terça-feira, 21 de junho de 2016

Cheia muda

A cheia tinha levado na minha infância quase a casa toda. 
Morava na Estrada do Encanamento. 
Lembro pouco de 1975. 
A nossa retirada de casa às pressas, 
Um banquinho encostado na parede na janela do apartamento da minha tia, onde eu refugiada subia e via lá embaixo as coisas passeando pelas águas. 
Eu tinha 3 anos. Não entendia a tristeza. 
Admiro a beleza das águas até hoje. 
Na volta pra casa a chuva deixou a marca de um metro e meio.
Do tamanho da minha mãe, eu pensava. 
Lembro das fotos que restaram quarando nos varais, algumas manchadas. 
A gente passando sabão no alpendre imenso pra tirar a lama. 
São cenas perdidas. 
Recife e chuva combinam. 
Eu nunca tinha sentido tristeza de chuva até o dia em que a água veio se espreitando e invadiu o piano.
Invadiu e paralizou. 
Imobilizou.
Nada sobra da alma molhada. 
Quando seca, sem esperança, muda de cor. 
Meu piano mudo.
Eu muda. 
Hoje é noite de chuva e ele voltou.
Vou tocar pra água e seus ventos.
Porque a dor da espera escorreu feito correnteza.
E a música deixou uma marca maior que eu. 
Hoje tenho quase nada a mais que um metro e meio.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Jomard Aguaçã

Sexta-feira santa.
A mensagem maior é a do amor.
E como me disse um amigo hoje pelo wa: "nestes tempos de ódio, é bom andar amado".
É imprescindível, eu diria.
Então alguém bate à porta da minha casa. Jomard Muniz de Britto. Ele nos traz um texto.
Um poema.
Uma homenagem, talvez.
Viva os Aguaçã, que nasceram da teimosia do amor.
O amor, este sentimento insistente....
Jomard nos traz um poema sobre nós.
Nenhuma palavra, exceto as dele, podem nos traduzir hoje.
Mais amor, por favor!
Obrigada, Jomard!

quarta-feira, 23 de março de 2016

Baobá

Eu sonho em ser o Baobá da Praça da República.
Impávido. Imponente. Sereno.
Inatingível e sobrevivente.
Eu quero ser o Baobá. Ser a raiz, seu tronco imenso e solitário.
Meus galhos para o céu adornam o azul, quando sol.
Abrigam os pingos do cinza.
Sou um baobá.
Tenho certeza.
Passo pela praça da república e desejo imensamente ser a árvore forte.
Estou quase sendo um baobá.
O imenso vazio que há dentro de cada um é como meu coração.
Estar vazio não é de todo ruim.
Antes vazio que cheio de dor.
Desejo ser o baobá que não cede às chuvas, que não curva diante da tempestade.
Na minha pretensão, desejo. Rogo. Imploro.
Por esta placidez. Por esta imensa vida soberana.
Qual nada!
Não passo de uma erva daninha que, simbiótica, fofoca embaixo da sua sombra com raízes superficiais.
Sou a pequena folha que cai no final da tarde e flana pelos jardins ao sabor do vento.
E, pequena que sou, sonho grande.
Sim, quem sabe um dia, serei um baobá....



terça-feira, 15 de março de 2016

quando Naná se encantou

Ah,meu filho! Quando a gente emudece, é urgente que alguém nos traduza, que alguém nos ajude a tirar do peito o bloqueio que um grande choque pode provocar. Sabe-se lá porque, somente agora vi teu texto. Talvez, a providência. A dor pelo encantamento de Naná, eu guardei.
Agora, ligada a você pelos satélites e pelas redes, sinto uma maré leve me encharcando... a maré que nos inunda aos poucos. A força necessária que a dor provoca, pra depois ser saudade, ou lembrança, ou nostalgia... No caso de Naná, eu pergunto: será que vai quem tanto deixou? beijo. Eu aqui no Atlântico. Você, no Ártico. 
Você, meu tradutor:
"Ver Naná no palco era sentir tudo que a nossa cultura pode proporcionar. Um mestre que fez o mundo se ajoelhar às suas alfaias, berimbáus, gonguês, abês, ganzas e o que mais colocassem nas mãos de Naná. Já dizia Otto que "o celular de Naná é a Lua, e a Lua é o celular de Naná". Ele não era desse mundo. Hoje suas baquetas repousam sobre o couro das alfaias, mas o estridor do seu batuque reverberará para sempre no Recife, em Pernambuco, no mundo... na Lua.
Vai ser difícil ir pro Marco Zero numa sexta-feira de Carnaval e não ter o Mestre Naná para reger os mais de 500 batuqueiros de maracatu. Obrigado por tudo, Naná! A Cultura Pernambucana vivia em você, e agora você vive na nossa cultura, eternamente."

( Para Dante Aguaçã, meu prólogo ao seu texto)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Sem remédio

Quero hoje falar da minha dor. Da dor mais forte do que eu, da dor que inunda qual enxurrada e cobre de lama todo meu jardim.
Quero hoje sentir a dor. Numa tentativa louca de gastar e diminuir o volume à porta do peito. 
esquecer e esconder a dor não tem sido eficaz. Quero me solidarizar com a minha dor, sentar na mesma mesa e dividir o mesmo copo. 
Chora, minha dor. Chora. 
Desafoga o peito, que só assim tudo se vai. 
Atrás da dor deve haver um campo vasto e forte. Verde e profícuo.
Quero hoje que a dor me ouça. Quero que a minha solidão me acompanhe. Que depois do almoço possamos desfrutar de um café sem pressa e sem açúcar. De doce, basta a vida. 
Minha ironia e minha dor são íntimas. 
Minha dor é filha da saudade, mãe da minha maternidade, irmã da alma. 
Atravessamos a rua juntas, dormimos e acordamos lado a lado. 
Minha dor não dói no corpo. Não tem analgesia. 
Onde dói? Não sei. 
Onde cura? Não sei. 
Que remédio? 
Sente a dor. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Saudade, Clarice



O tamanho da alma da gente ninguém pode medir.
E quanto mais larga, mais profunda e mais densa, mais abriga sentimentos. E insanidades. 
Não existe um tamanho padrão, nem sequer uma grade de números que encaixam ou se enquandram.
Eu, como todo mundo, não sei o tamanho da minha. 
Calço 35. Visto 40. Tenho um grau de miopia. 
Mas a alma, flutua. 
Só sei que hoje ela está inundada, ou seria irrigada? 
Costumo dizer que sou uma pessoa das águas, porque choro de alegria e de tristeza. Choro de orgulho e de vergonha. Choro de graça. 
Hoje a alma está, assim, adolescente. 
Nasci em 1972. Quando comecei a ler Clarice ela já tinha partido. 
E será que parte quem deixa tanto? Mas Clarice me pegou forte por suas narrativas existenciais.
Foram anos relendo tudo como se fosse a primeira vez. Não sou especialista em Clarice. Sou leitora dela.
Hoje eu encontrei Clarice. E ela ouviu a minha música. E ela me fez ouvir a minha música. Passei 20 anos sem tocar.
 
E que presente tocar para Clarice! O bairro dela é também o meu. Somos vizinhas de um tempo desigual.
Quando subiram os créditos eu nem sabia o que falar. E ainda não sei.
Mas tinha que escrever. Num medo de perder o sentimento, que se infiltra em tantas vielas e travessas.
Tudo tão particular e universal.
Hoje a minha alma é toda de Clarice.
No São Luiz vejo o rio beijando a aurora e o sol e mais uma vez deixo os olhos livres.
Só gratidão. O prelúdio da gota d'água de Chopin tem outro sentido pra mim a partir de hoje.
( Para Taciana Oliveira, que montou a vida de Clarice e me fez tocar para ela)

sábado, 12 de dezembro de 2015

Avaria

Avaria é a alma vazia
Avaria é a alma sem peso.
O peso de não ser.
E o vazio de não ter.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...