quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

saudade é este rastro, 

este perfume na memória, 

o sorriso que já foi, 

a alegria da lembrança, 

a tristeza da falta, 

a certeza do sempre.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Vai passar

 Uma saudade, uma nostalgia...

Me sinto agreste no litoral.

Me vejo em cores pastel.

Uma foto antiga me traduz melhor.

Uma música tocando longe já cedinho, anunciando a sexta de momo.

Tinha Lily... 

Me sinto sertão na mata.

Um dia, choveremos a folia novamente.

Abraçaremos com o suor salgado e encontraremos os olhos borrados, maquiados, mascarados ao léu, ao azar.

Cabeças e corpos e mentes entregues a uma louca utopia.

Primavera do frevo.

E esta música que não desiste de lembrar que seria carnaval. Um som distante e permanente...

Decido ir ao mercado comprar água sanitária e outras coisinhas. 

Quando entro, tem Claudionor Germano tocando no som ambiente.

"Isso aqui ainda vai pegar fogo quando o frevo esquentar"...

...


Eu me perco mas gôndolas. 

Quando finalmente me oriento, na fila das pequenas compras, fico ali zapeando um sem número de fotos nostálgicas.

#tbt infinitos de momentos vividos.

Passeio por entre meus ritmos. 

Deslizo nas memórias e digito a senha do cartão no automático.

Me sinto em algum lugar muito frívola. O país não cessa o luto. Uma pandemia se estende e se alastra.

Mas temos conosco as lembranças.

Vai passar. 

Vai passar.

Vai passar.

O Poeta já cantou estes versos.

Um tempo, página infeliz da nossa história...

Não vou terminar este texto. A sensação é de coisa aberta, bordado pela metade, gás que acabou antes de o café subir.

Vai passar.

Tomo um trago de poesia, mas não me embriago.


A imagem é a arte de Ana Catarina Mousinho

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

O livreiro


A gente não some de vez. A gente vai sumindo aos poucos. Cada casa demolida, um teatro que fecha, um cinema que vira igreja...

A gente vai perdendo os pontos de referência. 

- Naquela esquina era uma loja, virou farmácia.

-A padaria da infância virou arranha céu.

- A livraria que fechou.

Hoje eu acordei me sentindo menos daqui.

Hoje uma refência da cidade se foi.

Não era cinema, teatro ou igreja.

Era uma figura humana que se expandia para além do corpo e vai continuar se expandindo para além do tempo. 

Onde era a livro 7 hoje talvez seja uma loja de cosméticos. 

Eu ia lá sem grana. Lia uns livros "à prestação". Sentava e me sentia em casa.

Devia ter uns 15 anos...

Comecei a juntar uns trocados pra comprar os títulos que mais gostava.

E a figura de Tarcísio, mesmo não sendo próximo, era referência.

Eu simplesmente sabia quem ele era.

Hoje precisei de algumas palavras para explicar ao meu filho o que era a Livro 7. 

Um lugar que não existe mais.

Mais que um lugar!

Uma ideia.

Hoje foi Tarcisio quem partiu.

Tarcísio não era dono de uma livraria. Ele era um livreiro. 

E pensando bem, não era livraria. Era um espaço de cultura.

Ando cansada de ir procurar livros e só encontrar best sellers "remakes" de filmes ou vice versa.

Ando desesperançada de perguntar por Florbela Espanca. 

Ou por Ana Cristina Cesar...

As prateleiras não me surpreendem mais.

Hoje foi Tarcisio Pereira quem partiu. 

E eu sumi mais um pouco com a partida dele.

domingo, 24 de janeiro de 2021

FANTASIA SEM NOME



Hoje de tarde um vizinho do prédio ao lado começou a tocar um clarim. Rasgou a paz da tarde de domingo com o hino do homem da meia noite.
Papapapapa... pararapá... pararapá....
Tocava num ritmo lento, mastigando cada nota.
Aquele sopro solitário no céu nublado. De repente, uma chuva faz subir do chão o mormaço. Tão Recifense, este cenário!
O músico solitário repetia a melodia... e meu desalento o acompanhava. O bloco solitário.
Uma melancolia batendo à minha porta. Uma coisa fora do lugar... Nesta pandemia eu me virei do avesso. Me reinventei. Estudei. Cuidei de mim e dos meus. Driblei aniversário, tirei de letra as festas mascaradas de final de ano. Mas não estou conseguindo metabolizar a saudade do carnaval.
O ritual sagrado da festa profana. O ambiente de congraçamento, de confraternização. A licença poética de ser quem quiser.
Eu dizia sempre: este ano não vou brincar. Já era tradição. Na família, já era graça. Aí, um dia, tirava do armário a mala de fantasias, “pra tirar o mofo”. E vinha a primeira prévia... e como eu já não ia brincar, era melhor aproveitar! E me esbaldava, e fazia que nem visita indesejada: ia ficando. Ia pulando. Ia me embriagando na cachaça do passo, na beleza do brilho. Pulava do frevo pro maracatu. Acordava caboclinho, dormia baque solto.
A festa começava como quem não quer nada.... aquela coisa que entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé.
O carnaval sempre foi a festa mais importante do meu calendário.
Racionalmente, sei que não podemos ter a folia em 2021. Eu defendo que a gente precisa ficar em casa.
Mas como carnaval não é nada racional, a alma... ah... esta alma foliã está amofinada. Amuada e arretada. Vai ser o jeito segurar firme o sonho pela mão e levar ele direitinho até 2022.
Dessa vez eu quero brincar e não tem carnaval. A minha fantasia mais inesperada.
Fico em casa imaginando no próximo ano o tanto de gente vai sair de coronavac, de Butantã, confinamento, de vírus... de super imunizada!!!!
Chego a sentir o calor do mormaço subindo pelos pés enquanto eu subo a misericórdia com o sol pelando de quente.
Chego a rir sozinha quase antevendo a folia temporã.
E quando finalmente eu abrir novamente a caixa de maquiagem, desembrulhar o sem fim de brilhos e a coleção sem noção de adereços, vou inventar uma fantasia sem nome. Vou vestir o melhor delírio e me enfronhar ruas afora.
Viver intensamente a democracia republicana do reinado de momo. Minha contradição. Meu melhor sonho. Meu carnaval.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Euforia



Havia uma certa arrogância na forma como ela usava aquele perfume francês. Uma displicência, ou seria um desleixo... Anos a fio usando o mesmo perfume, de domingo a domingo, na tentativa de imprimir uma personalidade, uma marca. Triste objetivo!

Pra dentro, lá no fundo, ela sabia da sua insegurança. Tinha medo de falar, de expor as ideias. Tinha medo da própria alma de artista que, de quando em vez, escapava e se anunciava pela boca. Mas a voz parecia agarrada na garganta, perdia a potência a cada vez que ela falava de si. Era tanta dissimulação que às vezes nem ela mesma sabia o que estava vivendo. Quando tentava falar, as mãos gelavam instantaneamente. Melhor não.

Havia uma certa arrogância, sim, de creditar ao perfume Kalvin Klein, francês (como é isso mesmo???), um traço da sua personalidade. Essa coisa imaginária, que um produto qualquer que seja, possa te traduzir.

A arrogância da imaturidade, que teima em rotular. Quem tem rótulo é perfume, aliás. Gente não deveria ter. Aquele vidro sinuoso, que lembrava o símbolo do oito deitado, do infinito, era a imagem da sua prisão. Infinita. Uma prisão de prata e com o líquido lilás. Uma prisão que aumentava à medida em que o conteúdo do frasco se esvaía. Evaporava junto com a sua certeza.

Pensando bem... não era “certa arrogância”.

Era pura arrogância. Um extrato concentrado.

Só que travestida de elegância, fantasiada de alma minimalista. O nome do tal aroma? Euphorie. Traduzindo: Euforia.

Euforia.

Atitude, sentimento, saída de emergência para os corações inquietos.

Euforia, a alegria superficial.

No seu dicionário, euforia poderia ser definida como escudo. Um estado de alma para quem vivia em estado de sítio.

Por décadas, o aroma chegava antes dela. Era sol, era chuva... era feira ou casamento. Ela usava o mesmo perfume. Talvez, a única constância no seu estado de espírito.

Colecionava os vidros vazios, de vários tamanhos. Chegou um tempo em que ela nem comprava mais o perfume. Quem viajava pra fora já sabia o presente que deveria trazer. As amigas sugeriam cremes, hidratantes, vitaminas, eletro eletrônicos. “Traz um vidrinho de euforia pra mim?”, ela humildemente sugeria.

Um vidro de euforia. Uma dose modesta, ministrada em borrifadas diárias. Uma droga que talvez sua porção infantil como um super poder.

Até que um dia, o perfume foi ficando pesado. Pesava nas roupas. Uma coisa parecida com uma cola. Foi deixando a euforia da arrogância de lado. O que ela iria colocar no lugar???

Parou de pedir as encomendas internacionais. Uma vez pediu uma caixinha de música que tocasse “What a Wonderful Word”. Meio esquisito...

Passou a usar o perfume somente quando saía pro trabalho, “pra economizar”. Sentia nas suas roupas guardadas, repentinamente, o toque meio adocicado e aquilo em algum lugar alfinetava. A arrogância persistente do aroma trazia um incômodo profundo.

A sensação de nunca sair do lugar.

Deixou acabar o último exemplar do estoque. Uma coisa qualquer não fazia mais sentido.

Ficou sem cheiro. Passou a sentir seu próprio cheiro, aliás.

Era muito novo.

Sem contorno.

Seria ela?

Foi na farmácia da esquina e comprou uma lavanda. Gostou de usar em plena luz do dia uma lavanda tão comum. “É ótima pra ir à feira”, ela definiu.

No dia seguinte, acordou e quando já ia saindo pro trabalho, da porta, voltou. Olhou pro vidro de  euforia vazio. A coleção de vidros inúteis na penteadeira, como um memorial da sua vida.

Foi ali no armário do banheiro, abriu o frasco de plástico transparente esverdeado e aplicou no cangote, nos pulsos e depois esfregou as mãos uma na outra. O mesmo gesto repetido por décadas. O mesmo gesto mecânico.

Quem vai me rotular agora?

Estava sem o escudo... ou seriam as muletas?

Deu os primeiros passos desconfiada. Foi experimentando outras essências. Foi brincando de cheirar, de sentir. Eram outros tons e cores e notas.

Um dia, como se nada mais fizesse sentido, pegou um saco grande de lixo, aqueles de plástico fosco preto, colocou todos os vasos vazios. Embalagens e rótulos de um tempo vivido. Deu um nó e levou pra área de serviço.

“Amanhã passa o lixo e levo lá pra fora”, pensou quando fechou a porta da cozinha. Tanta coisa guardada por tanto tempo, tanto tempo guardando tanta coisa! Ela tentava afugentar o trocadilho infame do luxo e do lixo. Do lixo luxuoso...

Não havia euforia na sua atitude. Sua busca mais profunda começara naquele instante. Seria preciso ter faro e sensibilidade para as novas fragrâncias da vida. É preciso achar um perfume menos forte pra identificar onde cheira mal.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Existir

 Bom dia, algoritmo. 

Bom dia, minha bolha. 

Eu hoje sou uma bolha estourada, 

Uma ferida em carne viva. 

Violação é uma expressão que acompanha, uma sombra. Corpo, mente, alma, sentidos.

Violação é um medo que paralisa. Em casa, na rua, nas redes.

Violação é uma dor que nos move.

Violação é um estigma. 

A não dignidade.

A não integridade.

Esta dor que nos atravessa séculos a fio.

Nosso corpo permitido 

Nosso corpo proibido

Nosso corpo coisificado

A infância, a violação.

O crime culposo não tem criminoso. 

Só a vítima e sua culpa por existir.

domingo, 1 de novembro de 2020

Sobre bruxaria

Eu sempre digo que a minha bruxaria maior está em um caldeirão fumaçando na cozinha.

A alquimia instintiva, investigativa e interativa que existe entre o alimento, as minhas mãos e o fogo. Tenho queimaduras de estimação, cicatrizes desta parceria.
A bruxaria que transmite pelas panelas o afeto, a cura, a mensagem.
Escrevo em pitadas de pimenta.
Faço versos em porções.
Assim como na cozinha, um pouco sem métrica.
Foi na cozinha que voltei a escrever, a imprimir minha poesia.
Meus cadernos de receita que pouco ensinam a cozinhar, falam das sensações.
A inspiração se empresta, em mim, tanto para a poesia quanto para a cozinha.
Que bruxa esquisita eu sou!
Ontem passei o dia ouvindo a cozinha me chamar, mas estava em outras paragens.
Isso, não sou somente eu que quero a cozinha. Ela me solicita também.
Não sei se alguém vai entender, mas também posso cozinhar mentalmente. Combinar sabores, considerar novas maneiras de tratar os ingredientes... bruxaria mesmo.
Quando cheguei em casa, já à noite, tirei da geladeira o levain, aquele tal de fermento natural, que eu tenho a alegria de cultivar.
Aprendi a conversar com o fermento natural. Não pasmem! Cabe este tipo de procedimento nos meus feitiços. Aprendi o tempo dele. Porque ninguém cozinha só.
Observar o fermento se alimentando, perceber a hora certa de misturar com a farinha de trigo é das mais altas bruxarias. Sentir o tempo da fermentação, respeitar a temperatura ambiente. E tirar da mistura de água, farinha, fermento e sal um dos mais ancestrais e simplórios alimentos.
Então... hoje pela manhã acordei e fui ver o pão que fermentou a noite toda.
Tava lindo!
Que presente de domingo!
Coloquei numa panela de ferro pré aquecida e lever ao forno. Primeiro, ele cresce. Aí você abaixa o fogo. Depois, aquele perfume de pão invade a sua casa. E ele fica douradinho... crocante por fora e macio por dentro.
É o fogo que transforma,
É o calor que alimenta,
O alimento que cura.
É a minha homenagem a todas as mulheres que cultivam suas bruxarias.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...