segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A verdade é revolucionária.




Estou no sexto andar de um prédio, numa ilha. 
De buzinas. De Sirenes. De stresses.
Estou na sala 601 de um prédio sem charme. 
Estou refugiada.
Não me agradam os móveis puídos, não me apetecem as persianas, ou a paisagem volante de mosaicos vermelhos e brancos que piscam conforme os freios.
Mas muito me agrada a solidão. 
Que arruma as gavetas dos sentimentos, que ordena as dores.
Hoje foi um dia cheio. Um parto. Pari um filho hoje.
Sentada aqui, sozinha neste pardieiro, sinto minhas forças voltando.
E me vem o amor que é o amor de mãe. A verdade que é ser mãe. A revolução.
Sigo o olhar sobre meu filho e desejo um abraço perpétuo. Um afago obedece a alma.
Hoje eu pari meu filho de 15 anos. Pari para a vida.
Foi tão difícil arrancar este menino com o olhar naif de dentro de mim!
Foi tão intenso admitir que ele não cabe mais no meu ventre, que ele cresceu!
E, no entanto, sinto o quanto fizemos bem um ao outro.
O telefone toca e é ele. "Vou fazer diferente agora”, confessa.
Vai, sei que vai. Porque hoje ele abriu os olhos. Com minhas palavras arranquei sua venda. Quem sabe, eu mesma a mantinha ali.
Sua voz cambaleante parece mais séria. Algo de sua inocência se foi desde a manhã.
Dos tantos partos, este foi dos mais dolorosos.
O menino vinha ao meu lado simbiótico, enlaçado. Teimava em não crescer. 
Partiu.
Daqui de cima da tal sala comercial, esperei todos irem embora para sentir minha contração de expulsão. 
Expeli um humanista. Se índigo, se mestre, se médium...
Foi a melhor parte de mim.
E do alto do sexto andar, minha vida continua. Escrevo, falo, atendo ao telefone.
Era ele.
Confirmando que a partir de agora está mais inteiro do que nunca.
Vou esperar o rush passar e voltar pra casa. 

terça-feira, 16 de julho de 2013

dos meus sonhos de menina

Seis da manhã. 
Tocam os sinos da igreja de Santa Cruz. Replicam-se na igreja de São Gonçalo. O convento da Glória acorda seus carrilhões. A Matriz da Imperatriz alardeia.
Estou no coração da cidade.
Cada vez mais, no seu coração, nas suas tripas, no seu miúdo.
Agradeço ao Recife por me mostrar o Coque, por sentir o cheio azedo dos seus canais, por me agraciar com a paisagem das palafitas a partir da Ponte Velha. 
Contraste do Mangue provedor com o cais excludente.
Agradeço porque assim, amo mais. 
Sou grata pela paisagem do porto no Marco Zero. Pelas colinas da Marim que revelam minha cidade natal de cima. 
O colorido do carnaval que entorpece, o clarim que hipnotiza, o frevo que escraviza a alma foliã.
Seis e meia da manhã. 
Rua da Glória, acorda! 
Passa o primeiro pregão. Ouço o mexe mexe dos vizinhos.
Um reclama que falta água. O outro levanta o cheiro do cominho na carne de boi. 
Uma grade se abre. Alguém reclama e bate com força.
A rádio dá conta do que sangrou na madrugada.
A vida aqui tem vida.
São sete. 
Levanto, faço o café e me declaro. Eu, herdeira do mar de Iracema, desertei para a terra do mangue. Inventei de ver a luz pela primeira vez na terra ao nível do mar. 
Nasci Recifense. Adotei José Mariano e Frei Caneca. Fiz de 1817 uma data dos meus ancestrais. 
Nasci na terra que tudo é misturado: mar, rio, maré, mangue. Maracatu, frevo, cabocolinho, coco, repente.
Sete e meia. 
Chega de poesia escrita. O carroceiro na minha porta é poesia viva.
O boy na bicicleta não frequenta a ciclovia. Passa o dia inteiro transportando Pitu E Dreher pros bares da Boa Vista. É seu ganha pão. 
Esta cidade mazelada poucos sonhos abriga. 




quarta-feira, 26 de junho de 2013

eu sou assim



Hoje acordei turbinada. Ligada na tomada. Totalmente. 220v.
Estou escutando tudo. Vendo além, sentindo à flor da pele.
Não, não é nenhum tipo de droga. Não é qualquer bebida estimulante.
Hoje eu acordei comigo mesma. EU SOU ASSIM.
Bom dia, senhora. Eu, uma mulher de 41 anos, um metro e meio, uns quilos a mais. Muito prazer.
Tomei café sozinha. Não. Tomei café na minha própria companhia. Saí às ruas da minha cidade acompanhada de mim mesma. 
Senti que comigo tudo é mais engraçado. Eu me entendo muito bem. Eu me faculto a palavra. Eu sou protagonista da minha história.
Juntas, resolvemos coisas. Cartório, copiadora, banco. Coisas muito chatas de se fazer estavam apaziguadas.
Era eu comigo mesma.
Voltei pela rua de pedestre. Andar por uma rua sem carros me faz sentir mais cidadã. Me faz perceber que algumas coisas podem mudar na vida. Ruas em que o poder é dos sapatos. Mocassins esmerados, sapatilhas elegantes, tênis acelerados. Minha sandália dourada, quase hippie.
Parei nas vitrines que quis. Ignorei o que não tem sentido pra mim. Ouvi a conversa do lado. Respondi  a uma pesquisa sobre perfumes.
O sol que vem manso depois da chuva não castigava tanto. Eram 10 da manhã.
Na frente da loja popular, ela me chamou pra entrar. Tava tudo tão bom que eu nem hesitei. Provei umas peças, comedida. Ela me insuflando. Ficou lindo! Você precisa cuidar de você.
Ela é minha porção mulherzinha.
Ouvi a minha nova voz.
Agora mesmo é ela quem está escrevendo. Decidiu não ver o jogo de futebol. Concordei plenamente. Sinto um tédio vendo aquele bando de homem correndo atrás de uma bola. Pra cima e pra baixo. Pra baixo e pra cima. Parece uma canção de ninar. Uma rede balançando. Findo dormindo. Saio pra fazer pipoca. Vou cuidar das plantas.
Não preciso mais ir aonde os outros vão. Preciso ir onde vou. Onde quero.
E quiçá amanhã eu acorde e tenha a grata surpresa de ver que ela se mantém aqui do meu lado.
Andava sumida, você.

domingo, 23 de junho de 2013

Mídia, parlamento e sociedade. Equilíbrio sutil.

Vou pedir permissão dos meus leitores para fugir do script. Sempre busco aqui neste espaço um caminho subjetivo, poético e autoreferente. Porém hoje acordei e dei de cara com um artigo que escrevi para a revista da Câmara dos Deputados, há mais de dois anos.
Fala justamente sobre a crise de representação, sobre confiança na democracia e sobre a intermediação da mídia. O artigo é um recorte de uma monografia que escrevi para a conclusão de uma pos graduação em política na no Centro de Ensino e Formação superior da Câmara, em Brasília.

Como muitas vezes nossas conversas mais acaloradas não permitem tanta reflexão, procuro dizer o que penso através da linguagem que melhor conheço: a escrita.

O texto é longo. Mas vai assim mesmo, na íntegra.


Sugestões e críticas são muito bem vindas.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

#eueosmeninos



             


               O mundo de gente. O mar de desejos. O oceano de reivindicações. Pec 37, corrupção,segurança, educação, cultura. Tudo padrão FIFA. Menos a parte da corrupção.  
                O mundo representado diante da crise de representação democrática. 
                Quase, quase todos os cartazes em punho eram frases que eu já tinha lido no Facebook. Não, não sou contra as redes sociais, de jeito nenhum. Sou usuária, já dependente. Senti, de cara, foi que o Facebook foi às ruas. Um mundo de hastags.
                 Ir a manifestações de rua sempre foi natural. Sou do Recife. Cidade em que o carnaval é uma grande manifestação. O pernambucano entende de multidão. Por isso, muito sem medo, sempre levei meus filhos. Pras manifestações políticas e pro carnaval. Plantei neles esta semente.
                E floresceu que nem o pau-brasil que semeamos no quintal. Meus meninos têm discurso. Meus meninos são protagonistas. Cresceram como uma árvore frondosa.
                Lá do alto, o pau-brasil nos observa, vela nossos dias, abriga os pássaros. Lá de longe, começo a ver os meninos que eu levava firmes à minha mão, andando mais rápido do que eu. Vão na frente, confiantes.
                Meu coração de mãe militante entende que este é o sentimento de eternidade. Vejo o meu fervor neles. Vejo a minha coragem nos olhos deles. Uma transferência não me falta, fortalece.
                Não é a primeira manifestação deles. Mas é como se fosse. Antes foi ensaio. Agora é estréia.
                Eu vi o mundo pelos olhos dos meninos. E ele ainda começava no Recife. 
                Na bandeira de Pernambuco que um carrega até exaurir os músculos. No Pavilhão Nacional que o outro amarra como uma capa de herói. Na camisa do mangue boy. No punho erguido. Na palavra de ordem.
                   #vemprarua #recifeacordou #alutanaopara #foracorrupcao #segurancapadraofifa.As hastags que mobilizaram meus meninos são as causas contemporâneas.

                Eu vi o mundo pelos olhos dos meus filhos. Agora posso dizer: Meus filhos cresceram. E eu estava lá. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

mapa da mina

Tenho muitos segredos para você.
São proibidos.
Anárquicos.
Infantis.
Alguns, rebeldes.
Uns tantos revolucionários.
Não são segredos. São Botijas.
Encontre-as.
Afague- as e domine-as.
Não são segredos, penso agora.
São mistérios. Mapas da mina.
No subsolo do inconsciente, perdidos tal náufrago em terra estranha.
Resgate-os. E será como me libertar de um exílio.
Desvende o enigma.
Um quebra-cabeças imenso com encaixes perfeitos.
O segredo sou eu.

sábado, 1 de junho de 2013

Mãe da Luz

Luís,

Você é filho da certeza.
Uma certeza imensa de que o meu amor de mãe chegaria a abraçar mais um fruto.
Você também é filho da alegria mais pura.
Dentro daquele envelope de plástico transparente tinha um papel dobrado com o resultado de um exame. Eu não precisava ler para saber que você já se fazia. Mas abrir, ler, foi como explodir de alegria. Até hoje se penso em um momento muito feliz da minha vida, lembro do dia em que saí do laboratório com o exame na mão, sem conseguir parar pra pegar um taxi ou um ônibus. Fui andando até a nossa casa, parando em cada telefone público, avisando aos quatro ventos a surpresa do meu ventre.
Você é filho da prosperidade. Já nasceu nos trazendo notícias boas, fazendo a família crescer e ficar mais forte.
Eu sou mãe.
 Mãe da alegria de viver que você tem.
Mãe da sua alma universal.
Mãe do seu olhar sobre o mundo.
Mãe do seu jeito de aprender a viver.
Hoje você faz 15 anos.
Um orgulho imenso me move.
Você é Luís.

Filho de Germana e Rinaldo.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...