quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Dendê na quarta-feira

Tirei logo cedinho o peixe do congelador.

Não sabia ainda como preparar, mas deixei as ideias marinando até as postas chegarem na temperatura ambiente.

Espremi um limão na pescada amarela e deixei descansar.

 

A casa quieta.

Uma quarta-feira morna.

Desmarquei alguns compromissos.

Quem estava de molho era eu.

Pensei em ir ao salão, fazer as unhas pra entrevista marcada às 15h. Mas desisti. Vou assim mesmo do jeitinho que estou.

 

A casa cada vez maior.

No quarto, meu filho ainda dormia.

Meu filho luz.

Luís.

Ele é o caçula que eu aprendo a enxergar adulto.

Acorda, faço um café e a gente fica ali, enrolando o tempo entre um gole e outro, conversando.

Abro a geladeira e vou tirando cebola, tomate, pimentão.

Coloco na bancada óleo de dendê (ousada para quem ainda vai enfrentar a quinta e a sexta...)

Azeite

A tábua de madeira

A faca preferida

E vou montando o peixe.

Abro a geladeira novamente buscando o coentro, que tinha esquecido.

Vou acomodando tudo na panela que esquenta em fogo brando.

As postas de peixe ficam entre os legumes.

Gosto do cheiro que vai subindo desta mistura.

Levanta a fervura e eu tampo.

Luís pega o prato, se serve de arroz e peixe, rega com o molho alaranjado.

 E de repente, me vi dentro de um abraço, assim.

Um abraço que me destemperou. 

E me fez marinar os olhos.

Tanta coisa naquele abraço! Ali no meio da cozinha me senti que nem uma chaleira em ebulição. Entendi que palavras não seriam ingredientes do almoço.


A casa ficou pequena pra mim.

O amor estava no peixe, no arroz, no dendê em plena quarta-feira.

Estava no silêncio, na conversa mais cedo.

É tudo um abraço só.

E ainda é quarta-feira.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Sobre dor e guacamole

 

Sabe aquela sensação de estar deixando o caixa do supermercado, com várias sacolas nas mãos e lembrar, num rompante, que esqueceu de comprar café?

Você interrompe a caminhada por um segundo e só não leva a mão à testa num gesto mecânico porque está segurando as compras.

- Agora já era.

Hoje acordei na hora, com a sensação de estar atrasada. De ter esquecido alguma coisa. O corpo dolorido das dores do mundo. Fiquei deitada um par de minutos, pensando o que fazer da vida.

No dia anterior, fui ao velório de mais uma mulher assassinada pelo ex-amor... O caixão no meio da capela do cemitério de Santo Amaro gritava. Por justiça. Mais uma. Menos uma.

Anteontem, no prédio vizinho, aconteceu quase a mesma coisa. Um golpe do destino fez o agressor errar os 3 tiros. Ele se matou depois.

Eu chego em casa do cemitério meio encerada. Sem sentir nada. Impermeável. Deito na cama e fico ali atônita. Decido ir caminhar na Jaqueira. Fui no automático. Tinha um saxofonista na porta do parque tocando umas músicas... eu caminhei buscando as melodias, que iam e vinham dependendo da minha localização. Eu não tinha nenhum trocado pra deixar dentro do case dele.

Na volta, vejo na geladeira um abacate maduro, já passando do ponto. Corto as cebolas em pequenos quadradinhos, deixo de molho no limão. Amasso com um garfo a polpa do abacate. Corto cheiro verde bem miúdo. Constato que está faltando tomate... rego a massa de abacate com azeite, sal e bastante pimenta do reino. Junto os demais ingredientes. Olho em volta e vejo a pimenta rosa ali dando sopa... misturo no guacamole para dar um toque de cor na pasta verde degradé.

Cortei umas fatias de pão, arrumei tudo na mesa. E a fome passou antes mesmo que eu sentasse.

Estava exausta.

Uma dor no corpo chamava a alma. Uma covardia por dentro clamava por respeito. A minha garganta dolorida de tanto prender o grito.

Me abandonei na cama. Não eram nem sete da noite. Por via das dúvidas, coloquei o termômetro e a temperatura era 36,2°.

Tudo bem, eu pensei.

Deixei a alma sangrar. Fiquei sentindo a dor da morte destas mulheres que eu nem conheci.

Acordei hoje ressacada.

Faltava ovo, queijo, leite, fruta. Saí relutante da cama, fui ao supermercado. O leite mais de R$6,00. Melhor comprar suco de uva.

Eu ainda arrastava o lençol.

Cheguei no caixa, conversei um pouco com a operadora, digitei a senha e nem olhei o valor. Guardei a nota. Quando arrumei todas as sacolas nas mãos, tendo o cuidado de deixar mais livre a sacola da doação que iria fazer na porta do supermercado, lembrei do café.

- Agora já foi.

Entreguei dois pacotes de biscoito waffle de chocolate pra Tayane, que fica sempre ali com seu filho, pedindo ajuda. Nem sempre eu atendo aos pedidos dela, e quando o faço, compro coisas mais básicas como cuscuz, arroz, macarrão...

Hoje eu decidi comprar pro pequeno, que não chega a ter 6 anos. Quando entreguei, ele pediu pra comer e, me afastando, ouvi da mãe:

- esse é tão bom que eu vou vender.

E o menino:

- mas mãe, estou com fome.

E a mãe:

- Grande coisa... eu também.

...

Meu coração já vinha apertado. Já vinha sem bater.

Foi ali que me acabei de vez.

Em casa, tirei o guacamole da geladeira,e joguei no lixo. 

Tinha apodrecido.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

caça às bruxas

O fogo que cozinha meus desejos

é o mesmo que carboniza meus sonhos


Em que tempo as mulheres não foram queimadas em praça pública?

Se brilha demais

Se ama demais

Se deseja demais

Se é grande demais 


O molde não nos cabe


A fogueira que me mata é a mesma que me aquece.

Hoje uma mulher foi queimada dentro de casa

Outro dia, foi no Cais de Santa Rita


Eu queimo junto com elas.

Elas viram números. 

São imortalizadas nas manchetes cada vez mais voláteis

O fogo deixa marcas em mim.


Nossos corpos públicos não são de ninguém

Nossos corpos públicos são de todo mundo

Nossos corpos públicos não são nossos


Eu ando pelas ruas 

Insisto em existir

 

Há uma fogueira em cada esquina

Um tribunal em cada link

Um julgamento em cada like


As bruxarias seguem fora da lei.

1095 dias

 


Comemore as suas batalhas

As derrotas 

Os êxitos

Vale comemorar as perdas

Os ganhos

As dores

As curas

Conte as cicatrizes

Cuide das feridas

Permita a desconstrução

E o renascimento

Se deixe crescer

Expandir

Permita o voo

Um dia, quando menos esperar, 

Você acorda beija-flor.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

conto de fadas

 

Era madrugada e a menina acordava num salto.

Um facho de luz vinha da sala.

Deslizava entre os lençóis, seus pés pequeninos tocavam o chão. O corredor era imenso! Ela descia os dois degraus e estava na sala de jantar.

- Não consigo dormir...

A luz acesa sobre a mesa iluminava muitos papeis. Mapas gigantes para os seus olhos tão pequenos.

Lá fora, o silêncio era cortado pelos grilos, o coaxar de uma ou outra rã... ou seria sapo...

Ela esfregava os olhos cansados.

- Já é de madrugada?

Nem bem conseguia, em pé, alcançar o tampo da mesa. Espichava-se na ponta de bailarina.

Aquelas noites de trabalho do pai eram especiais. Ele cansado do dia, esticando o expediente.

- Me conta uma história?

Segurava na sua mão, subia os dois degraus, atravessava o corredor imenso... tudo ia ficando penumbra.

Deitava a menina na cama, embrulhava com o lençol.

- Você é o meu presente.

Começava uma fábula qualquer, construída na hora. Eram histórias de agricultores, de cabrinhas professoras, de pessoas que se alfabetizavam.

A voz do pai, vencida pelo cansaço, ia ficando lenta.

A menina cutucava.

-Acabou?

Ele voltava à narrativa.

- Pai, conta uma de princesa?

Ele já não ouvia. Ressonava.

A menina se aninhava, enrolada no lençol.

Quiçá, sonhava com princesas, que libertariam agricultores... ou com príncipes professores de animais que ainda não sabiam ler. Ou com fadas madrinhas que, com suas varinhas, fariam a revolução.

Esta lembrança longínqua, de noites e noites e noites de conversa sussurrando pra não acordar a casa, desperta de um longo sono. Hoje a menina escreve suas próprias histórias. Revira memórias, dá nome aos sentimentos e embrulha tudo pra presente. 

Graças ao pai.

amor roubado

 

A saudade me paralisou

Engasgou a infância

Meus dez anos tomados de assalto


Perdi tanto:

as flores no quintal

as histórias antes de dormir


Um amor roubado


Os finais de semana programados

e a nossa tristeza quinzenal

eram traduzidos

nas paredes grossas

nas janelas pequenas

no pão torrado demais


Passei a acordar de madrugada

a  procurar seus vestígios

passei a querer esquecer 

mas era a dor que não passava


Lembro do cheiro

dos móveis comprados de segunda mão

na Rua da Conceição:

a mesa redonda de jacarandá

as cadeiras de madeira com encosto e assento de palha trançada

os lençóis estampados com babado azul

o jogo de damas

os brinquedinhos de chumbo


Lembro dos olhos dele

nos tempos mais turvos

quando me visitava na escola


Queria esquecer


Cresci silenciando

emudeci amadurecendo

a saudade que sentia

dos sanduíches de bolacha cream cracker com geleia de mocotó

de ser “embrulhada como múmia" 

da vitamina de abacate que não gostava de tomar de manhã

de visitar o peixe boi na Praça do Derby

de comer sanduíche de queijo no drive in


Trancaram meu peito

Perdi a chave

Construí um muro

Escondi a poesia


Era tudo saudade do meu pai

sábado, 10 de julho de 2021

Sábado



Depois da feira orgânica, café da manhã com mulheres queridas. Cada uma com sua história de vida. 

A pequena mesa redonda no terraço congraça nossas rotinas. 

A chuva caindo como cortina ali pertinho evoca os banhos na infância, as bicas de telha...

Em casa, experimento um momento só meu. Raro. 

A cozinha me convida pra um diálogo. 

Hoje quero leveza.

Um salmão com gergelim ao forno, ainda molhadinho... Batata doce assada. Na frigideira, cebolinha roxa, cogumelos de Paris e cenoura caramelizados. 

Não, não é sobre culinária.

É sobre prazer!

É sobre cozinhar pra si mesma e depois passar um café e comer um quadradinho de chocolate amargo, vendo aquele filme francês.

É sobre sentir devagar a crocância da cenoura, o sabor forte da cebolinha, a maciez do cogumelo e experimentar em cada garfada uma combinação diferente.

É sobre afagar o desejo de viver.

E amar a batata doce assada polvilhada com pimenta do reino. 

E sentir o salmão derretendo a cada mordida.

É sobre respeitar seu sábado. 

E prolongar a sensação de abraço.


Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...