quarta-feira, 23 de março de 2016

Baobá

Eu sonho em ser o Baobá da Praça da República.
Impávido. Imponente. Sereno.
Inatingível e sobrevivente.
Eu quero ser o Baobá. Ser a raiz, seu tronco imenso e solitário.
Meus galhos para o céu adornam o azul, quando sol.
Abrigam os pingos do cinza.
Sou um baobá.
Tenho certeza.
Passo pela praça da república e desejo imensamente ser a árvore forte.
Estou quase sendo um baobá.
O imenso vazio que há dentro de cada um é como meu coração.
Estar vazio não é de todo ruim.
Antes vazio que cheio de dor.
Desejo ser o baobá que não cede às chuvas, que não curva diante da tempestade.
Na minha pretensão, desejo. Rogo. Imploro.
Por esta placidez. Por esta imensa vida soberana.
Qual nada!
Não passo de uma erva daninha que, simbiótica, fofoca embaixo da sua sombra com raízes superficiais.
Sou a pequena folha que cai no final da tarde e flana pelos jardins ao sabor do vento.
E, pequena que sou, sonho grande.
Sim, quem sabe um dia, serei um baobá....



terça-feira, 15 de março de 2016

quando Naná se encantou

Ah,meu filho! Quando a gente emudece, é urgente que alguém nos traduza, que alguém nos ajude a tirar do peito o bloqueio que um grande choque pode provocar. Sabe-se lá porque, somente agora vi teu texto. Talvez, a providência. A dor pelo encantamento de Naná, eu guardei.
Agora, ligada a você pelos satélites e pelas redes, sinto uma maré leve me encharcando... a maré que nos inunda aos poucos. A força necessária que a dor provoca, pra depois ser saudade, ou lembrança, ou nostalgia... No caso de Naná, eu pergunto: será que vai quem tanto deixou? beijo. Eu aqui no Atlântico. Você, no Ártico. 
Você, meu tradutor:
"Ver Naná no palco era sentir tudo que a nossa cultura pode proporcionar. Um mestre que fez o mundo se ajoelhar às suas alfaias, berimbáus, gonguês, abês, ganzas e o que mais colocassem nas mãos de Naná. Já dizia Otto que "o celular de Naná é a Lua, e a Lua é o celular de Naná". Ele não era desse mundo. Hoje suas baquetas repousam sobre o couro das alfaias, mas o estridor do seu batuque reverberará para sempre no Recife, em Pernambuco, no mundo... na Lua.
Vai ser difícil ir pro Marco Zero numa sexta-feira de Carnaval e não ter o Mestre Naná para reger os mais de 500 batuqueiros de maracatu. Obrigado por tudo, Naná! A Cultura Pernambucana vivia em você, e agora você vive na nossa cultura, eternamente."

( Para Dante Aguaçã, meu prólogo ao seu texto)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Sem remédio

Quero hoje falar da minha dor. Da dor mais forte do que eu, da dor que inunda qual enxurrada e cobre de lama todo meu jardim.
Quero hoje sentir a dor. Numa tentativa louca de gastar e diminuir o volume à porta do peito. 
esquecer e esconder a dor não tem sido eficaz. Quero me solidarizar com a minha dor, sentar na mesma mesa e dividir o mesmo copo. 
Chora, minha dor. Chora. 
Desafoga o peito, que só assim tudo se vai. 
Atrás da dor deve haver um campo vasto e forte. Verde e profícuo.
Quero hoje que a dor me ouça. Quero que a minha solidão me acompanhe. Que depois do almoço possamos desfrutar de um café sem pressa e sem açúcar. De doce, basta a vida. 
Minha ironia e minha dor são íntimas. 
Minha dor é filha da saudade, mãe da minha maternidade, irmã da alma. 
Atravessamos a rua juntas, dormimos e acordamos lado a lado. 
Minha dor não dói no corpo. Não tem analgesia. 
Onde dói? Não sei. 
Onde cura? Não sei. 
Que remédio? 
Sente a dor. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Saudade, Clarice



O tamanho da alma da gente ninguém pode medir.
E quanto mais larga, mais profunda e mais densa, mais abriga sentimentos. E insanidades. 
Não existe um tamanho padrão, nem sequer uma grade de números que encaixam ou se enquandram.
Eu, como todo mundo, não sei o tamanho da minha. 
Calço 35. Visto 40. Tenho um grau de miopia. 
Mas a alma, flutua. 
Só sei que hoje ela está inundada, ou seria irrigada? 
Costumo dizer que sou uma pessoa das águas, porque choro de alegria e de tristeza. Choro de orgulho e de vergonha. Choro de graça. 
Hoje a alma está, assim, adolescente. 
Nasci em 1972. Quando comecei a ler Clarice ela já tinha partido. 
E será que parte quem deixa tanto? Mas Clarice me pegou forte por suas narrativas existenciais.
Foram anos relendo tudo como se fosse a primeira vez. Não sou especialista em Clarice. Sou leitora dela.
Hoje eu encontrei Clarice. E ela ouviu a minha música. E ela me fez ouvir a minha música. Passei 20 anos sem tocar.
 
E que presente tocar para Clarice! O bairro dela é também o meu. Somos vizinhas de um tempo desigual.
Quando subiram os créditos eu nem sabia o que falar. E ainda não sei.
Mas tinha que escrever. Num medo de perder o sentimento, que se infiltra em tantas vielas e travessas.
Tudo tão particular e universal.
Hoje a minha alma é toda de Clarice.
No São Luiz vejo o rio beijando a aurora e o sol e mais uma vez deixo os olhos livres.
Só gratidão. O prelúdio da gota d'água de Chopin tem outro sentido pra mim a partir de hoje.
( Para Taciana Oliveira, que montou a vida de Clarice e me fez tocar para ela)

sábado, 12 de dezembro de 2015

Avaria

Avaria é a alma vazia
Avaria é a alma sem peso.
O peso de não ser.
E o vazio de não ter.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Férias para a dor


Antes me dói a dor do outro.
Mais fácil do que sentir a minha.
Mais altruísta, menos trabalhoso.
A dor do outro não me cura.
Nem me adoece.
Uma saudade permanente, uma inquietude sem nome.
Me atrapalha a vida. Isso. A vida me atrapalha.
Agora mesmo, escrevendo, preciso parar inúmeras vezes. Atender o telefone, assinar um documento, responder a alguém.... Eu querendo me conectar comigo mesma e a vida me puxando pra fora. Minha viagem para dentro sendo interrompida.
Eu mesma não aguento o peso das horas, dos dias, dos anos.
Antes me dói o futuro, que é incerto.
Porque o passado em mim já simbiótico, camufla-se.
Reveste-se de memória,
Fantasia-se de falsos pesadelos,
Enfeita-se de antigos aromas.
Preciso de férias para minhas viagens internas.
Como companhia. eu mesma.
Respeitando minha dor.
Quem serei eu hoje sem a dor que carrego?
O que me edifica e o que me destroi?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O doce e o amargo.

Minha presidenta e de todos os brasileiros,

Escrevo aqui do calor do Recife, cidade de tantas lutas e tanta tradição.
Se esta carta chegar às suas mãos, já será um imenso prazer.
Dizem por aqui que, quem adoça a boca dos meus filhos, a minha adoça.
Em primeiro lugar, Dilma, agradeço. Pela oportunidade que tantos jovens como o meu Dante estão vivendo, de conhecer outros países, outras culturas, outras línguas e, com isso, trazer uma infinidade de novas possibilidades ao nosso país e ao futuro de cada um.
Nossa família jamais teria como oportunizar uma experiência semelhante. Linda esta sua iniciativa de abrir a possibilidade para toda uma geração. Como mãe, vejo minha cria voar, crescer com a força da educação. Isso é política pública responsável e de longo prazo. Valorizar pessoas e, a partir delas, melhorar a sociedade.
Sou jornalista de formação, sou nordestina, mãe, mulher e cidadã. Desde muito cedo na vida compreendi que militância existe na política, mas também em cada um desses outros papéis.
E, permita-me dizer, aprendi muito com o seu exemplo.
Acompanhei sua trajetória desde o Ministério de Minas e Energia, um território povoado pelo poderio masculino. Quando me diziam: "Dilma é dura feito um homem", eu pensava: "Porque nós, mulheres, quando assumimos posições tradicionalmente masculinas, somos estigmatizadas justamente na questão de gênero? Porque sempre discutir o que nos afasta, e nunca o que nos une?"

Minha felicidade foi levar meus filhos (os dois homens) às ruas para  comemorar a eleição da primeira mulher Presidenta deste país. Uma geração que, certamente, não tem a dimensão disso tudo, desta revolução, deste avanço e do imenso passo dado em direção à igualdade e ao empoderamento feminino. Com certeza, presidenta, meus filhos serão melhores do que eu.
A como mãe e mulher, sei que compreende a grandeza deste momento.
E eis que eu me entristeço quando, aos poucos, o discurso das ruas parece cegar. Como execrar de maneira tão abusiva e desespeitosa uma chefe do Poder Executivo eleita, quando os que foram mandantes de torturadores nunca sequer foram julgados? Cada vez que um misógino esbraveja, atinje a mim também. Ataca nossos direitos e ameaça o futuro.
O discurso preconceituoso de outros dá conta de uma sociedade  que sempre dominou não aceita o fim da escravidão, não aceita o filho do pobre com a mesma oportudade que seus próprios filhos; não admite perder privilégios.  Foram os donos da bola por tantos séculos que agora esbravejam. Esperneiam.
Aqui, da cidade que unem-se rio e mar,  recebi a notícia deste feliz encontro com os jovens do Ciência Sem Fronteiras. Confesso que gostaria de estar aí por dois motivos.
Para conhecê-la e dizer o que agora escrevo, mas também para estar com meu filho, pois a saudade começa a tomar assento no meu peito. Coisa de mãe.
Desejo-lhe força para continuar transformando a vida de jovens como meu filho; seguir sendo exemplo a mulheres como eu; garantir o direito de expressão para todos os brasileiros, pensem ou ajam como queiram.

Que as falhas sejam apuradas e os desvios, ajustados para o bom caminho. Nosso país tem meios e instituições para tal. Eu acredito na política como agente transformador da sociedade. Acredito que política é lugar de gente bem intencionada. Acredito em você.

Dilma Roussef, você sempre terá a nossa admiração, a nossa lealdade e imenso respeito!

Obrigada e muita força!

Germana Accioly

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...