quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Não quero rejuvenescer!


Hoje alguém me receitou um complexo vitamínico. Disse que rejuvenesce.
Disse que combate os radicais livres e que eu tomasse combinando com vitamina C.
Aí fiquei pensando que não quero isso pra mim.
Não quero rejuvenescer.
Não quero a ansiedade da juventude.
Não quero o imediatismo dessa época.
Gosto de mim mais madura, mais inteira.
Claro, quero estar bonita.
Mas eis a grande pulha: ficar mais bonita é REJUVENESCER!!!!
Rejuvenescer é elogio. Ficar velha é insulto.
Eu quero mais é viver. Envelhecer bem, saudável e bonita.
Mas não quero rejuvenescer, correr atrás do tempo perdido (que, definitivamente, eu não perdi).
Vivi cada segundinho de cada momento ínfimo.
Se tem uma coisa que a maturidade não matou em mim e que eu faço questão de cultivar é a minha intensidade.
Penso como é difícil envelhecer numa cultura que só pensa em rejuvenescer.
E não é um pensamento conclusivo. Acaba assim mesmo...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

correndo da morte


Quanto mais me deparo com a morte, mais pressinto a urgência de viver.
E viver mais é a solução.
Correr atrás do esperado, amar o amado, investir no impossível.
Fazer um curso de gastronomia, voltar a tocar piano, acreditar que tudo posso. 
Que sou forte o suficiente pra viver.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Mandioca Brava






Eu sou uma pessoa entre Olinda e Recife. Nasci no Recife. Vivi em Olinda. Casei no Recife. Me apaixonei em Olinda.Tive meus filhos no Recife. Mostrei a eles o carnaval de Olinda. Fiz jornalismo no Recife. Meu primeiro emprego foi em Olinda. Recifense de documento. Olindense de coração. Amo as duas.
A imagem que unia as duas cidades na minha meninice era a torre da fábrica. Vinha de Recife, sabia que estava chegando em Olinda. Saía de Olinda, era sinal que Recife tava me abraçando.
Um tempo desses acreditei que poderia trabalhar no meio do caminho. Fazer exatamente o que sempre sonhei no lugar que mais gostava de ver das duas cidades. Sonhei.
O prédio abandonado seria revitalizado. O prédio e as pessoas. E eu, personagem desta história. Fiz a loucura de acreditar. Pedi demissão do emprego em Olinda pra trabalhar entre as duas cidades. O sonho era uma brincadeira. Um engodo.
Hoje outras paisagens adornam aquela região e o meu prédio está aos pedaços. Descaso com a história das cidades.Descaso com as pessoas que acreditaram.
Coloco no Google o nome da fábrica. As referências vão para um shopping metálico e espelhado que fica à sua frente e tem o mesmo nome.
Lembra-se imediatamente do templo de compras. O templo da cultura foi solenemente abandonado. Está fazendo 10 anos que esta fábula se fez. E eu insisto em lembrar a mim mesma e aos outros.
Ainda no Google, fiquei sabendo que tacaruna pode ser proveniente de "takaré" + "una" - tacaruna. Etmologicamente tacaré significa "haste curva" e também a designação de um
tipo de mandioca (talvez uma mandioca curva). Mandioca brava.
Esqueceram o Tupi... e a fábrica tacaruna não é mais cultural. Não é mais fábrica. É uma ruína.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Receita







Moqueca de peixe à Flor da Mata

Ingredientes:

Na véspera:
-Uma rede (pra balançar)
- Um beija flor verde (pra olhar deitado na rede)
- chuva, muita chuva (pra não precisar fazer nadinha mesmo)
-Uma pitangueira carregada de frutos e com alguns já beliscados pelo beija flor.
No dia:
- Peixe de sua preferência
- Molho de tomate caseiro
- Limão
- Sal a gosto
- Gengibre
Modo de fazer: 
Não cozinhe nada muito rebuscado no primeiro dia. Aproveite pra chegar. Deite na rede, olhe o beija flor, o ninho que está sendo abandonado, as flores que nasceram. Ouça o pingar da chuva, durma e acorde sem saber que horas são. E aproveite pra sentir o perfume da pitangueira.
Reserve.
No dia seguinte o sol chegou fraquinho. Acorde umas 9h, deite na rede de novo. Mas antes, coloque o seu peixe de molho no limão. Esqueça.
Dê uma volta pelo Flor da Mata. Molhe os pés na água, suje o rosto com urucum, contemple as flores, caminhe pelas trilhas. Não esqueça de olhar para as teias de aranha, para os ninhos...
Ao voltar para casa, coloque uma música legal. Escolha a sua panela de barro preferida e coloque no fogo brando para esquentar. Depois acrescente azeite e cebola cortada.
Espere a cebola ficar quase transparente e coloque as postas de peixe bem bem bem acomodadinhas. Aí vá ao jardim e colha umas pitangas bem roxas. Assim mesmo, na hora. Separe a polpa do caroço e coloque a carne de umas 15, talvez (seu sentimento vai mostrar quando já estiver bom). Deixe umas 5 ou 6 bem lindas pra decorar o prato.
E o fogo brando.
Aí, na sequência, acrescente o molho de tomate, mais cebola, sal e pimenta a gosto. Se gostar, gengibre ralado.
Tampe a panela e, quando levantar a fervura forte, apague e deixe terminar de cozinhar somente na quentura da panela.
A esta altura, lá fora, o sol a pino, sugiro o almoço na varanda. Meu lugar é sempre de frente pras helicônias. Às vezes durante o almoço o beija flor vem me visitar. Os maribondos também dão o ar da graça.
Almoce este manjar como se fosse uma comunhão com o seu entorno. Casa tem que fazer fumaça, ter cheiro de comida e sabor de acolhimento.
Pra regar esta iguaria, conversa boa, com gente que se ama. Este ingrediente é fundamental.
Deixe a tarde cair na grandeza infinita do cafezinho, do biscoitinho, do docinho, do chazinho, do licor.
Volte à rede. O sol se põe. Se der sorte, vai ter lua cheia. É bom manter seu vinho na geladeira.
E não esqueça jamais de registrar estes momentos com a máquina fotográfica da retina.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Oração




Não pise no meu calo, não bote o dedo na ferida,não azucrine o meu juízo,não fique falando demais.
Minha alegria é minha, minha alucinação também.
Paixões e encantamentos são individuais. 
Não tente ser eu, nem que eu seja você. Não quero você muito perto. A porta está fechada. Não bata e não entre.
Não amo você, nem mesmo sua amizade eu quero. Não me venha com sentimento cristão. Tenho pena dele. Não me ronde, e não adianta me sufocar..
Seu olho de seca pimenta não vai pegar. Faço um molho doce com o seu ardor.
Me agüente. Me suporte. Não me olhe. Feche a cara.
Vai ser um favor, uma bênção.
Um mantra,  o seu silêncio.
Amém.

domingo, 20 de maio de 2012

Ninguém podia entrar nela não


Quero ocupar o que é meu. Quero invadir minha propriedade privada.
Viver no lugar que eu comprei, reformei, pintei, sonhei.
Só que a cada dia fica mais difícil.
Um dia fui vítima de um assalto. Na delegacia levei uma bronca.
“Também, como é que se compra uma casa ali?”
Pronto.
Tinha um ladrão no meio do caminho. No meio do caminho, tinha um ladrão.
Ou será que neste caso a pedra sou eu?
Já cansei de passar de carro, a pé, de noite, de dia, feriado, dia santo na frente da casa.
De noite sonho com ela.
O mezanino de madeira da melhor qualidade que a gente construiu pra ser o ateliê. Na seqüência dele vem uma varanda.
Lá atrás me espera o Pau Brasil que eu plantei. Já florou, até.
Mas não se mora lá.
Sonho onde estará a mesa do jantar, em tomar café da manhã no alpendre.
Tem gente que me olha atravessado. Nem precisa falar o que pensa. Já sei, já sei.
Endoidei.
Devem pensar igual ao tal policial....
Eu na verdade acredito na transformação.
Da rua, das pessoas. Mas não na transformação ingênua, infantil.
Hoje acho que a única saída para o centro do Recife são as pessoas. Por que se for depender do tal Poder Público, o casario vai apodrecer. E as pessoas vão virar lixo.
Outro dia falei pra uma amiga e quase fui linchada.
É que sei que é relevante fazer um movimento, chamar a imprensa, mobilizar toda a população. Mas aí, depois, cada um bota sua violinha no saco e volta pro bairro de classe média alta.
Com sua delegacia. Seu elevador, no seu carro com ar condicionado, de preferência com os vidros fechados.
E não me isento de nada. Hoje faço exatamente isso. Moro em um desses bairros de classe média também. Moro. Mas não gostaria de morar.
Me agonia o barulho, os prédios cada vez mais altos, todos com sauna, piscina, espaço gourmet, salão de festas, porteiro eletrônico e quartos minúsculos, banheiros reversíveis. Não gosto da moradia funcional.
Me agradam o pé direito alto, as janelas grandes, a generosidade das varandas das casas antigas.
Aliás, tenho a mania de andar a pé. Conheço bem as calçadas, os esgotos e os trombadinhas do meu bairro.
Andei levando umas carreiras de uns meninos que usam crack no caminho do meu trabalho.
Se o Recife não tomar conta do seu Marco Zero, da sua Boa Vista, do São José, Santo Amaro.... Sei lá... acho que nem os marginais vão quere ficar.
Escrever sobre isso é tentar um diálogo.
Sei bem que meus argumentos são como a música do vento. 
Falo de um sonho. Falo pra tomar coragem.
Quero agora conhecer o universo da Glória.
Número 310.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A parede



Escolhi uma parede de fotos antigas, com uma cor rosinha no fundo.

Escolhi a primeira cristaleira que eu comprei na vida, na rua da Conceição - e finjo só pra mim que é herança - pra guardar minhas xicrinhas desgarradas e antigas.

Uns santos, umas fotos avulsas, o casamento da sogra, a foto dos avós.

No fundo, no espelho, dá pra ver meu vestido verde esperança que eu escolhi pra usar no dia das mães este ano. O sofá azul natiê me caiu muito bem também. Compôs, diriam os diretores de arte.

Compôs, mas não reverberou. O dia acabou no meio, abafado pela locução do futebol.

Ninguém viu o vestido. Ninguém, não. somente duas pessoas me interessavam naquele dia. As duas que me fazem mãe.

Mas a paixão falou mais alto. Eles tentaram esconder, só que sou mais experiente pelo menos. Paixão não se esconde, crianças. E eu, mãe de primeira viagem nos assuntos de filhos adultos, me perdi no meio. No meio do almoço, no meio do dia, no meio do meu dia.

Fui ficando pionga, fui me escondendo atrás da cristaleira. Quem dera o espelho me sugasse no seu mistério.

Fiquei eu e a parede de fotos antigas. A casa vazia, silenciosa em pleno domingo de tarde.

Os rapazes ruidosos gritavam em outros lugares.

Pois bem, eu e a parede.

Um dia eu estarei ali, pendurada na parede. Só saudade.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...