terça-feira, 2 de outubro de 2012

uma história que não é a minha







Final de semana era sagrado. Roupa separada, chegava cedinho, adorava sentir o cheiro da sala. E o silêncio da plateia que ia sendo abafado pelas vozes que chegavam se esforçando pra falar manso.
Sentava na poltrona da segunda fila. A bilheteira já me conhecia. A camareira também.
Pudera! Eu cheguei a assistir o mesmo espetáculo umas 20 vezes ou mais. Teve uma vez que faltou uma atriz e eu substituí. Foi aí que comecei a representar e entendi que aquela paixão – uma das tantas da vida – não era tão simples assim.
Mas a história dessa vez não é minha, nem do teatro.
Quero falar de uma pessoa que eu não sei o nome. Nunca soube. Mas também nunca esqueci seu rosto. Isso é outra coisa curiosa. Quem me conhece sabe que sou meio displicente. Esqueço nomes, fatos, esqueço as fisionomias das pessoas. Não lembro da camareira nem da bilheteira.
Mas ele não. Ele era quase como parte do ritual de ir ao teatro. Ela o vendedor de doces e pipoca.  Ele conhecia os atores pelo nome e, obviamente, me conhecia também.
Para ele eu era a moça da “salgada, né ? E com muita manteiga”. Era. Ele não sabia meu nome. Pouco importa.
Com o tempo eu fui deixando de ir ao teatro. Era piano, era faculdade, eram os filhos... Mas, sempre que aparecia, ele estava por lá. “Oi, tudo bem? O de sempre?”
Era confortante. Meu filhos chegaram a comprar chocolate, chiclete, drops a ele. Eu tinha a doce intenção de transferir aquele meu laço.
Depois, muito depois, compramos uma casa no centro do Recife. Descobri que o moço do" bom bom" morava lá. Alugava um quarto numa pensão. Pronto. Deixou de ser fantasia. Quando a gente descobre onde mora a fábula, ela deixa de ser.
Falei com ele algumas vezes, mas fora do contexto, quem não me reconhecia era ele.
Hoje moro na casa. Faz um mês.
Ando muito por ali, mas ainda não tinha visto o meu personagem. Perguntei a um e a outro e tive muxoxos como resposta. Pensei: já se foi.
Hoje cedinho, comecei a friviar dentro de casa. Mexi aqui e ali. Tava faltando queijo. Saí pra comprar no mercado público. Eram 6h30 da matina. Na ida, ele estava enrolando um cigarro grosso. Não olhou pra mim.
Na volta, tava perfumando a rua com a fumaça. Sentado na calçada do convento da Glória. Era insenso.
Não olhei pra ele.
Abri a porta do meu mundo, que nem acontecia nos contos que vi representados: uma casinha de porta e janela que, quando a gente abre, dentro tem um palácio.
Não destituí meu personagem. Descobri que ele cabe em dois cenários.
Mas aí, já é outra história...


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A vida real em sete cenas fictícias




A vida real não tem tanta graça assim. Uma pitada de rotina aqui, lascas de melancolia ali, fatias de felicidade, que a gente consome com reserva. Pode ser em conserva, pra demorar mais...
Lá em casa não gosto de consumir conservas. Tudo vai fresquinho mesmo. As dores, cruas. As felicidades, colhidas na hora. As tristezas, mal passadas.
Acredito nisso. E pensei que a minha vida era assim. Até que ontem, deitada no sofá da sala, comecei a ouvir um rumor. Na TV, Tapas e Beijos. Do lado de fora, também.
Eu passei a não conseguir mais ouvir a televisão (que, aliás, mostrava dois amigos indo às vias de fato) pra só ouvir o drama através da porta. Era Nelson Rodrigues misturado com Ariano Suassuna, pincelado com requintes de Clarice Lispector... Quer saber? Era vida real.
Desliguei a TV.
Uma puta. Um garanhão. Um marido corno. Um frango. Uma mulher traída.
Cena de abertura:
A mulher marca um encontro com o amante enquanto o marido trabalha. Ele chega mas, nem tão discreto assim, chama a atenção do vizinho gay que é apaixonado por ele. De vingança, o vizinho vai direto falar com a esposa do Ricardão. Corta.
Cena dois:
A mulher traída, ao invés de ir “dar o flagrante”, liga pro marido da outra. Ele, que trabalha em Cavaleiro, pega três ônibus pra chegar em casa e vem inflamado. Invade a casa do cabra safado do amante e desce o pau. Corta. A cara dele.
Cena três:
A esposa do amante vai bater na casa da dita cuja. Arranca a distinta pelos cabelos e dá-lhe uma sova ali mesmo, no meio da rua. Junta gente. A gritaria é imensa. Alguém joga uma pedra que espatifa uma vidraça.
Cena quatro:
A polícia chega. E o povo começa a gritar: Cardinot!Cardinot! Tenho vontade de rir, mas a coisa é séria. Não dá pra zoar. O tal do delator, motivador de tudo, quer agora descobrir quem chamou a polícia. Os ânimos se acalmam, mas vai o lote todinho pra delegacia.
Cena cinco:
Cinco da manhã. Levanto e vou ao quintal… O Ricardão chora copiosamente. É um homem imenso. Ouço seu lamento do outro lado do muro. Uma voz de mulher o consola.
Cena seis:
O dia amanhece. Vou comprar o pão. Gente, gente, gente! O sol fica quente. O moço se queixa na calçada. Diz que perdeu a cabeça, que nunca tinha sido fichado na delegacia.
Cena sete:
Volto pra minha vida, pro meu mundinho. Mas não ficou igual não. Descobri que a vida pode ser ainda mais visceral, mais intensa, mais perigosa, mais aventureira. E quer saber?
Prefiro a minha mesmo. Justinho assim. Cheiro de vida doce, de alma lavada, de trabalho realizado. Rotina de rotina. Fico segura no meu programa diário.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um caso à parte


A minha melancolia não interessa a ninguém. 
E nem deveria interessar a mim mesma. 
A minha melancolia é um ser. E faz parte de mim. 
Assim como quem carrega um feto que não tem parto, assim como quem tem um sinal, um tumor, uma hérnia.
Ela se alimenta do que não gosto, cresce nos momentos mais frágeis.
Engorda com minhas dores.
Minha melancolia fala. É uma voz monocórdia, sem flexões nem melodia. Grave, sucinta.
Não se diverte. Não ama. Não é flexível.
Mas é minha. E eu a carrego no peito.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Não quero rejuvenescer!


Hoje alguém me receitou um complexo vitamínico. Disse que rejuvenesce.
Disse que combate os radicais livres e que eu tomasse combinando com vitamina C.
Aí fiquei pensando que não quero isso pra mim.
Não quero rejuvenescer.
Não quero a ansiedade da juventude.
Não quero o imediatismo dessa época.
Gosto de mim mais madura, mais inteira.
Claro, quero estar bonita.
Mas eis a grande pulha: ficar mais bonita é REJUVENESCER!!!!
Rejuvenescer é elogio. Ficar velha é insulto.
Eu quero mais é viver. Envelhecer bem, saudável e bonita.
Mas não quero rejuvenescer, correr atrás do tempo perdido (que, definitivamente, eu não perdi).
Vivi cada segundinho de cada momento ínfimo.
Se tem uma coisa que a maturidade não matou em mim e que eu faço questão de cultivar é a minha intensidade.
Penso como é difícil envelhecer numa cultura que só pensa em rejuvenescer.
E não é um pensamento conclusivo. Acaba assim mesmo...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

correndo da morte


Quanto mais me deparo com a morte, mais pressinto a urgência de viver.
E viver mais é a solução.
Correr atrás do esperado, amar o amado, investir no impossível.
Fazer um curso de gastronomia, voltar a tocar piano, acreditar que tudo posso. 
Que sou forte o suficiente pra viver.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Mandioca Brava






Eu sou uma pessoa entre Olinda e Recife. Nasci no Recife. Vivi em Olinda. Casei no Recife. Me apaixonei em Olinda.Tive meus filhos no Recife. Mostrei a eles o carnaval de Olinda. Fiz jornalismo no Recife. Meu primeiro emprego foi em Olinda. Recifense de documento. Olindense de coração. Amo as duas.
A imagem que unia as duas cidades na minha meninice era a torre da fábrica. Vinha de Recife, sabia que estava chegando em Olinda. Saía de Olinda, era sinal que Recife tava me abraçando.
Um tempo desses acreditei que poderia trabalhar no meio do caminho. Fazer exatamente o que sempre sonhei no lugar que mais gostava de ver das duas cidades. Sonhei.
O prédio abandonado seria revitalizado. O prédio e as pessoas. E eu, personagem desta história. Fiz a loucura de acreditar. Pedi demissão do emprego em Olinda pra trabalhar entre as duas cidades. O sonho era uma brincadeira. Um engodo.
Hoje outras paisagens adornam aquela região e o meu prédio está aos pedaços. Descaso com a história das cidades.Descaso com as pessoas que acreditaram.
Coloco no Google o nome da fábrica. As referências vão para um shopping metálico e espelhado que fica à sua frente e tem o mesmo nome.
Lembra-se imediatamente do templo de compras. O templo da cultura foi solenemente abandonado. Está fazendo 10 anos que esta fábula se fez. E eu insisto em lembrar a mim mesma e aos outros.
Ainda no Google, fiquei sabendo que tacaruna pode ser proveniente de "takaré" + "una" - tacaruna. Etmologicamente tacaré significa "haste curva" e também a designação de um
tipo de mandioca (talvez uma mandioca curva). Mandioca brava.
Esqueceram o Tupi... e a fábrica tacaruna não é mais cultural. Não é mais fábrica. É uma ruína.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Receita







Moqueca de peixe à Flor da Mata

Ingredientes:

Na véspera:
-Uma rede (pra balançar)
- Um beija flor verde (pra olhar deitado na rede)
- chuva, muita chuva (pra não precisar fazer nadinha mesmo)
-Uma pitangueira carregada de frutos e com alguns já beliscados pelo beija flor.
No dia:
- Peixe de sua preferência
- Molho de tomate caseiro
- Limão
- Sal a gosto
- Gengibre
Modo de fazer: 
Não cozinhe nada muito rebuscado no primeiro dia. Aproveite pra chegar. Deite na rede, olhe o beija flor, o ninho que está sendo abandonado, as flores que nasceram. Ouça o pingar da chuva, durma e acorde sem saber que horas são. E aproveite pra sentir o perfume da pitangueira.
Reserve.
No dia seguinte o sol chegou fraquinho. Acorde umas 9h, deite na rede de novo. Mas antes, coloque o seu peixe de molho no limão. Esqueça.
Dê uma volta pelo Flor da Mata. Molhe os pés na água, suje o rosto com urucum, contemple as flores, caminhe pelas trilhas. Não esqueça de olhar para as teias de aranha, para os ninhos...
Ao voltar para casa, coloque uma música legal. Escolha a sua panela de barro preferida e coloque no fogo brando para esquentar. Depois acrescente azeite e cebola cortada.
Espere a cebola ficar quase transparente e coloque as postas de peixe bem bem bem acomodadinhas. Aí vá ao jardim e colha umas pitangas bem roxas. Assim mesmo, na hora. Separe a polpa do caroço e coloque a carne de umas 15, talvez (seu sentimento vai mostrar quando já estiver bom). Deixe umas 5 ou 6 bem lindas pra decorar o prato.
E o fogo brando.
Aí, na sequência, acrescente o molho de tomate, mais cebola, sal e pimenta a gosto. Se gostar, gengibre ralado.
Tampe a panela e, quando levantar a fervura forte, apague e deixe terminar de cozinhar somente na quentura da panela.
A esta altura, lá fora, o sol a pino, sugiro o almoço na varanda. Meu lugar é sempre de frente pras helicônias. Às vezes durante o almoço o beija flor vem me visitar. Os maribondos também dão o ar da graça.
Almoce este manjar como se fosse uma comunhão com o seu entorno. Casa tem que fazer fumaça, ter cheiro de comida e sabor de acolhimento.
Pra regar esta iguaria, conversa boa, com gente que se ama. Este ingrediente é fundamental.
Deixe a tarde cair na grandeza infinita do cafezinho, do biscoitinho, do docinho, do chazinho, do licor.
Volte à rede. O sol se põe. Se der sorte, vai ter lua cheia. É bom manter seu vinho na geladeira.
E não esqueça jamais de registrar estes momentos com a máquina fotográfica da retina.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...