domingo, 19 de dezembro de 2021

Quase tarde

 

Acordei sentindo o corpo todo meio dormente, meio vibrando. 

Um sono absolutamente profundo, Um despertar lento, relutante.

Aliás, a palavra é relutante.

Lutei muitas vezes. Insisti em perder.

Relutei por anos em aceitar. Acolher. Refusei oportunidades, me escondi atrás de tantos fantasmas. Meus esconderijos quase perfeitos.

Eu, minha principal algoz, dando voz a todos os comentários. Vestia a fantasia alheia e dela me apossava.

Capaz de criar tantas realidades, desci dos meus palcos, apaguei as luzes e me fechei no camarim. As cortinas seguiram abertas, sinalização para saída de emergência, fuga tragicamente planejada.

Mas, por maior que seja o bunker, um dia há que se abrir a porta e buscar água, comida, ajuda. Por mais perfeito que seja o disfarce, em algum momento a maquiagem borra, o chapéu voa, a máscara cai.

Foram muitos os passos. Primeiro, em círculos infundados, encontrando desculpas vazias baseadas num sentimento em nada parecido, mas denominado de amor. Depois, muito depois, novos caminhos titubeantes, cambaleantes, trôpegos.

Reabilitação para a vida.

Reaprendi a respirar, a nadar nas minhas águas turvas e bravas, a amar o que é meu. Uma passagem nem sempre linear.

Eis que hoje eu acordo sentindo diferente. Acolhendo meus prazeres, reivindicando minha memória, reconstruindo minha história. Eu não sou o desenho do passado. Eu não sou o decalque das décadas nostálgicas.

Bordo com palavras meus novos sonhos. Faço e refaço pontos que eu mesma criei. Misturo as cores que me aprazem. Acalmo minha pressa de viver, alimento a fome de ser.

Não me incomoda reciclar, reutilizar ou repaginar sentimentos. Não tenho a avidez capitalista do novo, do exclusivo, do todo meu. Vou trazendo na bagagem o que ainda me apraz. Carregando o peso que posso levar sozinha.

Aliás, esta foi a lição mais difícil de aprender. Fazer a mala para aquela viagem e só levar o necessário. Passei a fazer o exercício do minimalista. Experimentar o pequeno como se fosse o fundamental. 

O escasso, sem restrição.

Divagando e brincando com as palavras, me dou conta que ainda estou deitada, respeitando o ritmo do meu despertar.

Quase tarde, mas ainda manhã. 

Há tempo para celebrar o domingo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Batuta do Seu José

A batuta do Seu José


Era julho de 2019. Meu penúltimo dia de umas férias rápidas em Paris, fui passar dez dias. Pouca bagagem, nenhuma intenção de fazer compras.

A ideia era flanar. Fiquei no apartamento de um amigo na Porte D’Orleans. 

Cheguei sem programação fixa, mas tinha uma única missão. Acordei na manhã ensolarada e rumei para a tarefa. Bati a Rue de Rome em Paris de cima abaixo e não achei a loja. Resumo da ópera: ninguém conhecia! Até que depois de arrastar meu pobre francês em boulangeries, entre os passantes... decidi me aventurar numa loja similar: Rome instruments. Entrei e encontrei exatamente o artigo em questão. Trouxe com todo cuidado pra Recife, pois era frágil. Passei umas duas horas batendo perna e achando que o meu francês estava cada vez menos entendível... mas na verdade meu irmão tinha me recomendado muitíssimo e com veemência uma loja que jamais existiu na história da cidade luz!!!!

Valeu a pena quando entreguei o pacote bem embaladinho. Um tesouro pra ele. 

Meu irmão José Renato é Maestro. A encomenda, duas batutas de fibra de carbono, levíssimas. Um desses exemplos em que o “vale quanto pesa” não se aplica.

Aprendi com ele que a dedicação tem sua recompensa. Que precisamos acreditar e perseguir os objetivos. Com Nato, seis anos mais velho que eu, li poesia até tarde da noite. Acordei cedo para ir às aulas de piano num fusquinha sem limpador de para-brisas, mas que nos livrava do ônibus lotado.

Zé Renato, hoje maestro da Orquestra Sinfônica do Recife e da Orquestra Criança Cidadã, é meu tudo: O irmão-abraço, o irmão-acolhimento, o irmão-afeto. 

Fui mãe de leite da sua primeira filha, sou madrinha da caçula. Nossas vidas se entrelaçam em um caminho de partilha.

Estas fotos são do primeiro concerto dele com a orquestra de meninos e meninas do Coque. 

Sentei no gargarejo e me emocionei com o repertório, com o solo de viola e com a última peça, de Beethoven. Pensei na história de cada jovem músico que estava ali, refiz na mente nossa trajetória.

Mas nada me tocou tanto, nada me levou para tão distante... Eu e a minha mania de ver as sutilezas... 

No meio da última peça, a batuta de fibra de carbono caiu da mão do Maestro.

Ouvi o toque da queda, tive um pré-impulso de ir resgatar, mas fiquei ali quietinha. Ele continuou regendo. Eu parei o mundo e fiquei acompanhando as mãos expressivas do meu irmão. As mãos que pediam calma, paixão, força e unidade. Uma pausa nos Cellos e alguém coloca a batuta dele na estante. Com elegância e intimidade, ele dá um tempo de pega novamente seu instrumento.

Pensei comigo: eu andaria a Rue de Rome mais umas cem vezes para viver este momento. Nem sei se a batuta que ele estava usando era a mesma que eu trouxe na sacolinha de mão com zelo extremo, mas, como dizem os franceses, Tampi...

Acabou o concerto, aplaudi toda a história dele ali. 

Aplaudi as noites de estudo, os dias de suor. 

Aplaudi os 30 anos de aulas no conservatório.

Aplaudi a verdade que existe nos seus gestos.

Aplaudi o meu irmão, que carrega o coração na ponta da sua batuta.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Clarice, vem conversar!

O mormaço emerge do chão.

A chuva fina que cai insegura se desfaz antes de tocar no solo. 

O suor que traça caminhos incertos pelas minhas costas chega a fazer cócegas.

Recife parece um forno.

As roupas desfilam grudadas nos corpos, o pensamento anda em câmera lenta. 

No supermercado aqui perto de casa o tomate está custando R$ 9,29 reais o quilo. Onde vai parar este mundo? Um simplório molho de tomate com cebola, louro e tomilho virou iguaria. Uma pitada de sal e pimenta pra levantar o sabor... O molho vinagrete do arrumadinho do final de semana, ou pra acompanhar aquele churrasco... aliás, a carne também está pela hora da morte. Melhor mudar o cardápio do domingo.

Volto com as compras e quero que o mundo congele, literalmente. 

A umidade do ar não é assim tão relativa. Me parece absoluta. 

Recife parece um forno.

E eu cozinho as ideias, tempero os sentimentos enquanto sinto o peso da tarde.

Sonho com o pôr do sol, desejo a brisa que vem do mar. 

Recife, esta cidade litorânea que respira agreste.

O mapa não transpira, não se compadece de mim.

Minha cabeça dói. Deve ser o calor. 

Chego com as compras, vou guardando, abro logo o pacote de chocolate amargo e destaco um pedacinho. Mordisco as pontas e sinto o agridoce da nota de sal. 

Gosto dos opostos. Gosto de sentir na boca os sabores tomando lugar, desenhando aromas, afagando memórias.

Vou ordenando meus dias na cabeça enquanto guardo o milho de pipoca, lavo as frutas e separo os legumes.

O que eu diria a ela no dia do seu aniversário? Como contaria sobre este Recife tão distinto da sua infância? 

Um Recife que há dois anos não tem carnaval. 

Um Recife, cidade desigual.

Um Recife que amo como talvez, você também.

Queria te dar de presente a cidade que mora no meu peito.

Queria dividir um sorvete de tapioca, andar na beira do rio e dar boa tarde ao vendedor de amendoim. Torrado ou cozinhado?

Sexta-feira, 10 de dezembro. Dia que se faz mais um.

Clarice hoje faz 101 anos.

A chuva fina canta melodia nas folhas da papoula. O calor desenha arabescos no vidro da janelas. 

Senta aqui, Clarice... vamos conversar.


Na foto: Clarice menina.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Um teatro é um abraço



Não leve em consideração esta foto amadora. Foi o melhor que consegui. A luz estourada, a falta de foco e enquadramento, a evidência na cortina encarnada com franjas douradas, os arabescos que aparecem na penumbra e quase nada dizem do momento que vivi. O piano parece até mais magro na imagem, uma perspectiva pouco usual. O pianista, que tinha o holofote sobre si, no meu registro é um homem sem rosto. O artista com pele de cera.
- E porque, então insistir em publicar e descrever uma foto tão insignificante?
- Pela força do momento.
O palco é do Teatro de Santa Isabel. Desde criança frequento o lugar. Já vi espetáculo da plateia, dos camarotes, das frisas, da torrinha e até das coxias. Já estive na plateia e no palco. Ri e chorei. Aplaudi, pedi bis. De monólogo a orquestra. Peça infantil e dança. Teatro de bonecos e coral. Eu poderia lembrar muito mais.
Um teatro é
um abraço
. E no desenho do Santa Isabel, o abraço é real. As frisas contornam a plateia. São braços sinuosos e roliços que envolvem as cadeiras.
O que posso ver além da foto é a emoção de ter voltado ao teatro depois de um ano e oito meses de jejum. Acho que nunca fiquei tanto tempo sem pisar ali. Fui chegando e logo na porta recebi a acolhida de dona Ivete, que vende cerveja, café, confeito, chocolate e pipoca.
-Quanto tempo! Foi ela me falando, em tom de festa.
O que posso ver além da foto é o cheiro da sala de espetáculo, o meu pé pisando no carpete macio, as escadas que me conduzem ao meu lugar. O toque triplo que avisa o início do espetáculo. As luzes se apagando aos poucos. A expectativa de comungar de mais uma aventura.
Hoje foi o primeiro concerto desde o início da pandemia. O teatro estava “lotado”, com apenas 30% da capacidade ocupada. E eu lá 😊
E o espetáculo? O piano esculpido e lapidado de Luís Felipe Oliveira. A música que atravessa a gente sem parcimônia. A capacidade de revirar as tripas da alma. O pernambucano de gravatá flui. Interpreta Beethoven, Lizt, Dutilleux e Chopin num diálogo forte, doce, emocionado. Na minha cadeira, os óculos ficaram embaçados algumas vezes. A alegria de compartilhar tudo aquilo. A força da arte.
O tempo passou espichado, querendo que não acabasse nunca. Na última peça um quinteto de cordas acompanhou o pianista. E eu ali querendo absorver cada segundo. Laila no palco com sua viola, uma sianinha que enfeita as vestes da minha ânima.
Quando a luz acendeu, eu já estava em pé. Um grito de BRAVO me saiu inadvertidamente, meio tímido ao mesmo tempo. Como se o distanciamento social ou a abstinência tivessem de alguma forma me atingido.
O espetáculo acabou e eu juro a vocês que trouxe partes deles comigo. Aliás, acho que ele começou muito antes, quando Dante me convidou para ir ao teatro. Quando escolhi o vestido e pedi o uber. Quando desci com Luís e Lis e nos juntamos a Dante no café do Teatro. O primeiro marejar foi fruto de me ver com meus filhos na frisa. Tão pequeninos eu os trazia pelas mãos nos domingos de tarde. Senti o passado com seu negativo não revelado projetando as imagens...
Saí do Teatro meio muda, meio exausta. Meio saudosa, meio de ressaca de tanto sentir. Saí querendo que o teatro me abraçasse mais um pouco. E querendo também descansar. Saí como uma criança que ama e se exaure na primeira festa de aniversário.
Aqui muito pra nós, acho que o Santa Isabel estava também saudoso de mim. Minha crônica poética dá conta disso. Meus versos de algum jeito também são filhos daquelas paredes seculares. Sou bisneta ou afilhada da arquitetura. Sou formada nesta escola.
Eu só pensava em chegar em casa, escrever este texto antes que ele se diluísse na minha rotina de amanhã.

domingo, 3 de outubro de 2021

Passiflora

 

Acordei de um sonho ruim. Prefiro nem contar. É de arrepiar, de fazer chorar.

Vomitei o sonho no meu dia. 

Já começou atravessado. O céu estava azul, aquele infinito riscado de branco. Não combinava com meu espírito.

Mas também... nunca fui chegada a combinações. Sapato da mesma cor de bolsa, conjunto de saia e blusa... nunca foi a minha mesmo. Prefiro os desencontrados.

Um degradê de sentimentos

Camadas recheadas com memórias reviradas

Outras exumadas

De onde vem tanta lembrança?

 

Fui comprar o pão, fiz o café, sentei à mesa.

 

Insisto em manter a rotina. É uma maneira de apaziguar o devaneio que bate à porta da mente e tem vocação para incensar a alma.

Acordei deste pesadelo simbolicamente hoje.

Cada pessoa tem o seu, pensei no meu íntimo.

Ele me visita cada vez com menos frequência. Sinal que está se esvaindo, eu rogo.

São 8h da manhã, faz três horas que acordei e ainda não emiti uma palavra sequer. Mas a mente prolixa ensaia o monólogo. A plateia sou eu mesma. O Palco imenso para uma única cadeira ocupada.

Foi somente um sonho ruim, tento me convencer.

Rasgo o pão com a mão enquanto a serra aguarda ao lado. O café vai puro mesmo.

De doce, basta a vida, eu prego.

Eu não devia comer tanto pão, nem tanto glúten, nem tanto trigo.

Mastigo o pão e ele me remete ao sonho. Brinco comigo mesma.

O sonho não acabou. O de hoje veio recheado com creme de dor.

Mastigo o sonho de cada dia, engulo seu enredo e saio para a rua.

Mais tarde eu tomo uma passiflora.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

alinhavando

 

Tento aproveitar um momento de paz, ou de solidão, pra escrever.

Devo ter meia hora, no máximo.

Estou aqui no trabalho. Calhou de estar sozinha na sala. 

Lá longe ouço o barulho da reforma do elevador. Martelos, serras elétricas.

E, ainda assim, eu comecei este texto dizendo que estou em paz.

Nos últimos dias a lua cheia pendurada no céu do Recife deve ter mexido comigo.

Alternei entre marés muito altas e outras baixinhas.

Ressaca.

Fortes ondas de memória, ventos transformadores. Longas caminhadas.

Dizem que a lua conversa com as mulheres, assim como dita ordens aos ventos.

Esta lua me trouxe lucidez.

Dessas avassaladoras. Dessas estruturantes. Dessas desconcertantes.

Uma reforma interna, menos barulhenta do que a que eu ouço agora.

É preciso caber em si.

Um trabalho...

Sim! Um trabalho!

Eu sou este jogo que se monta e desmonta. 

Que remonta e desconstrói.

Tenho produzido novas peças. 

Como quem faz um crochê, desenhando com linha e agulha figuras aleatórias. 

Vou desenhando e desfazendo. 

Alinhavando 

Contando histórias, calejando os dedos, cada ponto, seu lugar.

Lembro das minhas avós, mestras no crochê.

Elas faziam lindas roupas pra mim, pras bonecas, faziam colchas e redes. 

Tudo a partir do fio e de uma agulha com ponta rombuda.

Quais pensamentos elas cosiam enquanto desenhavam com a linha?

A precisão de fazer arte, de vestir e adornar, a partir de quase nada.

É preciso caber em si.

O exercício é diário.

As luas minguam, crescem, novas.

Eu caminho pra dentro.

A reforma lá fora silenciou. 

Deve ser a hora do almoço. 

domingo, 5 de setembro de 2021

mais uma dose

 


Saí de casa com uns pinguinhos me beijando

Céu azul pingando pequenas bênçãos

Mania de ver o que não existe

 

- Justo hoje, que tirei a sombrinha da bolsa

 

É setembro

 

Tomei a segunda dose

Mais serena

Mais emocionada

Mais acomodada nesta noite sem fim que é a pandemia

 

Mais uma lapada

Mais uma dose

 

A agulha entrou doendo, formigando.

O coração acelerou

Os olhos marejaram

Não durou um minuto

 

O Recife continua o mesmo

Gente acampando nas ruas

Fome crescendo nos canteiros

Rio brilhando sob as pontes

 

Um ar de domingo impregnando

Aquela sensação de lavar a alma

Vestir a roupa do dia

Celebrar sem fim

Os ciclos renovados

 

Nada diferente

E uma coisa mudou

É dose!!!

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...