terça-feira, 8 de junho de 2021

Pelo Recife adentro



Saudade de andar no entorno do Mercado de São José.

De me enfronhar pelas ruas estreitas

Lotadas de sabor e de sol

Em algum momento um vendedor me ofereceria inhame

O outro gritaria, estridentemente:

- Abacaxi é um real!!!!

Saudade de conversar com a minha freguesa da batata doce.

- Vai de branca ou de roxa esta semana????

E o cheiro das especiarias

Das ervas

Das flores

E as sacolas pesando na minha mão

E mesmo assim, passando pelas castanhas,

Peço um quilo bem pesado

E o sol vai subindo, a pino

O suor desce pelos braços

E as goiabas passam por mim, encantando

A maresia trazida pela barraca dos peixes

A vontade de comprar uma rede...

Uma vassoura nova, talvez.

A última parada, o caldo de cana

- Com limão e muito gelo, por favor!!

Pra aplacar a saudade

Pra esquecer o calor

Pra matar esta saudade

Saudade de mim mesma.

Tempo bom

Do tempo em que o mise en place

Começava na rua da Praia.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

desfragmentando

 

Sentada no meu quarto

Divagando sobre a vida

Me dou conta que perdi o medo de ser só.

O cenário é tão simplório

Tendo em vista a tomada de consciência

Meu quarto numa sexta-feira à noite, meio chuvosa...

Num apartamento alugado, ainda sem “a minha cara”

Transitória.

Isso não foi assim, num piscar de olhos

Uma natureza lenta me impulsionou

Sinais de mim mesma

Fragmentos esquecidos de sonhos 

Displicentemente pelos cantos

Relicários

Quase objetos pré-históricos

Souvenires, 

Post its

Cartas 

Lembrando quem sou de fato.

Por vezes, me senti repetindo aquela história infantil... distribuindo migalhas de pão pelo caminho

“ser só” não é “estar”

E digo isso de cátedra

Já fui só.

Uma mulher sozinha está sem ela mesma

Gosto de utilizar a expressão DESINTEIRA

Uma mulher só 

Está partida ao meio

Ou em fragmentos.

Tenho vivido a aventura de (re)conhecer-me

Tenho me alegrado comigo mesma

Tenho chegado mais perto

Tenho a mim.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Junho


Traz a certeza do segundo fruto

Uma firmeza

Uma clareza


Um amor.

Luís.

Celebro a tua chegada

Posso sentir no peito 

A mesma emoção

A mesma alegria

Pelo menino que veio 

Pelo rebento que trouxe tanta luz. 

Luís.

São 23 anos 

O tempo passou 

E ao mesmo tempo

Está em nossas mãos

Vejo no homem, o menino 

No menino, o mundo todo.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Sobre rezar e beber

 


Há dias e dias

Senões de certezas

Abrigo de dúvidas

Há dias e dias

A alma se lava

Rezas potentes

Cachaças sustentas

A alma pinga

Há dias e dias

Neste tempo úmido

Neste tempo árido

Neste tempo amorfo

Coleciono rolhas da quarentena

Numa tentativa de aprender a esperar

Garrafas que se jogam ao mar

Com mensagem de leveza

Para a alma

Há dias e dias

Que viram noite

Que viram insônia

Que nunca param

- Tudo é o tempo jogando as cartas.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Vôo solo






Filho, 

Você, lua em capricórnio. Eu, lua em libra.

Seu signo solar, minha lua. Dizem que são os complementos. Eu não entendo direito. Mas sinto. 

Sinto uma alegria, uma força nesta travessia que escolhemos pra fazer de mãos dadas. 

Você, filho. Eu, mãe.

Hoje, às vésperas de te ver dando o passo pra fora de casa, eu sinto que estamos ligados por um fio tão invisível quanto forte. Eu sinto que minha maternidade amadureceu e que a sua criança virou um homem admirável. 

Hoje, às vésperas de abrir a porta do teu quarto e não encontrar a tua energia, eu sinto que cumprimos um ciclo lindo. Sou somente amor, Dante. Gratidão, no sentido mais amplo e humano que esta palavra possa ter.

Mas, como mãe, preciso te falar (prefiro escrever), que você terá sempre a mim como porto seguro. Um lugar para onde ir. Um colo pra deitar. 

Como mãe, quero te dizer que continuo atenta à sua vida, este presente que nos foi dado. 

Serei sua mãe todos os dias da minha vida. 

Acho que no começo eu vou sentir muito a tua falta. Os momentos cada vez mais espremidos entre um plantão e outro, entre uma reunião e outra, entre os sonhos que realizamos juntos e separados. Acho que o ninho vai ficar um pouco vazio da sua presença doce, firme.

Mas eu vinha me preparando pra isso há algum tempo, filho. Sentindo que as minhas asas já não eram suficientes pros seus voos. E que bom! É pra isso que servem as asas das águias também. Servem pra abrigar os filhotes, protegê-los, ensiná-los a caçar, até que possam dar o vôo solo. 

Então, meu querido fruto, quero aqui te dar minha bênção. 

Se eu ainda puder te dar algum conselho, é que você ame. Ame profundamente a vida, as pessoas, o que você escolher para ser sua missão. Eu tenho pra mim que o amor move, remove e constrói. O amor é fúria, é delicadeza, é certeza e firmeza. Tudo cabe no amor. 

Quero também dizer que confio profundamente no homem que nasceu no meu menino de olhinhos de jaboticaba e cabelinho de milho. Confio no ser humano que agora é capaz de andar com as próprias pernas. 

E nada mais existe que os nossos olhos ou o abraço não possam dizer. 

Eu, amor

Você, também.

domingo, 28 de março de 2021

com meus botões

 

Os botões abriram do dia pra noite, na contramão de mim.

Os botões, que anteontem estavam fechados, floriram. 

Brotaram. 

Floresceram­­.

Eu, na contramão dos botões.

Eu, na crosta que nem marisco.

Plantei meu coração num terreno pouco fértil, talvez.

Reguei, dei sol e chuva para as folhas.

Mas nasceram, no lugar de flores, mariscos herméticos.

Fecho os olhos e imagino esta figura de linguagem.

Um vaso com uma plantinha de longas folhas verdes, de onde brotam conchas.

Um híbrido. Lugar nenhum.

De onde não se espera o frescor de um perfume, nem frutos doces.

Invejo, quase, os botões.

Só não os invejo mais porque não sei o que fazer em flor. 

O que fazer com o tempo ao léu, onde depositar o orvalho do alvorecer.

Como lidar com a brisa...

Os botões abriram e o ciclo se acelera.

Em breve as pétalas vão adornar a mesa, amareladas pelo tempo inevitável.

As conchas devem abrir quando o marisco estiver pronto.

Hiato que não se sabe. Armadilha que se desarma.

Eu, na contramão dos botões.

quinta-feira, 18 de março de 2021

meus olhos pequenos


 

- Como é que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Eu sempre gostei de ler, desde que aprendi a ler. Sempre gostei de escrever. Sempre gostei deste encontro com os livros. Um diálogo com o escritor, nem sempre possível pessoalmente. Um debate silencioso, gritando nas cabeças, fazendo novas conexões e sugerindo imagens, sons, lugares, rimas....
- Como é que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Essa era uma pergunta que eu, criança, repetia sempre. Um olhinho tão pequeno.... enxergando um prédio imenso! Eu pendia a cabeça pra trás ao máximo e fitava o céu. E tudo aquilo cabia ali dentro daquela bolinha de gude plantada na minha face.
- Como é mesmo que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Desavisada, no meu mundo infantil, cresci com esta crença. Era também o olhar pra dentro... como é que um olho tão pequeno, enxerga coisas tão grandes da alma? Como é que, vendo só pra fora, a gente enxerga pra dentro? Como é que, havendo tanta coisa grande, a gente enxerga o que não se vê?
- Como é que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Desavisada, agora pela manhã, abri o livro de Valter Hugo Mãe. Me dei de presente dez minutinhos de conversa com ele. Uma licença da realidade, pra colocar a cabeça no lugar.
Queria dizer a VHM que o livro que estou lendo, “a máquina de fazer espanhóis”, esta reflexão sobre a morte, caiu como uma luva na minha vida pandêmica. Queria dizer a ele que, daqui do “brasil” (ele escreve assim, sem exclamações, travessões, letras maiúsculas...), daqui desta lonjura do brasil, em algum lugar nos encontramos. A paz que não existe com a notícia de termos mais de 3.100 mortos ontem.... ual é o antônimo de paz, a propósito... começo a achar que não é a guerra. Começo a encontrar outros sentidos fora do dicionário.
E meus olhos bola de gude acabaram se abrindo para um universo largo, profundo e desejoso de respostas, todas mudas até agora.
- Como é que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Me vejo puxando a saia da minha mãe, querendo que ela olhe pra baixo e me responda. Mas, não.
Ao contrário, sinto um nó aqui no estômago roubar a fome. Sinto que a dor do mundo inteiro está sentada no meu sofá. Sinto imensamente o desalento social se avolumando na minha porta.
Sinto e vejo.
Vejo e marejo.
Viro a página do livro e me vem a resposta em forma de confirmação.
Sim, o escritor me respondeu. Ele me disse que tem as mesmas inquietações que eu.
A dor do mundo não tem tamanho. Os descasos também não.
A vida, imensa, passando pelos meus olhos estrábicos. Talvez por isso mesmo, eu enxergue demais.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...