sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Tanta Tinta!







As mãos estavam atoladas de tinta.
O sorriso nem se continha.
Era involuntário. Sistema parassimpático.
O tempo era acessório, passava despercebido, levado pelo vento marítimo de Olinda.
Quem vive no mar não percebe o cheiro do salgado, entranhado, da maresia.
 Ali, no clube que tem o nome do oceano, éramos serem marinhos. Sereia e pescador. Marinheiro e Iara.
A tinta desceu até os pés. Era um baião inocente, amassando o colorido imenso. O balé impreciso foi lapso para o tempo.
Homenagem à vida, ao Pezão, aos olhos dela.
Ninguém se conhecia, ali. Ninguém disse muito prazer.
O mágico acabou sem uma troca de telefone. Sem dizer adeus. Se fosse só aquilo, já seria digno de entrar para o mistério da vida.
Mais eis que se passaram 20 anos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ana Luiza




Tenho uma flor rara.
Uma flor de inverno e verão.
Uma flor que nunca fecha.
Um presente maior, de amor.
Uma bonequinha na infância, minha companhia de todas as horas.
Hoje, iguais e diferentes em tantos e tantos caminhos, não sei viver sem sentir seu perfume.
Minha nega, minha caçula, meu norte.
Seu nome eu escolhi.
E nós nos escolhemos.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Carnatal









Eu sempre disse, desde muito cedo. Carnaval é meu natal. 

É quando sinto nas pessoas aquele sentimento de congraçamento que deveria haver no final de ano. é quando qualquer pluma vira uma fantasia imensa, é quando os shoppings se esvaziam e as ruas se enchem, as janelas das casas se abrem.

No natal se enfeitam os prédios. No carnaval, as pessoas. 

Este ano, assim, sem pretensão, minha fantasia se fez. 

O rei momo é o meu papai noel. E ele ontem me deu de presente um bloco inteiro. Uma troça. 

Uma troça de carnaval bateu na minha porta. Bateu na glória. E o meu sonho foi tão sonhado que hoje de manhã os vizinhos estavam me agradecendo pela felicidade que provocamos na rua inteira.

Então, um sonho que se sonha sozinho é só um sonho, como dizia o poeta Pessoa. Mas ontem foi realidade. Sonho sonhado junto. Ou pulado, frevado, delirado...

A troça veio igualzinha como nos meus sonhos. Poesia, mas frevo rasgado. No estandarte, as cores e formas do meu amor. 

Aliás, não existe carnaval sem amor. Muita gente acaba o namoro pra brincar no carnaval. Eu acho que carnaval serve pra celebrar o amor. Nunca gostei de passar carnaval sozinha.

Acho que na vida todo mundo tem que ter um filho, plantar uma árvore e fundar um bloco de carnaval.

Agora sou uma agremiação.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Marasmo


Marasmo

Às vezes é até bom....
emoção demais, novidade demais, fazem mal
ao coração.
gosto dos dias em que nada acontece.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Os Jardins Suspensos da Rua da Glória





O rei Nabucodonosor II construiu jardins  suspensos para agradar e consolar sua esposa preferida, Amitis
Jardins que provocaram suspiros, que encantaram tantos amantes e que não por acaso, foram eleitos como uma das sete maravilhas do mundo antigo.
No novo mundo, tantos jardins são construídos em todos os cantos. 
Nenhum tem a força do amor que o meu tem. Em nenhum, o frescor e o afeto que o meu carrega. 
No meu jardim não há grandes construções, mas é uma maravilha. 
As orquídeas estão suspensas, as bromélias dançam no ar. 
De longe juro que é ficção. Parecem enfeitiçadas pelas mãos mágicas de um jardineiro fantástico.
Meu arquiteto fez arte. 
Não são de pedra suas construções. São cabos de aço invisíveis. Fortes laços que seguram as flores frágeis.
Assim como no romance. Assim como no amor.
Meu jardim suspenso não é na Babilônia, mas é uma Glória. A Glória do amor.
Meu arquiteto artista me desenha. As orquídeas nos vêem passar.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

MIRÓ





Hoje eu tive vergonha de escrever. Escrever com palavras tão fofinhas e cor de rosa.
E é isso o que a arte faz com a gente. Bate na cara. Escarna e tira as máscaras.
Hoje senti orgulho de ter vergonha de mim.
Na frente de um grande artista, o que se faz?
Presta-se reverência, e pronto.
Fiz um café da manhã pra Miró.
E em troca ele recitou para a nossa família, uns poemas do ventre.
E se ele não tiver ventre, inventou naquele momento.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Pianíssimo


Este reencontro...
Pode ser um sentimento arrebatador, ou uma pétala.
Posso estar desconfiada, ressabiada, sem sequer conseguir tocá-lo.
Posso chorar, rir, dar pulos de alegria ao vê-lo.
Tantos e tantos anos sem compartilhar.
Sinto o coração descompassado. Não há metrônomo que ajuste sua batida.
Tempo composto, o da abstinência.
Allegro. Não.
Allegro com fúria.
E penso que, ao digitar enquanto construo o texto posso simular também tocá-lo.
Posso fazer deste TIC TAC TIC TAC monótono e insosso, um lamento. Uma dança. Um soneto. Uma sonata. Um noturno.
Nada desafinado.
Desafiado.
Numa escala maior, em êxtase. 

Antes, meio tom.
Agora, tom inteiro.
Acorde maior.
E então me permito sonhar. Escrevoescrevoescrevo. Talvez por isso mesmo veja o som em tudo.
Piano é um instrumento de percussão. E nunca bato na mesma tecla. O teclado do computador também é um instrumento. Faço lá minhas composições.
Agora, volto à interpretação. Sentada frente ao teclado branco e preto.
Todas as claves ao alcance, todos os tempos à mão.

(A Francisco Mendonça, por me fazer sonhar)

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...