terça-feira, 11 de agosto de 2020

ÁTIMO

Tempo. Unidade volátil.

Tempo. Vacina poderosa.

Tempo. Óculos de grau.

Tempo. Calmante da alma.

Tempo. Anúncio do futuro.

Tempo. Contador da história.

Tempo. Cantador do presente.

Tempo. Companheiro de caminhada.

Anos são segundos. Séculos são átimos.




Foto Yane Mendes


Qual é o seu tempo?

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Cheguei

"Alguma coisa ali adomingava a alma" A frase de Valter Hugo Mae, no livro "A desumanização", me trouxe de volta. 
Sim, de volta. 
Passei dias sentindo uma necessidade de recolhimento que nunca senti antes na vida. 
É como se eu precisasse não ser. 
Não estar. 
Não chorar. 
Não rir. 
Um tanto faz de coisas e sentimentos...
Uma sensação de entalo.
Uma viagem pra dentro com longas paradas.
Um medo de não saber voltar.
Foi lendo "A desumanização", tão denso quanto a vida, que voltei a olhar pra fora de mim. 
Hoje minha alma me acordou antes do amanhecer. 
Me chamou pra respirar. 
Me convidou para voltar a ver poesia na desordem da pia da cozinha.
Tirei da geladeira manteiga e ovos. Enquanto degelavam, eu lia na temperatura ambiente. 
Bati a mão o bolo de laranja sentindo seus aromas. 
Sentei ao lado do forno, livro na mão, e aguardei pacientemente o ponto. 
O livro falava de vida e morte. 
O bolo foi crescendo e dourando.
Lindo. 
Vocês precisavam ver. 
O processo de cozimento igual à vida.
Deixei esfriar. 
Tirei do forno antes do timer avisar, mas estava pronto. 
Fiz uma calda de laranja com seus gominhos e vesti o bolo, como quem envolve o corpo num echarpe de algodão.
Tudo é alquimia. 
Aos poucos fui chegando aqui. 
Viagem longa. Quando sentei pra tomar um café o sol ja entrava forte pela janela da sala. 
Os meus pés no chao de taco, fincados no hoje. 
Cheguei.

terça-feira, 7 de julho de 2020

colo do tempo




Sentei no colo do tempo, pedi um cafuné.
Acomodada nos seus joelhos.
Pedi pra ele contar histórias de mim, pra contar as verdades e as mentiras que eu acredito.
Como uma avó amorosa, que transforma pedaços de bolo em fábulas.
Que reforma vestidos antigos.
Que aconchega.
Eu estava aboletada.
Eu, minha criança e tantas outras faces, todas sentadas ali.
Sentei no colo desta deusa e pedi uma trégua.
Sentei no colo do tempo.
Pra sentir melhor as transformações.
Pra olhar pra dentro.
Pra acalentar a infância que nunca termina.
Sentei no colo do tempo, pedi pra me ninar.
Sentei no colo do tempo e finalmente conciliei o sono.
Sonhei que estava no seu seio.
Alimentei meus desejos. Afaguei meus sentidos.
Sentei no colo do tempo na esperança de parar.
Mas ele me levou consigo.

sábado, 6 de junho de 2020

Coração de poeta

Faz dias que as teclas me cobram um texto. Há dias que a cabeça rumina. São frases, são dores. Escrever sobre uma dor que é maior que todas. Escrever como mãe.... escrever como mulher. Escrever como militante... escrever como poeta.
Esta última é a alcunha mais difícil de carregar. De todas, a que não está estampada no meu corpo nem nos meus gestos. De todas, a que melhor se posiciona, de todas, a mais invisível e a mais contundente das minhas personas. De todas, a mais visceral.
A mãe sabe onde pisa. A mulher, aprende novos caminhos. A militante, traçou suas convicções. A poeta, transita entre todas. Se ressente, se emociona, se desmancha e se refaz. A poeta não tem estratégia, não tem certezas. É carne viva se construindo. Não tem métrica, nem rima. Uma rama que se esgueira por entre os espaços, que fixa suas raízes e se contorce.
Faz dias que meu sangue envenenado pelo ódio alheio, pelo descaso e pela injustiça segue por veias aleatórias, como quem vaga por uma rua escura numa cidade vazia.
Um poema atravessado pela dor do mundo. Uma semana esculpida pela violência, mapa astral tenebroso de um tempo.

#Justiçapormiguel

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Carta ao filho caçula, adulto II

Filho,

Amo tanto esta foto! 





Seu primeiro ano de vida, eu agarradinha em você, sua mãozinha acarinhando meu rosto... e os dois olhando pra frente. De testemunha, o infinito mar...
Vejo nós dois com expressões de alegria. Um relicário, esta imagem...
Hoje você faz 22 anos.
Que data rica em possibilidades, em caminhos e em vida!
Como a gente já tem história pra contar!
Diariamente construindo um laço cada vez mais firme, seguro pelos fios da confiança e do amor.
No seu nome, eu trouxe a luz. Luís.
É hora de estar ao seu lado, assistindo a sua caminhada.
A vida, meu filho, está nas suas mãos.
Persiga seus sonhos. Insista neles. Acredite, sempre. Sonhos são ótimos combustíveis. Mas ouça também suas intuições. Mantenha os olhos abertos.
Você tem a estrada iluminada pela frente. Com todas as lutas, conquistas e histórias a construir.
Cuide de quem você ama, mas sobretudo, cuide de você.
Eu estarei sempre no mesmo lugar. Braços abertos, mãos solícitas e um desejo imenso de contribuir e ser figurante no teu protagonismo.
A vida vai se insinuando. E vai ser lindo!
Feliz 22 anos e todos os que virão!
Beijo grande meu filho.E minha bênção.

domingo, 31 de maio de 2020

A primeira torta de limão


Não... Não é apenas uma torta de limão.
É a tentativa de unir na existência o doce e o amargo.
É o laboratório de novos sabores num tempo insosso.
É a construção de memórias de prazeres neste calendário aleatório. Todo dia quase tudo igual.
Lá no futuro, lembrarei do último domingo de maio. Na TV, protestos ao vivo no Brasil e nos Estados Unidos.
Na minha cozinha, bato a revolta com ovos e açúcar.
Até quando estaremos "harmonizando" as distâncias sociais?
Até quando o abismo vai ser a fronteira?
Exercito na cozinha a primeira torta de limão.
Nas ruas, polícia.
Nas ruas, cidadãos.
Apoiar a democracia me parece um ato subversivo.
Choro sentindo que ingatamos a marcha a ré...
A torta ficou mais doce que a vida... Queria ter imprimido nela um pouco do amargo...

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Café com pão


Começo meu texto pedindo desculpas. Por ser cada vez mais escriba da vida privada. Por utilizar minhas figuras de linguagem a partir das experiências do cotidiano. Pode parecer a você que quero banalizar o sentimento do mundo, quando faço analogias com o que se conversa na mesa da cozinha...Minha tradução da quarentena.
O borbulho do café subindo na cafeteira italiana  já gasta, antiga e cheia de histórias é o prólogo, quase sempre. A gente senta e divide. Cada vez a cafeteira fica menor... é esta a impressão. Repetimos a operação e enchemos mais uma vez as xícaras. Não são confissões. Não são confessionários. Às vezes é silêncio. Às vezes, cada um pega sua xícara e segue para o seu canto, seu mundo. O aroma perfuma a casa e a gente se irmana nestas ondas.
Há sempre a possibilidade de um café.
O confinamento nos traz um olhar pra dentro, mas tem a dor do mundo todinho morando na sala de estar. E conversamos sobre o que aparece na TV, sobre o mundo talvez melhor um dia. Sobre política. Falamos sobre o gato, o cachorro. Sobre a chuva e o calor. Sobre You tube, sobre o passado.... sobre acalmar a mente e esperar.
Olho pra um dos filhos. O mais velho. Já homem, na comissão de frente da pandemia. Mas vejo nos seus olhos o mesmo tom de vinte anos atrás. Lembrei hoje de quando ele chegava da escola e por ventura eu tinha mudado uma mesa de lugar. Parecia que não era mais a casa dele. Ele reclamava, ameaçava não almoçar. “Quero minha casa de volta”, ele bradava. Eu achava engraçado aquele menino de olhinhos de jaboticaba e cabelo de milho e frases tão firmes. Ele cruzava os braços e sentava amuado num canto da sala. Deve ser a lua em capricórnio, eu divagava. Hoje a expressão é a mesma. Não é mais a sala de casa o cenário. Ele está na UTI Covid. Num posto de saúde na Zona Norte. Sim, filho... tudo está fora do lugar. Desta vez é você quem precisa ajudar a colocar tudo em ordem.
O mais novo, olhos grandes e cabeça no mundo. Lembro que ainda recém nascido dormia melhor quando estava comigo. Nasceu no semestre da minha formatura na UFPE. Fiz a
maioria dos trabalhos finais com ele junto. Editei vídeo, escrevi relatório como uma mãe canguru. Ele está confinado cem por cento comigo. Conversas, xícaras de chá, lavamos louça e cuidamos do lixo. De quando em vez deitamos no tapete da sala e assistimos a programas policiais. Preparamos o ambiente. Almoçamos no chão mesmo. Varamos às vezes a madrugada. Engraçado como a gente tem a essência constante. Quando ele tinha dois anos, fiz uma cirurgia. Ele colocou um monte de brinquedos no meu quarto e ficou ali o tempo da recuperação. Dias e dias. Ontem me deu uma dor nas costas – do peso do tempo que carregamos – e ele repetiu o gesto. Ficou junto, dormiu na rede do quarto. Tô aqui, mãe.
Eu, neste novo ordenamento, me encontro mais aberta para percebê-los. E soltá-los. Perceber os movimentos. Para onde apontam as vidas adultas que nascem em cada um.
Já são dois meses. O compasso deste tempo infinito. O compasso da vida ritmada. A viagem pra dentro.
As lições de privilégio e desamparo na vida afora. Noves fora... estamos em barcos diferentes nas mesmas águas.
Na mesa da sala aprendo a fazer pão. Minha energia toda na sova da massa. O tempo da fermentação. O ponto certo do forno. Um alimento sagrado que serve de repertório de amor. A mente conectada com esta tarefa ancestral.
Esperamos o tempo de abraçar e voltar a sentir o vento no rosto. Enquanto a massa descansa, passo mais um café

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...