o personagem de Cervantes.
E durante todo o dia suas palavras sábias de sentido me ninaram a mente. Saí dali e fui trabalhar. Hoje a missão foi numa comunidade pobre lá em Boa Viagem. Vi tanta coisa parecida com o que vivo! Só não encontrei a poética, a história.
Chegando em casa, assim, como quem grita, escrevi este texto. Poderia ter escrito somente "Obrigada". Mas seria vazio.
Talvez desde pequena eu entendesse lá, longe da compreensão racional, que viemos realmente de um mesmo lugar. Da Glória. Da Boa Vista.
quinta-feira, 19 de março de 2015
nunca sou eu!
Tenho uma alma lusitana, só pode ser.
Que vive entre o mar e
o rio.
Cheiro marinho e ar de mangue.
Minha alma inquieta entre as águas me faz
navegar.
Esta noite foi em sonho.
E era eu.
Em outro lugar.
Em outro lugar.
E era
minha alma em outro corpo.
Mas era eu.
Era a vida platônica saindo das cavernas
e dominando as sombras do que eu nunca fui.
E uma das maiores, mais assustadoras e aterrorizantes era um
perfil alheio.
Não era eu.
Era uma outra pessoa, o mesmo sonho. Era outro cenário, o
mesmo enredo.
A trama que me persegue a vida, que me faz viver e morrer.
Minha alma lusitana é dada a saudades. A nostalgia.
É leal.
E não me assusto ao dizer que como este, já escrevi dezenas.
E os deletei, rasguei, maturei, decorei, reli, como quem quer expurgar um mal,
uma bruxaria.
É isso o que muitas vezes esta ligação me soa.
A alguma coisa tão distante e presente, que bem não pode fazer.
A uma prisão ao passado que insiste em não ruir, mas que tampouco evolui em sua pena.
A alguma coisa tão distante e presente, que bem não pode fazer.
A uma prisão ao passado que insiste em não ruir, mas que tampouco evolui em sua pena.
A tentativa tímida fica entre não atrapalhar a minha
vida e não importunar a alheia.
Meus surtos vem e vão, de forma que em alguns momentos estou até mais em paz.
Meus surtos vem e vão, de forma que em alguns momentos estou até mais em paz.
Esta noite fui acometida mais uma vez.
Mas
não era eu.
Era um disfarce. E eu tentava dizer. Só que eu sequer era vista.
Não precisa invocar Freud.
Nem as sincronicidades de Jung.
Nem as sincronicidades de Jung.
Tudo está explicado e dito.
Minha alma vê o barco da vida seguir em águas cada vez mais
profundas.
terça-feira, 17 de março de 2015
Expiração
Não se aprende na fantasia.
Se aprende sendo.
Todo começo é um recomeço....
E se começa a cada instante.
Assim como a respiração, fundamental para a vida.
Se morre a cada expiração.
Se (re)nasce na inspiração.
Assim como na arte.
Inspiração leva à criação. Criatividade.
Cada dia, uma longa respiração.
Cada instante, um desafio.
Um jogo de vida e morte, até o fim.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Violeiros de Abelardo
Andar pelo Recife e encontrar as figuras de Abelardo...
É como encontrar uma paisagem amiga. As figuras que ilustraram meu universo infantil, que mapearam meu afeto e que construíram em mim o amor pela cidade que nasci.
No parque 13 de Maio, os violeiros quase tocavam pra mim, quase entoavam canções.
Dos escorregos também desenhados por Abelardo eu brincava silenciosamente com os cantantes de concreto.
Artistas populares imensos, quando eu olhava do alto dos meus cinco anos. Expressões verdadeiras no rosto. Hoje passei na frente das esculturas e elas cantaram pra mim.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
ele sou eu.
Faz tempo que fujo deste momento.
Eu fujo dele, mas ele não me deixa em paz.
Parece desenho animado, episódio de Tom e Jerry…
Então, mesmo quando estou fazendo qualquer coisa, ele me persegue.
Ele sou eu mesma.
No domingo, passeando pelo Cais José Mariano, uma mulher de costas nuas, com uma roupa domingueira, me faz lembrar.
Lavando a louça, exausta no final de um dia infernal, lá vem ele!
Ele não sou eu. Acho que não. Ele é quase eu.
Ele não me domina, nem eu a ele.
Ah, mas ele me apurrinha!
Agora estamos aqui os dois. Juntos. Eu e o meu pensamento.
Ele, de tão saudoso de mim, está confuso. Me cobra mais tempo, como um filho pequeno quando se chega do trabalho.
Exige tempo, dedicação…
E joga em mim uma profusão de coisas. Na verdade, me resta apenas escrever.
Calma, meu velho. Foram tempos difíceis. Eu estava ausente de mim mesma.
Estou retornando.
Estou voltando.
Como um mergulhador que, sem oxigênio, precisa submergir com cautela.
Como um faquir, que sai do seu transe morto de fome.
Na rua tem gente me parando e perguntando por ele. "Onde estão seus textos?", me perguntam.
Estão aqui, eu responderia.
Mas aqui onde? De onde vem este impulso gigante, autoritário, imperioso, que não me deixa em paz?
Prefiro então rir dizer que já já volto a escrever.
Quando?
Me falta a solidão. Ou a paz.
Me falta o horizonte.
A paisagem interna.
E hoje ele amanheceu sem consolo.
São mais de oito da noite. E, como numa conjunção astral, depois de muitos infernos, me encontro sozinha com ele.
Somos amantes.
Este é o nosso tempo, o templo sagrado.
Alguém me chama. Paro por um segundo. Um hiato pra indicar que estou indisponível.
Agora não. Estou escrevendo.
O ano novo ainda não me deu paz. Uma dúzia de dias que parecem uma gincana.
Hoje aconteceu. Abri a porta e ele veio.
Como quem incorpora.
Pode entrar. Não faça cerimônia, não temos mais idade pra isso.
E ele inundou tudo com sua presença.
E eu sou mais eu quando ele está por perto.
Ah, quem dera ter a poesia sempre ao meu lado. Meu pensamento mais meu.
E ainda penso que ele seja eu….
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