quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Violeiros de Abelardo





Andar pelo Recife e encontrar as figuras de Abelardo...

É como encontrar uma paisagem amiga. As figuras que ilustraram meu universo infantil, que mapearam meu afeto e que construíram em mim o amor pela cidade que nasci. 

No parque 13 de Maio, os violeiros quase tocavam pra mim, quase entoavam canções.
Dos escorregos também desenhados por Abelardo eu brincava silenciosamente com os cantantes de concreto. 
Artistas populares imensos, quando eu olhava do alto dos meus cinco anos. Expressões verdadeiras no rosto. Hoje passei na frente das esculturas e elas cantaram pra mim. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Clareia.  Como quem clareia a mente. Abre os portões da vida, maré cheia. Uma luz azul veludo parece terapia, destino, clarividência. 
O absurdo abriga o dia. 
Não é dia nem noite. O absurdo é lilás, branco, prata reflexo na pele. 
A lua plena sobre o nada. 
O nada respira fundo, equilibra os ares. 


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ele sou eu.


Faz tempo que fujo deste momento. 
Eu fujo dele, mas ele não me deixa em paz. 
Parece desenho animado, episódio de Tom e Jerry…
Então, mesmo quando estou fazendo qualquer coisa, ele me persegue. 
Ele sou eu mesma. 
No domingo, passeando pelo Cais José Mariano, uma mulher de costas nuas, com uma roupa domingueira, me faz lembrar.
Lavando a louça, exausta no final de um dia infernal, lá vem ele!
Ele não sou eu. Acho que não. Ele é quase eu. 
Ele não me domina, nem eu a ele. 
Ah, mas ele me apurrinha!
Agora estamos aqui os dois. Juntos. Eu e o meu pensamento.
Ele, de tão saudoso de mim, está confuso. Me cobra mais tempo, como um filho pequeno quando se chega do trabalho. 
Exige tempo, dedicação…
E joga em mim uma profusão de coisas. Na verdade, me resta apenas escrever. 
Calma, meu velho. Foram tempos difíceis. Eu estava ausente de mim mesma. 
Estou retornando. 
Estou voltando. 
Como um mergulhador que, sem oxigênio, precisa submergir com cautela. 
Como um faquir, que sai do seu transe morto de fome. 
Na rua tem gente me parando e perguntando por ele. "Onde estão seus textos?", me perguntam. 
Estão aqui, eu responderia. 
Mas aqui onde? De onde vem este impulso gigante, autoritário, imperioso, que não me deixa em paz? 
Prefiro então rir dizer que já já volto a escrever. 
Quando? 
Me falta a solidão. Ou a paz. 
Me falta o horizonte. 
A paisagem interna. 
E hoje ele amanheceu sem consolo. 
São mais de oito da noite. E, como numa conjunção astral, depois de muitos infernos, me encontro sozinha com ele. 
Somos amantes. 
Este é o nosso tempo, o templo sagrado. 
Alguém me chama. Paro por um segundo. Um hiato pra indicar que estou indisponível.  
Agora não. Estou escrevendo. 
O ano novo ainda não me deu paz. Uma dúzia de dias que parecem uma gincana. 
Hoje aconteceu. Abri a porta e ele veio. 
Como quem incorpora. 
Pode entrar. Não faça cerimônia, não temos mais idade pra isso. 
E ele inundou tudo com sua presença. 
E eu sou mais eu quando ele está por perto. 
Ah, quem dera ter a poesia sempre ao meu lado. Meu pensamento mais meu. 
E ainda penso que ele seja eu….

sábado, 11 de outubro de 2014

Pessoa de ferro.

Fernando, pessoa de ferro. 

Hoje eu abri os olhos e o sonho não tinha acabado. A noite não me embruteceu. As lágrimas não borraram minhas convicções. 
A derrota não me enfraqueceu as crenças. 
A dor hoje acordou no meu corpo. De tão grande e intensa, migrou da alma para esta carcaça que quase nada tem. 
Eu abri os olhos, mas já tinha acordado há tempo. 
Nessas caminhadas a gente sabe o caminho no escuro. 
Sabe semear na terra seca. 
Sabe o valor de um gesto. 
Sabe que o rio nem sempre passa na terra de quem colhe. 
Eu aprendi tudo aos poucos. Como uma panela que cozinha lenta, no fogo brando. 
A estrada à frente. 
Muitas lutas no coração. 
Não há método mais eficaz que o exemplo. 
Esse não se decora, se herda. 
Não se compra. 
Não se vende. É doação. 
E na poesia que se vive, a rima é a história. 
A métrica é a coerência. 
Recitar é compulsório. 
Um poeta não se cala mesmo mudo. 
Porque seus versos ganham o
Mundo. 
Pessoa de Ferro. Tantos Fernandos cantam suas aldeias. Tantos emendam sonhos. Quantos sabem a dor que deveras sentem? 

  "Não sou nada. Nunca quis ser nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Flor




A flor abriu.
A noite veio com lua.
E o meu peito acordou congestionado de palavras presas.
Não expectorava.
Amanheci com pressa, café com tapioca feito quem rouba.
Fui trabalhar.
E tudo tinha outras cores, outro brilho.
Uma emoção mau comportada, mau educada e impulsiva me tomava.
A vida com lente de aumento. A vida vista pelo coração.
E as palavras pareciam vermes infectando meu peito.
Um remédio, por favor!
No escritório cheio de gente arrisco esta viagem pra dentro. Escrevendo pra alentar o peito. E me dou conta que escrevo desde sempre. Desde menina. E não entendo esta necessidade. Tem gente que acorda querendo comer alguma coisa. Tem gente que não resiste a uma blusa na vitrine. Tem gente que não perde uma estreia no cinema. Tem gente que não vive sem uma etiqueta.
Eu respiro esta atmosfera sutil.
Preciso nebulizar urgente!
Acordo com umas palavras embaralhadas e fico disfarçando.
Carecia parar e escrever.
Carecia parar de sentir.
Carecia viver menos profundo pra seguir em frente.
Parei.
Decidi falar da minha flor que abriu. Abriu na segunda-feira comum. Abriu sem feriado, abriu sem dia santo.
Fez do santo sol de todo dia uma estrela toda sua.

domingo, 31 de agosto de 2014

O tamanho das coisas

A preguiça do domingo veio densa.
Sempre que não sei o que dizer, saio com a seguinte frase feita: "a vida é maior que tudo isso".
Percebi esta semana. Realmente a vida é. E eu tenho este caco quando não tenho o texto na ponta da língua. 
E a morosidade do domingo veio tronxa. 
Uma semana de visitas e permanências no hospital. Olho pra minha mãe e percebo o tempo passando. O tempo que é maior que a vida. 
O domingo chega com o balão de oxigênio. 
Em casa, chegando pra dormir depois de noites em claro, não encontro o nosso gato. Motor. 
Um ano atrás exatamente ele era um filhote  que encontramos dentro do motor do carro. O tempo levou motor e eu nem sei pra onde... Nem como... Nem quem. 
A vida deve ser maior que tudo isso. E se ele encheu o saco da casa? Do piano? Da vida cotidiana quadrada? 
E se ele ainda volta? 
Encontro na minha cabeça cansada uma semelhança entre estar com minha mãe no hospital e não estar com motor. 
É o amor. Tudo  o que eu se faz assim tem uma ligação. 
E eu me vejo falando besteiras no telefone. E eu me pego escrevendo pra doer menos. 
É. A vida é maior que tudo isso mesmo. 
O domingo preguiçoso nem se deu conta da minha dor. Nem do meu amor. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Abelardo e eu.



Abelardo e eu.

Visitei a casa de Abelardo umas duas vezes na vida. Rinaldo Silva era o convidado.
Eu, uma mosquinha que curtia cada pequeno minuto ao lado daquele monstro da arte. 

O trabalho de Abelardo faz parte das minhas imagens de criança. Anos depois, estou eu na casa-ateliê do mestre, na Rua do Sossego.

Encantada. Vivendo uma fábula.

De repente, chega Abelardo e me convida: quer sentar na minha escultura? 

Era uma mulher nua, deitada. Eu sentei meio assim sem jeito, na pontinha.
Sentar na obra de arte... estava muito maravilhada.
Aí, talvez percebendo minha saia justa, ele atalhou: encosta a cabeça nos peitos dela. é uma delícia!!!!

Aceitei o convite. Fiquei lá por um bom tempo aproveitando esta dávida da vida.

Abelardo da Hora sabe tudo!

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...