quinta-feira, 14 de outubro de 2021
Um teatro é um abraço
domingo, 3 de outubro de 2021
Passiflora
Acordei de um sonho ruim. Prefiro nem contar. É de arrepiar, de fazer chorar.
Vomitei o sonho no meu dia.
Já começou atravessado. O céu
estava azul, aquele infinito riscado de branco. Não combinava com meu espírito.
Mas também... nunca fui chegada a combinações. Sapato da
mesma cor de bolsa, conjunto de saia e blusa... nunca foi a minha mesmo. Prefiro
os desencontrados.
Um degradê de sentimentos
Camadas recheadas com memórias reviradas
Outras exumadas
De onde vem tanta lembrança?
Fui comprar o pão, fiz o café, sentei à mesa.
Insisto em manter a rotina. É uma maneira de apaziguar o
devaneio que bate à porta da mente e tem vocação para incensar a alma.
Acordei deste pesadelo simbolicamente hoje.
Cada pessoa tem o seu, pensei no meu íntimo.
Ele me visita cada vez com menos frequência. Sinal que está
se esvaindo, eu rogo.
São 8h da manhã, faz três horas que acordei e ainda não
emiti uma palavra sequer. Mas a mente prolixa ensaia o monólogo. A plateia sou
eu mesma. O Palco imenso para uma única cadeira ocupada.
Foi somente um sonho ruim, tento me convencer.
Rasgo o pão com a mão enquanto a serra aguarda ao lado. O
café vai puro mesmo.
De doce, basta a vida, eu prego.
Eu não devia comer tanto pão, nem tanto glúten, nem tanto
trigo.
Mastigo o pão e ele me remete ao sonho. Brinco comigo mesma.
O sonho não acabou. O de hoje veio recheado com creme de dor.
Mastigo o sonho de cada dia, engulo seu enredo e saio para a
rua.
Mais tarde eu tomo uma passiflora.
quarta-feira, 22 de setembro de 2021
alinhavando
Tento aproveitar um momento de paz, ou de solidão, pra
escrever.
Devo ter meia hora, no máximo.
Estou aqui no trabalho. Calhou de estar sozinha na sala.
Lá longe ouço o barulho da reforma do elevador. Martelos, serras elétricas.
E, ainda assim, eu comecei este texto dizendo que estou em
paz.
Nos últimos dias a lua cheia pendurada no céu do Recife deve
ter mexido comigo.
Alternei entre marés muito altas e outras baixinhas.
Ressaca.
Fortes ondas de memória, ventos transformadores. Longas caminhadas.
Dizem que a lua conversa com as mulheres, assim como dita ordens
aos ventos.
Esta lua me trouxe lucidez.
Dessas avassaladoras. Dessas estruturantes. Dessas
desconcertantes.
Uma reforma interna, menos barulhenta do que a que eu ouço agora.
É preciso caber em si.
Um trabalho...
Sim! Um trabalho!
Eu sou este jogo que se monta e desmonta.
Que remonta e
desconstrói.
Tenho produzido novas peças.
Como quem faz um crochê, desenhando com linha e agulha figuras aleatórias.
Vou desenhando e desfazendo.
Alinhavando
Contando histórias, calejando os dedos, cada ponto, seu
lugar.
Lembro das minhas avós, mestras no crochê.
Elas faziam lindas roupas pra mim, pras bonecas, faziam colchas e redes.
Tudo a partir do fio e de uma agulha com ponta rombuda.
Quais pensamentos elas cosiam enquanto desenhavam com a
linha?
A precisão de fazer arte, de vestir e adornar, a partir de
quase nada.
É preciso caber em si.
O exercício é diário.
As luas minguam, crescem, novas.
Eu caminho pra dentro.
A reforma lá fora silenciou.
Deve ser a hora do almoço.
domingo, 5 de setembro de 2021
mais uma dose
Saí de casa com uns pinguinhos me beijando
Céu azul pingando pequenas bênçãos
Mania de ver o que não existe
- Justo hoje, que tirei a sombrinha da bolsa
É setembro
Tomei a segunda dose
Mais serena
Mais emocionada
Mais acomodada nesta noite sem fim que é a pandemia
Mais uma lapada
Mais uma dose
A agulha entrou doendo, formigando.
O coração acelerou
Os olhos marejaram
Não durou um minuto
O Recife continua o mesmo
Gente acampando nas ruas
Fome crescendo nos canteiros
Rio brilhando sob as pontes
Um ar de domingo impregnando
Aquela sensação de lavar a alma
Vestir a roupa do dia
Celebrar sem fim
Os ciclos renovados
Nada diferente
E uma coisa mudou
É dose!!!
quarta-feira, 25 de agosto de 2021
Dendê na quarta-feira
Tirei logo cedinho o peixe do congelador.
Não sabia ainda como preparar, mas deixei as ideias
marinando até as postas chegarem na temperatura ambiente.
Espremi um limão na pescada amarela e deixei descansar.
A casa quieta.
Uma quarta-feira morna.
Desmarquei alguns compromissos.
Quem estava de molho era eu.
Pensei em ir ao salão, fazer as unhas pra
entrevista marcada às 15h. Mas desisti. Vou assim mesmo do jeitinho que estou.
A casa cada vez maior.
No quarto, meu filho ainda dormia.
Meu filho luz.
Luís.
Ele é o caçula que eu aprendo a enxergar adulto.
Acorda, faço um café e a gente fica ali, enrolando o tempo
entre um gole e outro, conversando.
Abro a geladeira e vou tirando cebola, tomate, pimentão.
Coloco na bancada óleo de dendê (ousada para quem ainda vai
enfrentar a quinta e a sexta...)
Azeite
A tábua de madeira
A faca preferida
E vou montando o peixe.
Abro a geladeira novamente buscando o coentro, que tinha
esquecido.
Vou acomodando tudo na panela que esquenta em fogo brando.
As postas de peixe ficam entre os legumes.
Gosto do cheiro que vai subindo desta mistura.
Levanta a fervura e eu tampo.
Luís pega o prato, se serve de arroz e peixe, rega com o
molho alaranjado.
Um abraço que me destemperou.
E me fez marinar os olhos.
Tanta coisa naquele abraço! Ali no meio da cozinha me senti que nem uma
chaleira em ebulição. Entendi que palavras não seriam ingredientes do almoço.
A casa ficou pequena pra mim.
O amor estava no peixe, no arroz, no dendê em plena
quarta-feira.
Estava no silêncio, na conversa mais cedo.
É tudo um abraço só.
E ainda é quarta-feira.
sexta-feira, 13 de agosto de 2021
Sobre dor e guacamole
Sabe aquela sensação de estar deixando o caixa do
supermercado, com várias sacolas nas mãos e lembrar, num rompante, que esqueceu
de comprar café?
Você interrompe a caminhada por um segundo e só não leva a
mão à testa num gesto mecânico porque está segurando as compras.
- Agora já era.
Hoje acordei na hora, com a sensação de estar atrasada. De ter
esquecido alguma coisa. O corpo dolorido das dores do mundo. Fiquei deitada um
par de minutos, pensando o que fazer da vida.
No dia anterior, fui ao velório de mais uma mulher
assassinada pelo ex-amor... O caixão no meio da capela do cemitério de Santo
Amaro gritava. Por justiça. Mais uma. Menos uma.
Anteontem, no prédio vizinho, aconteceu quase a mesma coisa.
Um golpe do destino fez o agressor errar os 3 tiros. Ele se matou depois.
Eu chego em casa do cemitério meio encerada. Sem sentir
nada. Impermeável. Deito na cama e fico ali atônita. Decido ir caminhar na Jaqueira.
Fui no automático. Tinha um saxofonista na porta do parque tocando umas
músicas... eu caminhei buscando as melodias, que iam e vinham dependendo da
minha localização. Eu não tinha nenhum trocado pra deixar dentro do case dele.
Na volta, vejo na geladeira um abacate maduro, já passando
do ponto. Corto as cebolas em pequenos quadradinhos, deixo de molho no limão.
Amasso com um garfo a polpa do abacate. Corto cheiro verde bem miúdo. Constato que
está faltando tomate... rego a massa de abacate com azeite, sal e bastante
pimenta do reino. Junto os demais ingredientes. Olho em volta e vejo a pimenta
rosa ali dando sopa... misturo no guacamole para dar um toque de cor na pasta
verde degradé.
Cortei umas fatias de pão, arrumei tudo na mesa. E a fome
passou antes mesmo que eu sentasse.
Estava exausta.
Uma dor no corpo chamava a alma. Uma covardia por dentro
clamava por respeito. A minha garganta dolorida de tanto prender o grito.
Me abandonei na cama. Não eram nem sete da noite. Por via das
dúvidas, coloquei o termômetro e a temperatura era 36,2°.
Tudo bem, eu pensei.
Deixei a alma sangrar. Fiquei sentindo a dor da morte destas
mulheres que eu nem conheci.
Acordei hoje ressacada.
Faltava ovo, queijo, leite, fruta. Saí relutante da cama, fui
ao supermercado. O leite mais de R$6,00. Melhor comprar suco de uva.
Eu ainda arrastava o lençol.
Cheguei no caixa, conversei um pouco com a operadora,
digitei a senha e nem olhei o valor. Guardei a nota. Quando arrumei todas as
sacolas nas mãos, tendo o cuidado de deixar mais livre a sacola da doação que
iria fazer na porta do supermercado, lembrei do café.
- Agora já foi.
Entreguei dois pacotes de biscoito waffle de chocolate pra Tayane,
que fica sempre ali com seu filho, pedindo ajuda. Nem sempre eu atendo aos
pedidos dela, e quando o faço, compro coisas mais básicas como cuscuz, arroz,
macarrão...
Hoje eu decidi comprar pro pequeno, que não chega a ter 6
anos. Quando entreguei, ele pediu pra comer e, me afastando, ouvi da mãe:
- esse é tão bom que eu vou vender.
E o menino:
- mas mãe, estou com fome.
E a mãe:
- Grande coisa... eu também.
...
Meu coração já vinha apertado. Já vinha sem bater.
Foi ali que me acabei de vez.
Em casa, tirei o guacamole da geladeira,e joguei no lixo.
Tinha apodrecido.
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
caça às bruxas
O fogo que cozinha meus desejos
é o mesmo que carboniza meus sonhos
Em que tempo as mulheres não foram queimadas em praça pública?
Se brilha demais
Se ama demais
Se deseja demais
Se é grande demais
O molde não nos cabe
A fogueira que me mata é a mesma que me aquece.
Hoje uma mulher foi queimada dentro de casa
Outro dia, foi no Cais de Santa Rita
Eu queimo junto com elas.
Elas viram números.
São imortalizadas nas manchetes cada vez mais voláteis
O fogo deixa marcas em mim.
Nossos corpos públicos não são de ninguém
Nossos corpos públicos são de todo mundo
Nossos corpos públicos não são nossos
Eu ando pelas ruas
Insisto em existir
Há uma fogueira em cada esquina
Um tribunal em cada link
Um julgamento em cada like
As bruxarias seguem fora da lei.
Horizonte
Pausar. Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...
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Pausar. Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...
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O mormaço emerge do chão. A chuva fina que cai insegura se desfaz antes de tocar no solo. O suor que traça caminhos incertos pelas minhas c...
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Hoje é véspera de natal e eu desejo imensamente a vida. Que a gente continue desejando Um sorvete, um beijo, uma viagem Uma fatia de...

