quinta-feira, 18 de março de 2021
meus olhos pequenos
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
Vai passar
Uma saudade, uma nostalgia...
Me sinto agreste no litoral.
Me vejo em cores pastel.
Uma foto antiga me traduz melhor.
Uma música tocando longe já cedinho, anunciando a sexta de momo.
Tinha Lily...
Me sinto sertão na mata.
Um dia, choveremos a folia novamente.
Abraçaremos com o suor salgado e encontraremos os olhos borrados, maquiados, mascarados ao léu, ao azar.
Cabeças e corpos e mentes entregues a uma louca utopia.
Primavera do frevo.
E esta música que não desiste de lembrar que seria carnaval. Um som distante e permanente...
Decido ir ao mercado comprar água sanitária e outras coisinhas.
Quando entro, tem Claudionor Germano tocando no som ambiente.
"Isso aqui ainda vai pegar fogo quando o frevo esquentar"...
...
Eu me perco mas gôndolas.
Quando finalmente me oriento, na fila das pequenas compras, fico ali zapeando um sem número de fotos nostálgicas.
#tbt infinitos de momentos vividos.
Passeio por entre meus ritmos.
Deslizo nas memórias e digito a senha do cartão no automático.
Me sinto em algum lugar muito frívola. O país não cessa o luto. Uma pandemia se estende e se alastra.
Mas temos conosco as lembranças.
Vai passar.
Vai passar.
Vai passar.
O Poeta já cantou estes versos.
Um tempo, página infeliz da nossa história...
Não vou terminar este texto. A sensação é de coisa aberta, bordado pela metade, gás que acabou antes de o café subir.
Vai passar.
Tomo um trago de poesia, mas não me embriago.
A imagem é a arte de Ana Catarina Mousinho
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
O livreiro
A gente não some de vez. A gente vai sumindo aos poucos. Cada casa demolida, um teatro que fecha, um cinema que vira igreja...
A gente vai perdendo os pontos de referência.
- Naquela esquina era uma loja, virou farmácia.
-A padaria da infância virou arranha céu.
- A livraria que fechou.
Hoje eu acordei me sentindo menos daqui.
Hoje uma refência da cidade se foi.
Não era cinema, teatro ou igreja.
Era uma figura humana que se expandia para além do corpo e vai continuar se expandindo para além do tempo.
Onde era a livro 7 hoje talvez seja uma loja de cosméticos.
Eu ia lá sem grana. Lia uns livros "à prestação". Sentava e me sentia em casa.
Devia ter uns 15 anos...
Comecei a juntar uns trocados pra comprar os títulos que mais gostava.
E a figura de Tarcísio, mesmo não sendo próximo, era referência.
Eu simplesmente sabia quem ele era.
Hoje precisei de algumas palavras para explicar ao meu filho o que era a Livro 7.
Um lugar que não existe mais.
Mais que um lugar!
Uma ideia.
Hoje foi Tarcisio quem partiu.
Tarcísio não era dono de uma livraria. Ele era um livreiro.
E pensando bem, não era livraria. Era um espaço de cultura.
Ando cansada de ir procurar livros e só encontrar best sellers "remakes" de filmes ou vice versa.
Ando desesperançada de perguntar por Florbela Espanca.
Ou por Ana Cristina Cesar...
As prateleiras não me surpreendem mais.
Hoje foi Tarcisio Pereira quem partiu.
E eu sumi mais um pouco com a partida dele.
domingo, 24 de janeiro de 2021
FANTASIA SEM NOME
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
Euforia
Havia uma certa arrogância na forma como ela usava aquele
perfume francês. Uma displicência, ou seria um desleixo... Anos a fio usando o
mesmo perfume, de domingo a domingo, na tentativa de imprimir uma
personalidade, uma marca. Triste objetivo!
Pra dentro, lá no fundo, ela sabia da sua insegurança. Tinha
medo de falar, de expor as ideias. Tinha medo da própria alma de artista que,
de quando em vez, escapava e se anunciava pela boca. Mas a voz parecia agarrada
na garganta, perdia a potência a cada vez que ela falava de si. Era tanta
dissimulação que às vezes nem ela mesma sabia o que estava vivendo. Quando tentava
falar, as mãos gelavam instantaneamente. Melhor não.
Havia uma certa arrogância, sim, de creditar ao perfume
Kalvin Klein, francês (como é isso mesmo???), um traço da sua personalidade. Essa
coisa imaginária, que um produto qualquer que seja, possa te traduzir.
A arrogância da imaturidade, que teima em rotular. Quem tem
rótulo é perfume, aliás. Gente não deveria ter. Aquele vidro sinuoso, que
lembrava o símbolo do oito deitado, do infinito, era a imagem da sua prisão. Infinita.
Uma prisão de prata e com o líquido lilás. Uma prisão que aumentava à medida em
que o conteúdo do frasco se esvaía. Evaporava junto com a sua certeza.
Pensando bem... não era “certa arrogância”.
Era pura arrogância. Um extrato concentrado.
Só que travestida de elegância, fantasiada de alma
minimalista. O nome do tal aroma? Euphorie. Traduzindo: Euforia.
Euforia.
Atitude, sentimento, saída de emergência para os corações
inquietos.
Euforia, a alegria superficial.
No seu dicionário, euforia poderia ser definida como escudo.
Um estado de alma para quem vivia em estado de sítio.
Por décadas, o aroma chegava antes dela. Era sol, era
chuva... era feira ou casamento. Ela usava o mesmo perfume. Talvez, a única
constância no seu estado de espírito.
Colecionava os vidros vazios, de vários tamanhos. Chegou um
tempo em que ela nem comprava mais o perfume. Quem viajava pra fora já sabia o
presente que deveria trazer. As amigas sugeriam cremes, hidratantes, vitaminas,
eletro eletrônicos. “Traz um vidrinho de euforia pra mim?”, ela humildemente
sugeria.
Um vidro de euforia. Uma dose modesta, ministrada em
borrifadas diárias. Uma droga que talvez sua porção infantil como um super
poder.
Até que um dia, o perfume foi ficando pesado. Pesava nas
roupas. Uma coisa parecida com uma cola. Foi deixando a euforia da arrogância
de lado. O que ela iria colocar no lugar???
Parou de pedir as encomendas internacionais. Uma vez pediu
uma caixinha de música que tocasse “What a Wonderful Word”. Meio esquisito...
Passou a usar o perfume somente quando saía pro trabalho,
“pra economizar”. Sentia nas suas roupas guardadas, repentinamente, o toque
meio adocicado e aquilo em algum lugar alfinetava. A arrogância persistente do
aroma trazia um incômodo profundo.
A sensação de nunca sair do lugar.
Deixou acabar o último exemplar do estoque. Uma coisa
qualquer não fazia mais sentido.
Ficou sem cheiro. Passou a sentir seu próprio cheiro, aliás.
Era muito novo.
Sem contorno.
Seria ela?
Foi na farmácia da esquina e comprou uma lavanda. Gostou de
usar em plena luz do dia uma lavanda tão comum. “É ótima pra ir à feira”, ela
definiu.
No dia seguinte, acordou e quando já ia saindo pro trabalho,
da porta, voltou. Olhou pro vidro de euforia vazio. A coleção de vidros inúteis na
penteadeira, como um memorial da sua vida.
Foi ali no armário do banheiro, abriu o frasco de plástico
transparente esverdeado e aplicou no cangote, nos pulsos e depois esfregou as
mãos uma na outra. O mesmo gesto repetido por décadas. O mesmo gesto mecânico.
Quem vai me rotular agora?
Estava sem o escudo... ou seriam as muletas?
Deu os primeiros passos desconfiada. Foi experimentando
outras essências. Foi brincando de cheirar, de sentir. Eram outros tons e cores
e notas.
Um dia, como se nada mais fizesse sentido, pegou um saco
grande de lixo, aqueles de plástico fosco preto, colocou todos os vasos vazios.
Embalagens e rótulos de um tempo vivido. Deu um nó e levou pra área de serviço.
“Amanhã passa o lixo e levo lá pra fora”, pensou quando
fechou a porta da cozinha. Tanta coisa guardada por tanto tempo, tanto tempo
guardando tanta coisa! Ela tentava afugentar o trocadilho infame do luxo e do
lixo. Do lixo luxuoso...
Não havia euforia na sua atitude. Sua busca mais profunda
começara naquele instante. Seria preciso ter faro e sensibilidade para as novas
fragrâncias da vida. É preciso achar um perfume menos forte pra identificar
onde cheira mal.
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
Existir
Bom dia, algoritmo.
Bom dia, minha bolha.
Eu hoje sou uma bolha estourada,
Uma ferida em carne viva.
Violação é uma expressão que acompanha, uma sombra. Corpo, mente, alma, sentidos.
Violação é um medo que paralisa. Em casa, na rua, nas redes.
Violação é uma dor que nos move.
Violação é um estigma.
A não dignidade.
A não integridade.
Esta dor que nos atravessa séculos a fio.
Nosso corpo permitido
Nosso corpo proibido
Nosso corpo coisificado
A infância, a violação.
O crime culposo não tem criminoso.
Só a vítima e sua culpa por existir.
Horizonte
Pausar. Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...
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Pausar. Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...
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O mormaço emerge do chão. A chuva fina que cai insegura se desfaz antes de tocar no solo. O suor que traça caminhos incertos pelas minhas c...
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Hoje é véspera de natal e eu desejo imensamente a vida. Que a gente continue desejando Um sorvete, um beijo, uma viagem Uma fatia de...


