quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Um teatro é um abraço



Não leve em consideração esta foto amadora. Foi o melhor que consegui. A luz estourada, a falta de foco e enquadramento, a evidência na cortina encarnada com franjas douradas, os arabescos que aparecem na penumbra e quase nada dizem do momento que vivi. O piano parece até mais magro na imagem, uma perspectiva pouco usual. O pianista, que tinha o holofote sobre si, no meu registro é um homem sem rosto. O artista com pele de cera.
- E porque, então insistir em publicar e descrever uma foto tão insignificante?
- Pela força do momento.
O palco é do Teatro de Santa Isabel. Desde criança frequento o lugar. Já vi espetáculo da plateia, dos camarotes, das frisas, da torrinha e até das coxias. Já estive na plateia e no palco. Ri e chorei. Aplaudi, pedi bis. De monólogo a orquestra. Peça infantil e dança. Teatro de bonecos e coral. Eu poderia lembrar muito mais.
Um teatro é
um abraço
. E no desenho do Santa Isabel, o abraço é real. As frisas contornam a plateia. São braços sinuosos e roliços que envolvem as cadeiras.
O que posso ver além da foto é a emoção de ter voltado ao teatro depois de um ano e oito meses de jejum. Acho que nunca fiquei tanto tempo sem pisar ali. Fui chegando e logo na porta recebi a acolhida de dona Ivete, que vende cerveja, café, confeito, chocolate e pipoca.
-Quanto tempo! Foi ela me falando, em tom de festa.
O que posso ver além da foto é o cheiro da sala de espetáculo, o meu pé pisando no carpete macio, as escadas que me conduzem ao meu lugar. O toque triplo que avisa o início do espetáculo. As luzes se apagando aos poucos. A expectativa de comungar de mais uma aventura.
Hoje foi o primeiro concerto desde o início da pandemia. O teatro estava “lotado”, com apenas 30% da capacidade ocupada. E eu lá 😊
E o espetáculo? O piano esculpido e lapidado de Luís Felipe Oliveira. A música que atravessa a gente sem parcimônia. A capacidade de revirar as tripas da alma. O pernambucano de gravatá flui. Interpreta Beethoven, Lizt, Dutilleux e Chopin num diálogo forte, doce, emocionado. Na minha cadeira, os óculos ficaram embaçados algumas vezes. A alegria de compartilhar tudo aquilo. A força da arte.
O tempo passou espichado, querendo que não acabasse nunca. Na última peça um quinteto de cordas acompanhou o pianista. E eu ali querendo absorver cada segundo. Laila no palco com sua viola, uma sianinha que enfeita as vestes da minha ânima.
Quando a luz acendeu, eu já estava em pé. Um grito de BRAVO me saiu inadvertidamente, meio tímido ao mesmo tempo. Como se o distanciamento social ou a abstinência tivessem de alguma forma me atingido.
O espetáculo acabou e eu juro a vocês que trouxe partes deles comigo. Aliás, acho que ele começou muito antes, quando Dante me convidou para ir ao teatro. Quando escolhi o vestido e pedi o uber. Quando desci com Luís e Lis e nos juntamos a Dante no café do Teatro. O primeiro marejar foi fruto de me ver com meus filhos na frisa. Tão pequeninos eu os trazia pelas mãos nos domingos de tarde. Senti o passado com seu negativo não revelado projetando as imagens...
Saí do Teatro meio muda, meio exausta. Meio saudosa, meio de ressaca de tanto sentir. Saí querendo que o teatro me abraçasse mais um pouco. E querendo também descansar. Saí como uma criança que ama e se exaure na primeira festa de aniversário.
Aqui muito pra nós, acho que o Santa Isabel estava também saudoso de mim. Minha crônica poética dá conta disso. Meus versos de algum jeito também são filhos daquelas paredes seculares. Sou bisneta ou afilhada da arquitetura. Sou formada nesta escola.
Eu só pensava em chegar em casa, escrever este texto antes que ele se diluísse na minha rotina de amanhã.

domingo, 3 de outubro de 2021

Passiflora

 

Acordei de um sonho ruim. Prefiro nem contar. É de arrepiar, de fazer chorar.

Vomitei o sonho no meu dia. 

Já começou atravessado. O céu estava azul, aquele infinito riscado de branco. Não combinava com meu espírito.

Mas também... nunca fui chegada a combinações. Sapato da mesma cor de bolsa, conjunto de saia e blusa... nunca foi a minha mesmo. Prefiro os desencontrados.

Um degradê de sentimentos

Camadas recheadas com memórias reviradas

Outras exumadas

De onde vem tanta lembrança?

 

Fui comprar o pão, fiz o café, sentei à mesa.

 

Insisto em manter a rotina. É uma maneira de apaziguar o devaneio que bate à porta da mente e tem vocação para incensar a alma.

Acordei deste pesadelo simbolicamente hoje.

Cada pessoa tem o seu, pensei no meu íntimo.

Ele me visita cada vez com menos frequência. Sinal que está se esvaindo, eu rogo.

São 8h da manhã, faz três horas que acordei e ainda não emiti uma palavra sequer. Mas a mente prolixa ensaia o monólogo. A plateia sou eu mesma. O Palco imenso para uma única cadeira ocupada.

Foi somente um sonho ruim, tento me convencer.

Rasgo o pão com a mão enquanto a serra aguarda ao lado. O café vai puro mesmo.

De doce, basta a vida, eu prego.

Eu não devia comer tanto pão, nem tanto glúten, nem tanto trigo.

Mastigo o pão e ele me remete ao sonho. Brinco comigo mesma.

O sonho não acabou. O de hoje veio recheado com creme de dor.

Mastigo o sonho de cada dia, engulo seu enredo e saio para a rua.

Mais tarde eu tomo uma passiflora.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

alinhavando

 

Tento aproveitar um momento de paz, ou de solidão, pra escrever.

Devo ter meia hora, no máximo.

Estou aqui no trabalho. Calhou de estar sozinha na sala. 

Lá longe ouço o barulho da reforma do elevador. Martelos, serras elétricas.

E, ainda assim, eu comecei este texto dizendo que estou em paz.

Nos últimos dias a lua cheia pendurada no céu do Recife deve ter mexido comigo.

Alternei entre marés muito altas e outras baixinhas.

Ressaca.

Fortes ondas de memória, ventos transformadores. Longas caminhadas.

Dizem que a lua conversa com as mulheres, assim como dita ordens aos ventos.

Esta lua me trouxe lucidez.

Dessas avassaladoras. Dessas estruturantes. Dessas desconcertantes.

Uma reforma interna, menos barulhenta do que a que eu ouço agora.

É preciso caber em si.

Um trabalho...

Sim! Um trabalho!

Eu sou este jogo que se monta e desmonta. 

Que remonta e desconstrói.

Tenho produzido novas peças. 

Como quem faz um crochê, desenhando com linha e agulha figuras aleatórias. 

Vou desenhando e desfazendo. 

Alinhavando 

Contando histórias, calejando os dedos, cada ponto, seu lugar.

Lembro das minhas avós, mestras no crochê.

Elas faziam lindas roupas pra mim, pras bonecas, faziam colchas e redes. 

Tudo a partir do fio e de uma agulha com ponta rombuda.

Quais pensamentos elas cosiam enquanto desenhavam com a linha?

A precisão de fazer arte, de vestir e adornar, a partir de quase nada.

É preciso caber em si.

O exercício é diário.

As luas minguam, crescem, novas.

Eu caminho pra dentro.

A reforma lá fora silenciou. 

Deve ser a hora do almoço. 

domingo, 5 de setembro de 2021

mais uma dose

 


Saí de casa com uns pinguinhos me beijando

Céu azul pingando pequenas bênçãos

Mania de ver o que não existe

 

- Justo hoje, que tirei a sombrinha da bolsa

 

É setembro

 

Tomei a segunda dose

Mais serena

Mais emocionada

Mais acomodada nesta noite sem fim que é a pandemia

 

Mais uma lapada

Mais uma dose

 

A agulha entrou doendo, formigando.

O coração acelerou

Os olhos marejaram

Não durou um minuto

 

O Recife continua o mesmo

Gente acampando nas ruas

Fome crescendo nos canteiros

Rio brilhando sob as pontes

 

Um ar de domingo impregnando

Aquela sensação de lavar a alma

Vestir a roupa do dia

Celebrar sem fim

Os ciclos renovados

 

Nada diferente

E uma coisa mudou

É dose!!!

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Dendê na quarta-feira

Tirei logo cedinho o peixe do congelador.

Não sabia ainda como preparar, mas deixei as ideias marinando até as postas chegarem na temperatura ambiente.

Espremi um limão na pescada amarela e deixei descansar.

 

A casa quieta.

Uma quarta-feira morna.

Desmarquei alguns compromissos.

Quem estava de molho era eu.

Pensei em ir ao salão, fazer as unhas pra entrevista marcada às 15h. Mas desisti. Vou assim mesmo do jeitinho que estou.

 

A casa cada vez maior.

No quarto, meu filho ainda dormia.

Meu filho luz.

Luís.

Ele é o caçula que eu aprendo a enxergar adulto.

Acorda, faço um café e a gente fica ali, enrolando o tempo entre um gole e outro, conversando.

Abro a geladeira e vou tirando cebola, tomate, pimentão.

Coloco na bancada óleo de dendê (ousada para quem ainda vai enfrentar a quinta e a sexta...)

Azeite

A tábua de madeira

A faca preferida

E vou montando o peixe.

Abro a geladeira novamente buscando o coentro, que tinha esquecido.

Vou acomodando tudo na panela que esquenta em fogo brando.

As postas de peixe ficam entre os legumes.

Gosto do cheiro que vai subindo desta mistura.

Levanta a fervura e eu tampo.

Luís pega o prato, se serve de arroz e peixe, rega com o molho alaranjado.

 E de repente, me vi dentro de um abraço, assim.

Um abraço que me destemperou. 

E me fez marinar os olhos.

Tanta coisa naquele abraço! Ali no meio da cozinha me senti que nem uma chaleira em ebulição. Entendi que palavras não seriam ingredientes do almoço.


A casa ficou pequena pra mim.

O amor estava no peixe, no arroz, no dendê em plena quarta-feira.

Estava no silêncio, na conversa mais cedo.

É tudo um abraço só.

E ainda é quarta-feira.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Sobre dor e guacamole

 

Sabe aquela sensação de estar deixando o caixa do supermercado, com várias sacolas nas mãos e lembrar, num rompante, que esqueceu de comprar café?

Você interrompe a caminhada por um segundo e só não leva a mão à testa num gesto mecânico porque está segurando as compras.

- Agora já era.

Hoje acordei na hora, com a sensação de estar atrasada. De ter esquecido alguma coisa. O corpo dolorido das dores do mundo. Fiquei deitada um par de minutos, pensando o que fazer da vida.

No dia anterior, fui ao velório de mais uma mulher assassinada pelo ex-amor... O caixão no meio da capela do cemitério de Santo Amaro gritava. Por justiça. Mais uma. Menos uma.

Anteontem, no prédio vizinho, aconteceu quase a mesma coisa. Um golpe do destino fez o agressor errar os 3 tiros. Ele se matou depois.

Eu chego em casa do cemitério meio encerada. Sem sentir nada. Impermeável. Deito na cama e fico ali atônita. Decido ir caminhar na Jaqueira. Fui no automático. Tinha um saxofonista na porta do parque tocando umas músicas... eu caminhei buscando as melodias, que iam e vinham dependendo da minha localização. Eu não tinha nenhum trocado pra deixar dentro do case dele.

Na volta, vejo na geladeira um abacate maduro, já passando do ponto. Corto as cebolas em pequenos quadradinhos, deixo de molho no limão. Amasso com um garfo a polpa do abacate. Corto cheiro verde bem miúdo. Constato que está faltando tomate... rego a massa de abacate com azeite, sal e bastante pimenta do reino. Junto os demais ingredientes. Olho em volta e vejo a pimenta rosa ali dando sopa... misturo no guacamole para dar um toque de cor na pasta verde degradé.

Cortei umas fatias de pão, arrumei tudo na mesa. E a fome passou antes mesmo que eu sentasse.

Estava exausta.

Uma dor no corpo chamava a alma. Uma covardia por dentro clamava por respeito. A minha garganta dolorida de tanto prender o grito.

Me abandonei na cama. Não eram nem sete da noite. Por via das dúvidas, coloquei o termômetro e a temperatura era 36,2°.

Tudo bem, eu pensei.

Deixei a alma sangrar. Fiquei sentindo a dor da morte destas mulheres que eu nem conheci.

Acordei hoje ressacada.

Faltava ovo, queijo, leite, fruta. Saí relutante da cama, fui ao supermercado. O leite mais de R$6,00. Melhor comprar suco de uva.

Eu ainda arrastava o lençol.

Cheguei no caixa, conversei um pouco com a operadora, digitei a senha e nem olhei o valor. Guardei a nota. Quando arrumei todas as sacolas nas mãos, tendo o cuidado de deixar mais livre a sacola da doação que iria fazer na porta do supermercado, lembrei do café.

- Agora já foi.

Entreguei dois pacotes de biscoito waffle de chocolate pra Tayane, que fica sempre ali com seu filho, pedindo ajuda. Nem sempre eu atendo aos pedidos dela, e quando o faço, compro coisas mais básicas como cuscuz, arroz, macarrão...

Hoje eu decidi comprar pro pequeno, que não chega a ter 6 anos. Quando entreguei, ele pediu pra comer e, me afastando, ouvi da mãe:

- esse é tão bom que eu vou vender.

E o menino:

- mas mãe, estou com fome.

E a mãe:

- Grande coisa... eu também.

...

Meu coração já vinha apertado. Já vinha sem bater.

Foi ali que me acabei de vez.

Em casa, tirei o guacamole da geladeira,e joguei no lixo. 

Tinha apodrecido.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

caça às bruxas

O fogo que cozinha meus desejos

é o mesmo que carboniza meus sonhos


Em que tempo as mulheres não foram queimadas em praça pública?

Se brilha demais

Se ama demais

Se deseja demais

Se é grande demais 


O molde não nos cabe


A fogueira que me mata é a mesma que me aquece.

Hoje uma mulher foi queimada dentro de casa

Outro dia, foi no Cais de Santa Rita


Eu queimo junto com elas.

Elas viram números. 

São imortalizadas nas manchetes cada vez mais voláteis

O fogo deixa marcas em mim.


Nossos corpos públicos não são de ninguém

Nossos corpos públicos são de todo mundo

Nossos corpos públicos não são nossos


Eu ando pelas ruas 

Insisto em existir

 

Há uma fogueira em cada esquina

Um tribunal em cada link

Um julgamento em cada like


As bruxarias seguem fora da lei.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...