quinta-feira, 19 de março de 2015

nunca sou eu!

Tenho uma alma lusitana, só pode ser. 
Que vive entre o mar e o rio. 
Cheiro marinho e ar de mangue. 
Minha alma inquieta entre as águas me faz navegar.
Esta noite foi em sonho.
E era eu.
Em outro lugar.
E era minha alma em outro corpo. 
Mas era eu. 
Era a vida platônica saindo das cavernas e dominando as sombras do que eu nunca fui.
E uma das maiores, mais assustadoras e aterrorizantes era um perfil alheio. 
Não era eu.
Era uma outra pessoa, o mesmo sonho. Era outro cenário, o mesmo enredo.
A trama que me persegue a vida, que me faz viver e morrer.
Minha alma lusitana é dada a saudades. A nostalgia.
É leal.
E não me assusto ao dizer que como este, já escrevi dezenas. E os deletei, rasguei, maturei, decorei, reli, como quem quer expurgar um mal, uma bruxaria.
É isso o que muitas vezes esta ligação me soa.
A alguma coisa tão distante e presente, que bem não pode fazer.
A uma prisão ao passado que insiste em não ruir, mas que tampouco evolui em sua pena.
A tentativa tímida fica entre não atrapalhar a minha vida e não importunar a alheia.
Meus surtos vem e vão, de forma que em alguns momentos estou até mais em paz.
Esta noite fui acometida mais uma vez.
Mas não era eu. 
Era um disfarce. E eu tentava dizer. Só que eu sequer era vista.
Não precisa invocar Freud.
Nem as sincronicidades de Jung.
Tudo está explicado e dito.
Minha alma vê o barco da vida seguir em águas cada vez mais profundas. 

terça-feira, 17 de março de 2015

Expiração

Não se aprende na fantasia. 
Se aprende sendo. 
Todo começo é um recomeço.... 
E se começa a cada instante. 
Assim como a respiração, fundamental para a vida. 
Se morre a cada expiração. 
Se (re)nasce na inspiração. 
Assim como na arte. 
Inspiração leva à criação. Criatividade.
 Cada dia, uma longa respiração.
 Cada instante, um desafio. 
Um jogo de vida e morte, até o fim.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Violeiros de Abelardo





Andar pelo Recife e encontrar as figuras de Abelardo...

É como encontrar uma paisagem amiga. As figuras que ilustraram meu universo infantil, que mapearam meu afeto e que construíram em mim o amor pela cidade que nasci. 

No parque 13 de Maio, os violeiros quase tocavam pra mim, quase entoavam canções.
Dos escorregos também desenhados por Abelardo eu brincava silenciosamente com os cantantes de concreto. 
Artistas populares imensos, quando eu olhava do alto dos meus cinco anos. Expressões verdadeiras no rosto. Hoje passei na frente das esculturas e elas cantaram pra mim. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Clareia.  Como quem clareia a mente. Abre os portões da vida, maré cheia. Uma luz azul veludo parece terapia, destino, clarividência. 
O absurdo abriga o dia. 
Não é dia nem noite. O absurdo é lilás, branco, prata reflexo na pele. 
A lua plena sobre o nada. 
O nada respira fundo, equilibra os ares. 


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ele sou eu.


Faz tempo que fujo deste momento. 
Eu fujo dele, mas ele não me deixa em paz. 
Parece desenho animado, episódio de Tom e Jerry…
Então, mesmo quando estou fazendo qualquer coisa, ele me persegue. 
Ele sou eu mesma. 
No domingo, passeando pelo Cais José Mariano, uma mulher de costas nuas, com uma roupa domingueira, me faz lembrar.
Lavando a louça, exausta no final de um dia infernal, lá vem ele!
Ele não sou eu. Acho que não. Ele é quase eu. 
Ele não me domina, nem eu a ele. 
Ah, mas ele me apurrinha!
Agora estamos aqui os dois. Juntos. Eu e o meu pensamento.
Ele, de tão saudoso de mim, está confuso. Me cobra mais tempo, como um filho pequeno quando se chega do trabalho. 
Exige tempo, dedicação…
E joga em mim uma profusão de coisas. Na verdade, me resta apenas escrever. 
Calma, meu velho. Foram tempos difíceis. Eu estava ausente de mim mesma. 
Estou retornando. 
Estou voltando. 
Como um mergulhador que, sem oxigênio, precisa submergir com cautela. 
Como um faquir, que sai do seu transe morto de fome. 
Na rua tem gente me parando e perguntando por ele. "Onde estão seus textos?", me perguntam. 
Estão aqui, eu responderia. 
Mas aqui onde? De onde vem este impulso gigante, autoritário, imperioso, que não me deixa em paz? 
Prefiro então rir dizer que já já volto a escrever. 
Quando? 
Me falta a solidão. Ou a paz. 
Me falta o horizonte. 
A paisagem interna. 
E hoje ele amanheceu sem consolo. 
São mais de oito da noite. E, como numa conjunção astral, depois de muitos infernos, me encontro sozinha com ele. 
Somos amantes. 
Este é o nosso tempo, o templo sagrado. 
Alguém me chama. Paro por um segundo. Um hiato pra indicar que estou indisponível.  
Agora não. Estou escrevendo. 
O ano novo ainda não me deu paz. Uma dúzia de dias que parecem uma gincana. 
Hoje aconteceu. Abri a porta e ele veio. 
Como quem incorpora. 
Pode entrar. Não faça cerimônia, não temos mais idade pra isso. 
E ele inundou tudo com sua presença. 
E eu sou mais eu quando ele está por perto. 
Ah, quem dera ter a poesia sempre ao meu lado. Meu pensamento mais meu. 
E ainda penso que ele seja eu….

sábado, 11 de outubro de 2014

Pessoa de ferro.

Fernando, pessoa de ferro. 

Hoje eu abri os olhos e o sonho não tinha acabado. A noite não me embruteceu. As lágrimas não borraram minhas convicções. 
A derrota não me enfraqueceu as crenças. 
A dor hoje acordou no meu corpo. De tão grande e intensa, migrou da alma para esta carcaça que quase nada tem. 
Eu abri os olhos, mas já tinha acordado há tempo. 
Nessas caminhadas a gente sabe o caminho no escuro. 
Sabe semear na terra seca. 
Sabe o valor de um gesto. 
Sabe que o rio nem sempre passa na terra de quem colhe. 
Eu aprendi tudo aos poucos. Como uma panela que cozinha lenta, no fogo brando. 
A estrada à frente. 
Muitas lutas no coração. 
Não há método mais eficaz que o exemplo. 
Esse não se decora, se herda. 
Não se compra. 
Não se vende. É doação. 
E na poesia que se vive, a rima é a história. 
A métrica é a coerência. 
Recitar é compulsório. 
Um poeta não se cala mesmo mudo. 
Porque seus versos ganham o
Mundo. 
Pessoa de Ferro. Tantos Fernandos cantam suas aldeias. Tantos emendam sonhos. Quantos sabem a dor que deveras sentem? 

  "Não sou nada. Nunca quis ser nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Flor




A flor abriu.
A noite veio com lua.
E o meu peito acordou congestionado de palavras presas.
Não expectorava.
Amanheci com pressa, café com tapioca feito quem rouba.
Fui trabalhar.
E tudo tinha outras cores, outro brilho.
Uma emoção mau comportada, mau educada e impulsiva me tomava.
A vida com lente de aumento. A vida vista pelo coração.
E as palavras pareciam vermes infectando meu peito.
Um remédio, por favor!
No escritório cheio de gente arrisco esta viagem pra dentro. Escrevendo pra alentar o peito. E me dou conta que escrevo desde sempre. Desde menina. E não entendo esta necessidade. Tem gente que acorda querendo comer alguma coisa. Tem gente que não resiste a uma blusa na vitrine. Tem gente que não perde uma estreia no cinema. Tem gente que não vive sem uma etiqueta.
Eu respiro esta atmosfera sutil.
Preciso nebulizar urgente!
Acordo com umas palavras embaralhadas e fico disfarçando.
Carecia parar e escrever.
Carecia parar de sentir.
Carecia viver menos profundo pra seguir em frente.
Parei.
Decidi falar da minha flor que abriu. Abriu na segunda-feira comum. Abriu sem feriado, abriu sem dia santo.
Fez do santo sol de todo dia uma estrela toda sua.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...