quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Euforia



Havia uma certa arrogância na forma como ela usava aquele perfume francês. Uma displicência, ou seria um desleixo... Anos a fio usando o mesmo perfume, de domingo a domingo, na tentativa de imprimir uma personalidade, uma marca. Triste objetivo!

Pra dentro, lá no fundo, ela sabia da sua insegurança. Tinha medo de falar, de expor as ideias. Tinha medo da própria alma de artista que, de quando em vez, escapava e se anunciava pela boca. Mas a voz parecia agarrada na garganta, perdia a potência a cada vez que ela falava de si. Era tanta dissimulação que às vezes nem ela mesma sabia o que estava vivendo. Quando tentava falar, as mãos gelavam instantaneamente. Melhor não.

Havia uma certa arrogância, sim, de creditar ao perfume Kalvin Klein, francês (como é isso mesmo???), um traço da sua personalidade. Essa coisa imaginária, que um produto qualquer que seja, possa te traduzir.

A arrogância da imaturidade, que teima em rotular. Quem tem rótulo é perfume, aliás. Gente não deveria ter. Aquele vidro sinuoso, que lembrava o símbolo do oito deitado, do infinito, era a imagem da sua prisão. Infinita. Uma prisão de prata e com o líquido lilás. Uma prisão que aumentava à medida em que o conteúdo do frasco se esvaía. Evaporava junto com a sua certeza.

Pensando bem... não era “certa arrogância”.

Era pura arrogância. Um extrato concentrado.

Só que travestida de elegância, fantasiada de alma minimalista. O nome do tal aroma? Euphorie. Traduzindo: Euforia.

Euforia.

Atitude, sentimento, saída de emergência para os corações inquietos.

Euforia, a alegria superficial.

No seu dicionário, euforia poderia ser definida como escudo. Um estado de alma para quem vivia em estado de sítio.

Por décadas, o aroma chegava antes dela. Era sol, era chuva... era feira ou casamento. Ela usava o mesmo perfume. Talvez, a única constância no seu estado de espírito.

Colecionava os vidros vazios, de vários tamanhos. Chegou um tempo em que ela nem comprava mais o perfume. Quem viajava pra fora já sabia o presente que deveria trazer. As amigas sugeriam cremes, hidratantes, vitaminas, eletro eletrônicos. “Traz um vidrinho de euforia pra mim?”, ela humildemente sugeria.

Um vidro de euforia. Uma dose modesta, ministrada em borrifadas diárias. Uma droga que talvez sua porção infantil como um super poder.

Até que um dia, o perfume foi ficando pesado. Pesava nas roupas. Uma coisa parecida com uma cola. Foi deixando a euforia da arrogância de lado. O que ela iria colocar no lugar???

Parou de pedir as encomendas internacionais. Uma vez pediu uma caixinha de música que tocasse “What a Wonderful Word”. Meio esquisito...

Passou a usar o perfume somente quando saía pro trabalho, “pra economizar”. Sentia nas suas roupas guardadas, repentinamente, o toque meio adocicado e aquilo em algum lugar alfinetava. A arrogância persistente do aroma trazia um incômodo profundo.

A sensação de nunca sair do lugar.

Deixou acabar o último exemplar do estoque. Uma coisa qualquer não fazia mais sentido.

Ficou sem cheiro. Passou a sentir seu próprio cheiro, aliás.

Era muito novo.

Sem contorno.

Seria ela?

Foi na farmácia da esquina e comprou uma lavanda. Gostou de usar em plena luz do dia uma lavanda tão comum. “É ótima pra ir à feira”, ela definiu.

No dia seguinte, acordou e quando já ia saindo pro trabalho, da porta, voltou. Olhou pro vidro de  euforia vazio. A coleção de vidros inúteis na penteadeira, como um memorial da sua vida.

Foi ali no armário do banheiro, abriu o frasco de plástico transparente esverdeado e aplicou no cangote, nos pulsos e depois esfregou as mãos uma na outra. O mesmo gesto repetido por décadas. O mesmo gesto mecânico.

Quem vai me rotular agora?

Estava sem o escudo... ou seriam as muletas?

Deu os primeiros passos desconfiada. Foi experimentando outras essências. Foi brincando de cheirar, de sentir. Eram outros tons e cores e notas.

Um dia, como se nada mais fizesse sentido, pegou um saco grande de lixo, aqueles de plástico fosco preto, colocou todos os vasos vazios. Embalagens e rótulos de um tempo vivido. Deu um nó e levou pra área de serviço.

“Amanhã passa o lixo e levo lá pra fora”, pensou quando fechou a porta da cozinha. Tanta coisa guardada por tanto tempo, tanto tempo guardando tanta coisa! Ela tentava afugentar o trocadilho infame do luxo e do lixo. Do lixo luxuoso...

Não havia euforia na sua atitude. Sua busca mais profunda começara naquele instante. Seria preciso ter faro e sensibilidade para as novas fragrâncias da vida. É preciso achar um perfume menos forte pra identificar onde cheira mal.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Existir

 Bom dia, algoritmo. 

Bom dia, minha bolha. 

Eu hoje sou uma bolha estourada, 

Uma ferida em carne viva. 

Violação é uma expressão que acompanha, uma sombra. Corpo, mente, alma, sentidos.

Violação é um medo que paralisa. Em casa, na rua, nas redes.

Violação é uma dor que nos move.

Violação é um estigma. 

A não dignidade.

A não integridade.

Esta dor que nos atravessa séculos a fio.

Nosso corpo permitido 

Nosso corpo proibido

Nosso corpo coisificado

A infância, a violação.

O crime culposo não tem criminoso. 

Só a vítima e sua culpa por existir.

domingo, 1 de novembro de 2020

Sobre bruxaria

Eu sempre digo que a minha bruxaria maior está em um caldeirão fumaçando na cozinha.

A alquimia instintiva, investigativa e interativa que existe entre o alimento, as minhas mãos e o fogo. Tenho queimaduras de estimação, cicatrizes desta parceria.
A bruxaria que transmite pelas panelas o afeto, a cura, a mensagem.
Escrevo em pitadas de pimenta.
Faço versos em porções.
Assim como na cozinha, um pouco sem métrica.
Foi na cozinha que voltei a escrever, a imprimir minha poesia.
Meus cadernos de receita que pouco ensinam a cozinhar, falam das sensações.
A inspiração se empresta, em mim, tanto para a poesia quanto para a cozinha.
Que bruxa esquisita eu sou!
Ontem passei o dia ouvindo a cozinha me chamar, mas estava em outras paragens.
Isso, não sou somente eu que quero a cozinha. Ela me solicita também.
Não sei se alguém vai entender, mas também posso cozinhar mentalmente. Combinar sabores, considerar novas maneiras de tratar os ingredientes... bruxaria mesmo.
Quando cheguei em casa, já à noite, tirei da geladeira o levain, aquele tal de fermento natural, que eu tenho a alegria de cultivar.
Aprendi a conversar com o fermento natural. Não pasmem! Cabe este tipo de procedimento nos meus feitiços. Aprendi o tempo dele. Porque ninguém cozinha só.
Observar o fermento se alimentando, perceber a hora certa de misturar com a farinha de trigo é das mais altas bruxarias. Sentir o tempo da fermentação, respeitar a temperatura ambiente. E tirar da mistura de água, farinha, fermento e sal um dos mais ancestrais e simplórios alimentos.
Então... hoje pela manhã acordei e fui ver o pão que fermentou a noite toda.
Tava lindo!
Que presente de domingo!
Coloquei numa panela de ferro pré aquecida e lever ao forno. Primeiro, ele cresce. Aí você abaixa o fogo. Depois, aquele perfume de pão invade a sua casa. E ele fica douradinho... crocante por fora e macio por dentro.
É o fogo que transforma,
É o calor que alimenta,
O alimento que cura.
É a minha homenagem a todas as mulheres que cultivam suas bruxarias.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

bom dia!

 

O dia amanhece, como sempre. Mas nunca é igual. Cada dia, uma luz diferente, uma sombra se insinua, uma marca é deixada. Cada dia, um X no calendário. Um aviso de passagem do tempo. Um lembrete de finitude.

O dia amanhece como há milênios. Nada mais secreto do que o involuntário. Nada mais misterioso do que o ciclo finito. Cada existência, um universo distinto. Cada café da manhã, na mesma xícara, o mesmo pão assado e tantas sensações inéditas.

O dia amanhece invariavelmente. Não importam as noites insones. Não vale apelar para os sonhos. O dia é esta força tarefa entrando pela janela, é esta invasão de horizontes no seu pessimismo. O dia imperioso e inevitável.

O dia amanhece e não espera por ninguém. Empurra a noite, rouba a lua cheia. Traz consigo galo, passarinho cantando. Acorda as buzinas dos carros, enerva os despertadores, multiplica os engarrafamentos.

O dia amanhece, sempre, até anoitecer.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

carta a Clarice e João

Clarice e João,

 

Escrevo esta carta num agosto esquisito. Um agosto de poucos ventos. Um agosto de poucos sonhos. Os ventos nas pontes não encontram as saias, ou os chapéus para brincar. Os ventos nas pontes passam sem a levada dos barcos que buscam a beira do mar.

Escrevo da sala da minha casa, o mesmo vento entra remexendo nas plantas e no meu cabelo. O vento mais fresco e instável de agosto no Recife. O Recife mais instável no agosto pandêmico.

Esta cidade que vocês descreveram, moeram e expuseram as belezas e as entranhas. A mesma cidade da tua infância, do Bonde que levava pra praia em Olinda, Clarice. A mesma cidade do teu cão sem plumas, João. A mesma Veneza brasileira, a mesma capital da geografia da fome.

Somos moradores da mesma cidade em tempos desencontrados. Andamos pelas mesmas pedras. Passeamos pelas praças de sempre. Costuramos pelo centro, nas ruas tontas e tortas da cidade orgânica. Peço até desculpas por tanta intimidade, chamar vocês dois pelo primeiro nome... assim como se fôssemos vizinhos.

Nunca tomamos café na varanda, ou nos esbarramos na padaria da esquina. Mas levo no meu coração a nossa cidade como um relicário. Algumas das memórias, construí com as linhas que li assinadas por vocês.

Me pergunto se vocês amariam o Recife de hoje. Seus encantos decadentes, seus arranha-céus emergentes, empatando o sol, espremendo a lua. Boa viagem com sombra na areia, o centro histórico resiliente, os espaços públicos de ninguém.

Já te visitei na sua casa, Clarice. Persegui seus passos pela Boa Vista velha, os postes iluminando à meia luz os passeios vespertinos. Já sentei do teu lado na Praça Maciel Pinheiro.

Sim, na frente da casa que você morou hoje tem uma escultura tua. Linda, por sinal. Você na sua serenidade lendo em frente ao chafariz. Com o olhar poético, é lindo de ver. Triste é ver com os olhos do real. O sobrado que você morou tem uma placa já bem desgastada contando a tua história brevemente. Quase não conseguimos mais ler. O sobrado? Lembra que ele praticamente inaugura a Rua do Aragão? Pois bem. O sobrado é quase uma ruína. Eu fecho os olhos e tento imaginar todo aquele casario décadas atrás. A comunidade judaica chegando, transformando. Os pianos ressoando das casas, num leva e traz vivo. A rua da imperatriz se entregando ao Rio no final, os passeios e matinés.

Rio, aliás, cantado por João Cabral.

João, te conheci em Toritama. Aquela cidade Agreste pra lá de Caruaru. Fiz a travessia com teu livro nas mãos. Severinos com nome de pia. Todos filhos da mesma miséria. Não sou mais ou menos pernambucana por conhecer onde passa o nosso Rio. O batismo se dá nas venturas e desventuras dos que ali manejam a vida.

Você talvez não acredite, de tão surreal, mas houve algumas vezes em que o Capibaribe, lá na antiga cidade de Torre, foi tingido de blue jeans. As lavouras viraram lavanderias, João. As lavradoras são costureiras de facções. A mesma vida Severina. O rio castigado seria o personagem principal do teu poema. Agonizava árido de peixes, vazio de árvores.

Contigo, João, prefiro bater papo ali na Aurora. Do lado de cá da Rua do Sol, tendo o Teatro de Santa Isabel de fundo. Você, plácido, sentado naquele passeio. Outro dia acordei e saí correndo pra lá, pra saber como você estava. A notícia triste era que tinham riscado a tua imagem. E você olhando pro Capibaribe. O mesmo Capibaribe que acolhe os meninos chiés, os homens guaiamuns, as mulheres aratus.

Aliás, João, os Severinos e Severinas moram, muitos, por aqui. São corpos que se movem pelo tapete de lama do Capibaribe. Vão à lama em busca o seio da vida, sendo a areia molhada e infectada seu habitat. São acolhidos pelo braço da maré baixa. Outro dia, fui testemunha de uma cena na frente do cine são luiz que poderia estar em um de seus poemas.

Era um corpo menino, olhar de quase-bicho, se esgueirando pelo mangue. Vi as imagens brutas pela tela da TV, fria reprodução do mundo lá fora. Dentro da minha ilha, clima gélido, senti o coração tremular. Play, pause, stop. Como escolher as melhores imagens do momento em que uma criança é escorraçada? O menino agora tem o corpo todo da mesma cor. Braços e pernas brilham. Uma segunda pele revestia o corpo de cinza. Suas roupas absorviam a areia molhada. Parecia um super-herói. Um mutante. Um andróide. Suas vestes cibernéticas, imunes às pedradas que voavam das margens, como meteoros carregados de ódio. Palavras fortes, num idioma excludente. Eu, no meu ofício jornalístico, segui examinando as imagens. O câmera fez um zoom e consegui finalmente perceber o olhar de pavor. Ele não tinha mais de 12 anos. Virava a cabeça para trás e confirmava que estava fora da linha de fogo. Ou de pedras. Os lanceiros eram homens e mulheres bem vestidos, cabelos bem cortados, bolsas apertadas ao corpo, carteiras resguardadas. Adultos fortes, covardes.

Entre Aurora e o Sol.

Os cais são, desde sempre, terras proibidas. Não há vestígio de aconchego. Resta a enlameada mão/mãe do Capibaribe. O cartão postal às avessas é a rua que tem o nome do nascer do sol.

Naquela tarde, à hora pouso, uma figura humana, um menino franzino, avorou-se em sair da lama. Uma linda imagem em contra-luz, contraste de cores pardas. Choque social. O câmera encontrou um furo. O repórter, talvez conquiste um prêmio com o flagrante. À beira deste ecossistema, uma fábrica de meninos, que nem sempre viram homens. São assolados tantas vezes pelo mal do extermínio....Nascer já é um privilégio. Vacinados contra o direito universal, sobrevivem aos primeiros anos quase por acaso, talvez por pura teimosia. Marginais do rio-paisagem, não vivem. Teimam.

 

E nada do que escrevo é novo, João. Nada do que sinto é inédito, Clarice. Construo diálogos e envio cartas através do tempo. Olho as pistas da cidade, encaro suas feridas abertas e sua poesia marginal. Uma muralha que se constrói a cada dia.

 

Esta carta, garrafa jogada ao mar para o passado, rezo através das décadas, quiçá chegará até vocês. O não-tempo mora em algum endereço.

 

Vou qualquer domingo desse te convidar pra ouvir Chopin aqui em casa, Clarice. Umas valsas, talvez um vinho... E te contarei quando eu, mocinha e moradora de Olinda, vinha para o Recife comprar tecido e aviamentos para meus vestidos.

Ou ainda antes, no sobrado da estrada do encanamento, quando a água viva do Capibaribe decidia nos visitar. Entrava sem bater. Subia mais de um metro. A gente salvava o que podia... Havia poesia nas cheias. Há poesia nos desalentos.

 

Encaminho neste envelope imaginário, um resgate do Recife. Aquele meio lírico, meio cruel. Aquele meio menino e meio caranguejo.

 

Meio lama, meio mar. Assim, como a vida. Assim como a poesia e a prosa.

 

 

Com amor e saudade, Germana.

 

 


domingo, 11 de outubro de 2020

O menino maior que eu


O menino chegou neste mundo. 

Veio no meio do calor, chegou com o sol a pino

Chegou meio apressado, antes mesmo de o relógio apontar. 

Uns diziam: é cedo.

Outros diziam: tão nova!

E ele chegou.

Meus braços, meu peito, meu colo. 

O menino veio à luz.

Olhinhos pretos, feito ônix.

Cabelinho louro, feito milho no terreiro.

O menino primeiro.

O menino chegou neste mundo.

E cresceu junto com ele. 

O menino ficou maior que eu.

E hoje faz 26 anos que eu conto esta história.

Quiçá, a contarei pelos meus dias.

O menino trilhando seus caminhos.

O menino borda, tece, desenha

Seus versos mundo afora.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

ÁTIMO

Tempo. Unidade volátil.

Tempo. Vacina poderosa.

Tempo. Óculos de grau.

Tempo. Calmante da alma.

Tempo. Anúncio do futuro.

Tempo. Contador da história.

Tempo. Cantador do presente.

Tempo. Companheiro de caminhada.

Anos são segundos. Séculos são átimos.




Foto Yane Mendes


Qual é o seu tempo?

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...