terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Curando ao sol

É verão. E é verão pra todo mundo. Verão de o suor escorrer, verão de manga no pé e caju perfumando os litorais. Verão de sol alto às 17h. Um sol pra cada pessoa, dizem por aí. Sentir a intensidade da estação, se abandonar numa piscina de água salgada na beira do mar. Respeitar o fluir das marés involuntárias. Abraçar o ciclo, brincar com o vento. O sal que limpa as quizilas. O sol que aquece e tinge a pele. São dias inteiros de ritmo frouxo, cafés da manhã politicamente incorretos, caipirinhas diárias, brindes abençoados. Almoços intermináveis de brisa. São conversas espichadas pelo prazer do riso. São longas conjecturas sobre o horário melhor para aquele mergulho… sobre a hora exata do por do sol. Na imensidão do azul alagoano, o relógio vira acessório dispensável. Pra dentro, o verão vai invadindo. Expurgando. Quarando. Secando os tempos molhados. Pra dentro, uma alegria tímida se insinua. Um florescer. Colher os frutos plantados. Desejo o próximo barco. A onda seguinte que vem firme e quebra na beira em instantes. A maré vindoura. O picolé de coco, o peixe fresquinho, o caldinho de marisco. Pimenta e limão. O diário de uma viagem subjetiva. Dias de paz e sol. De luz e brilho. Sonhos dos meus dias de verão.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Algoritmo

Não cheguei até aqui para ser muleta.
Não andei tão longe, atravessando tantos desertos pra ser um algoritmo. 
Eu quero mesmo estar viva. Quero mesmo sentir o corpo pulsar e a existência fluir.
Não cheguei até aqui para viver de fantasia.
Os sonhos que constroem são meus guias. 
Mas os devaneios, desejo bons ventos que os levem.
Não cheguei até aqui, madura e adulta, para ser uma foto num aplicativo.
Ou algumas mensagens diárias que pseudo alimentam a alma.
Não cheguei até aqui sem dar as mãos. 
É preciso coragem e verdade 
É preciso bravura.
Eu cheguei até aqui. 

terça-feira, 26 de novembro de 2019

uma saudade estranha




Às vezes eu sinto saudade de umas coisas estranhas...

Saudade de um vestido preto de linho, por exemplo. Tipo tubinho, na altura do joelho, comprado pela minha tia em um brechó nos arrabaldes de Paris e presenteado a mim. Ele, já usado, tinha uma fenda na altura da coxa esquerda, não muito profunda, e um babadinho no decote em V. O babadinho era de uma seda bem leve, preta e branca, lembrava o desenho de uma zebra. Não sei porque, mas hoje acordei e pensei neste vestido. Um presente... Não sei quando me desfiz dele. Não lembro de jeito nenhum porque passei pra frente. Era aquela peça coringa do guarda-roupa sabe?
Pois é... às vezes eu sinto saudade de coisas estranhas.
Saudade de vestido, de picolé de pitanga, de cheiro de melancia na praia ( tinha gente que dizia que era tubarão), de paisagem, de sensações.
Feito ontem, por exemplo... Um dia comum, uma segunda-feira plural. Rotina de segunda, almoço de segunda. E eu, no final do dia, decidi pagar umas contas. Abro o celular e começo a acionar o leitor do código de barras. Nada nostálgico. Na lista do que fazer, a transferência da mesada do filho mais velho. Como sempre, envio pra ele o comprovante. E ele me responde:
“É, mãe... esta é a última mesada que tu me dá.."
Oxe, como assim????
Eu ainda falei qualquer coisa do tipo: “É, filho, mas estarei sempre por aqui pra o que você precisar”. Mãe é mãe... nunca quer deixar de ser necessária.
Mas é verdade. Esta é a última mesada. E eu vou sentir saudade.
Deste vínculo, deste motivo, deste pretexto.
Uma saudade estranha. A mais estranha talvez das tantas que coleciono.
No próximo mês, ele será médico. Tenho a alegria de ter vivido lado a lado todas as etapas do curso. Desde o vestibular. Desde as primeiras provas, os plantões, o intercâmbio (quase morri de saudade), cada pequena etapa que consolidou este profissional comprometido que já vejo emergir dos olhos do meu menino.
E aí, diante da saudade da mesada, a saudade do vestido vira até uma saudade normal....

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Entre a saudade e a união

Despedida na Rua da Saudade.
A paralela é a União.
Abraço na encruzilhada da vida,
Madrugada de testemunha.
Despedida que não cabe no abraço.
Que não se importa com o perdão.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A pedra do teu anel




Vale pelo transe, vale pelo corpo que vira condutor de energia. Quanto maior é a corrente, maior é a experiência. Você vai rodando, de preferência, mãos dadas com quem não conhece. E a onda vai aumentando. Maré cheia de ritmo, imitando as ondas do mar. Somente quem é praieiro sente o cheiro da maresia onde quer que dance uma ciranda. Cuida que o pé esquerdo bata o tempo mais forte. Cuida que a tua mão suba e desça. HEYYYYYY.... Heyyyyyy
Eu danço ciranda desde os cinco anos. Era vizinha de dona Duda, aquela que aparecia nas propagandas das Casas José Araújo... uma música linda que dizia assim: “Vivemos nesta terra forte, neste sol do norte e luz de amor... sorrindo vamos para praia, de maiô, de saia, o verão chegou”....Eu parava tudo o que estava fazendo quando ouvia a música que vinha da TV. Raros os momentos de TV ligada na infância. A gente ligava o transformador primeiro. Depois, a TV demorava pra abrir a imagem. Mudar de canal era girando um botão que fazia um barulho danado: TEC,TEC,TEC......
Meados dos anos 1970... não tinha muito a se fazer em Pau Amarelo. A gente esperava o verão chegar pros veranistas animarem um pouco mais. Na safra, a gente colhia caju das casas que ainda não estavam ocupadas. Depois, secava e assava castanha numas latas de doce. Um bando de menino e menina acocorado em torno do fogareiro ao lado da casa do Praciano, no terreno baldio. Minhas blusas ficavam com a marca dos cajus. Era nódoa e não existia vanish.
De noite às vezes tinha ciranda lá em Dona Duda, aquela do comercial. De dia, Dona Duda vendia peixe. De noite, cantava ciranda. Gostava de entrar na roda em qualquer lugar, o povo soltava as mãos pra ampliar a roda, pra entrar mais gente. Era o ápice da comunhão. E rodava devagar... HEYYYYYY... Heyyyyy. Dançava menino, menina, homem, mulher. Pescador e comprador de peixe.
Eu tinha o maior orgulho de dizer que eu morava “na primeira rua à esquerda depois da ciranda de Dona Duda”. Da minha casa, quando ainda não existiam os prédios, a gente ouvia o toque da ciranda. Eu ficava num pé e noutro. Decorava as toadas. Quando eu chegava, aquele belisco de gente, Dona Duda vinha me abraçar. “A filha de seu Maurício mais Dona Maria”, ela dizia. E eu tratava de me meter logo na roda. Heyyyyyy... Heyyyyyy
De vez em quando, a ciranda virava coco de roda. Vixe Maria que delícia!!! O samba da beira do mar. Me ensinaram a imbigada, me ensinaram a segurar na saia e girar. Arrastando a chinela no chão pra dar um ar de faceirice. Era peixe de coco, cocada de sobremesa. Soprava o vento, descia o suor.
Talvez por isso ainda hoje das poucas coisas que não consigo resistir são o coco e a ciranda. Me meto na roda e deixo o chacoalhar me levar. O pé firme no chão e o tronco balança que nem coqueiro de um lado pro outro, nesse leva e traz.
Me pego sorrindo. Me pego cantando até as músicas que não conheço, de olhos fechados. A graça é essa. Se aprende assim também. Me pego na mão da menina de cinco anos.
Pois... este texto é um agradecimento. À Dona Duda, que animava as noites na beira do mar. À Lia, que me encantava quando ia às vezes visitar o Janga... E à Yane Mendes, que com sua lente captou meu momento de deleite, de desprendimento, de infância. O olhar da artista não me fotografou. Foi mais profundo: registrou o momento em que a menina saiu da toca e se revelou. Esta ciranda não é minha só. Ela é de todos nós. Ela é de todas nós!

domingo, 1 de setembro de 2019

Tem uma palavra que tudo resume,

Tudo explica e preenche os espaços.

Uma palavra que ilustra e liga.

Religa.

Existem laços que são pra sempre. Que bom que são laços! Frágeis, passíveis de fazer e refazer.

Nosso sorriso comunga, os olhares entregam, a palavra fica quase na cara, escrita.

Palavra curta, pequena, simples.

Irmã.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

segunda-feira em duas versões






Acordei numa segunda-feira vazia.
Acordei mais tarde do que devia. Doía o corpo, uma morrinha imensa...
Acordei com o pensamento azucrinando, mais que o habitual. Cabeça funcionando e eu de olhos fechados ainda.
Com custo, levantei, dei umas voltas no apartamento a esmo, sem saber direito o que tava fazendo.
No relógio, 7h12.
Preciso focar. Preciso acordar.
Coloquei comida pra Bangu.
Lavei a cafeteira italiana que ainda tinha o pó do café passado ontem...
Tava fazendo o café quando o gás acabou. Olhei pro quadro na parede da cozinha e ri...
a vida imitando a arte...


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A segunda chegou com ares de sexta. Veio cansada, amuada. Lenta, remosa.
Abri o olho às 7h12, sem desejo. 
O corpo pedia mais sono. Ressaca de uma farra que não aconteceu. Sensação de gripe. 
Zanzei pelo apartamento ao acaso. Olhei a vista pro Capibaribe, tantos azuis! Vi as plantas, o quadro novo na parede.
Bangu reclamou e eu coloquei uma comidinha pra ele. 
Pensei: um café vai bem. A cafeteira tinha ainda o pó da véspera. 
Acendi o fogo, enquanto a cabeça dizia várias coisas a mim mesma. Uma profusão, que contrastava com minha lerdeza nada comum. 
Quando virei as costas, ouvi o sopro seco que veio do fogão. 
Olhei pro quadro na parede da cozinha e ri... a vida imitando a arte...
Era o prenúncio de um dia pra se esquecer. 
Deu preguiça de trocar o bujão. Tomei café da manhã no bar da esquina. 
Acabou o gás.

(A obra na parede é de Thiago West)

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...