quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Denovo, a tempestade



Faz dias que escrevo, escrevo e apago.
Há excesso de idéias.
Sentimentos excedentes.
O vento da minha cabeça se encarregou de misturar tudo.
Então, quando acredito em uma bonanza, corro pra escrever.
Tento, tento.
Que nada! 
A ventania é mais forte do que eu.
Volta implacável, me arrebata em meio a um furacão.
Eu trovejo de idéias.
Tudo é levado pelo vento.
Aguardo a direção mudar e me devolver os pensamentos, quiça, mais precisos.
Talvez venham arejados por ideias alheias.
Meu tempo, tempo meu.
E aí, quando o relâmpago tudo esclarecer, estarei novamente pronta.
Só não sei pra que.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O sobrado das três janelas: A casa da minha avó



Manoel Bandeira dizia em um lindo poema sobre o Recife: : "A casa do meu avô… / Nunca pensei que ela acabasse!".
Lembro do sobrado avarandado em Casa Forte. Vila Deolinda....
O portão imenso para meus olhinhos tão meninos. Eu entrava pela cozinha . Morena me recebia com um doce, um mimo qualquer. Lurdes sempre a sorrir. Lá longe estava vovó. De braços abertos, carinho sem fim aquele.
Vovô Bento ficava na mesa imensa, sentado num banco de madeira alto.Se lembro dele, lembro de bolacha salgada de padaria, aquelas redondinhas... Eu sentava junto e comia. Ele ria solto!
Mas antes, no quarto que tinha uma porta defronte da cozinha, eu parava pra ouvir Maria Betânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil com Bentinho. Eu adorava ler tudo que estava escrito nos encartes dos vinis. Ali ele era apenas meu padrinho.Eu não entendia o que isso significava... Era um amigo, quase igual a mim, mas que conhecia todas as canções do mundo! Muito tempo depois, sim, ele ocupou o seu espaço.
Na varanda, em frente à mesa do Vovô, ficava a cadeira de balanço de Vovó Isaura. Ela sempre olhava minha roupinha (Tia Zezé era minha costureira particular!) e batia nota, fazia um comentário. Às vezes me contava uma história.
Eu lembro de uma cama que Fafá tinha, que era mágica! De dia era um móvel, uma estante, de noite virava cama mesmo.
Um pouco antes de partir Vovó me contou que eu tinha um berço ao lado da cama dela. E que eu chorava a noite inteira, que acordava a casa toda... Talvez por isso em meus sonhos até hoje aquela casa é tão presente. Lembro do piso, da distribuição dos cômodos, lembro também da grade do alpendre que abraçava uma parte da casa.
Pois quando vovó me falou, foi como se eu lembrasse, lá naquela memória antiga, desbotada, estes primeiros lampejos de amor. Entendi então que o amor é sensorial. Independe de memória ou de lembrança. Ele simplesmente É. 
Tem laços que nascem do sangue. Outros, são fruto do próprio amor. Cresci sob a grandiosa árvore de amor e generosidade cultivada por Vovó Consy. Sou neta do seu amor incondicional. Ela se foi. E sua herança é o exemplo. A eternidade é o laço de afeto. O céu ganhou minha avó. Mas eu jamais a perderei. Faz parte de mim.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Chuva de verão




Esta noite fui ninada pelo pingar da chuva nas telhas da casa. Da pra perceber ela chegando. Primeiro, no telhado da sala. Depois, nos quartos. Bateu na cozinha e chegou como um toró no quarto dele.
O quarto dos fundos. É o sintoma do despendimento. Ele preferiu o último quartinho, lá longe.
Nunca chove em outubro. Não lembro de, nos últimos 18 anos, ter chovido no dia 11. Eu decorava o salão de festas, fazia docinhos, inventava brincadeiras, tudo sem chuva.
Deve ser porque, como disse muito bem dito meu compadre, o batismo veio do céu. O laço está feito e agora a nossa missão é a vida.
E a chuva continua a fazer música na cerâmica do telhado quando o sol nasce.
Bom dia, parabéns! Vitamina de banana. Cinco minutos milagrosos de conversa na mesa do alpendre.Tou atrasado, mãe.Bota a meia.Alisa o cachorro.
Vai, filho.
Abre-se a porta da sala da frente e vejo a figura de linguagem em forma de realidade: meu filho sai pela rua, a chuva fina o acompanha. Eu, da porta, fico observando seu caminhar, seu gingar, seu ser, até perder de vista.
É. O batismo veio do céu.

 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

uma história que não é a minha







Final de semana era sagrado. Roupa separada, chegava cedinho, adorava sentir o cheiro da sala. E o silêncio da plateia que ia sendo abafado pelas vozes que chegavam se esforçando pra falar manso.
Sentava na poltrona da segunda fila. A bilheteira já me conhecia. A camareira também.
Pudera! Eu cheguei a assistir o mesmo espetáculo umas 20 vezes ou mais. Teve uma vez que faltou uma atriz e eu substituí. Foi aí que comecei a representar e entendi que aquela paixão – uma das tantas da vida – não era tão simples assim.
Mas a história dessa vez não é minha, nem do teatro.
Quero falar de uma pessoa que eu não sei o nome. Nunca soube. Mas também nunca esqueci seu rosto. Isso é outra coisa curiosa. Quem me conhece sabe que sou meio displicente. Esqueço nomes, fatos, esqueço as fisionomias das pessoas. Não lembro da camareira nem da bilheteira.
Mas ele não. Ele era quase como parte do ritual de ir ao teatro. Ela o vendedor de doces e pipoca.  Ele conhecia os atores pelo nome e, obviamente, me conhecia também.
Para ele eu era a moça da “salgada, né ? E com muita manteiga”. Era. Ele não sabia meu nome. Pouco importa.
Com o tempo eu fui deixando de ir ao teatro. Era piano, era faculdade, eram os filhos... Mas, sempre que aparecia, ele estava por lá. “Oi, tudo bem? O de sempre?”
Era confortante. Meu filhos chegaram a comprar chocolate, chiclete, drops a ele. Eu tinha a doce intenção de transferir aquele meu laço.
Depois, muito depois, compramos uma casa no centro do Recife. Descobri que o moço do" bom bom" morava lá. Alugava um quarto numa pensão. Pronto. Deixou de ser fantasia. Quando a gente descobre onde mora a fábula, ela deixa de ser.
Falei com ele algumas vezes, mas fora do contexto, quem não me reconhecia era ele.
Hoje moro na casa. Faz um mês.
Ando muito por ali, mas ainda não tinha visto o meu personagem. Perguntei a um e a outro e tive muxoxos como resposta. Pensei: já se foi.
Hoje cedinho, comecei a friviar dentro de casa. Mexi aqui e ali. Tava faltando queijo. Saí pra comprar no mercado público. Eram 6h30 da matina. Na ida, ele estava enrolando um cigarro grosso. Não olhou pra mim.
Na volta, tava perfumando a rua com a fumaça. Sentado na calçada do convento da Glória. Era insenso.
Não olhei pra ele.
Abri a porta do meu mundo, que nem acontecia nos contos que vi representados: uma casinha de porta e janela que, quando a gente abre, dentro tem um palácio.
Não destituí meu personagem. Descobri que ele cabe em dois cenários.
Mas aí, já é outra história...


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A vida real em sete cenas fictícias




A vida real não tem tanta graça assim. Uma pitada de rotina aqui, lascas de melancolia ali, fatias de felicidade, que a gente consome com reserva. Pode ser em conserva, pra demorar mais...
Lá em casa não gosto de consumir conservas. Tudo vai fresquinho mesmo. As dores, cruas. As felicidades, colhidas na hora. As tristezas, mal passadas.
Acredito nisso. E pensei que a minha vida era assim. Até que ontem, deitada no sofá da sala, comecei a ouvir um rumor. Na TV, Tapas e Beijos. Do lado de fora, também.
Eu passei a não conseguir mais ouvir a televisão (que, aliás, mostrava dois amigos indo às vias de fato) pra só ouvir o drama através da porta. Era Nelson Rodrigues misturado com Ariano Suassuna, pincelado com requintes de Clarice Lispector... Quer saber? Era vida real.
Desliguei a TV.
Uma puta. Um garanhão. Um marido corno. Um frango. Uma mulher traída.
Cena de abertura:
A mulher marca um encontro com o amante enquanto o marido trabalha. Ele chega mas, nem tão discreto assim, chama a atenção do vizinho gay que é apaixonado por ele. De vingança, o vizinho vai direto falar com a esposa do Ricardão. Corta.
Cena dois:
A mulher traída, ao invés de ir “dar o flagrante”, liga pro marido da outra. Ele, que trabalha em Cavaleiro, pega três ônibus pra chegar em casa e vem inflamado. Invade a casa do cabra safado do amante e desce o pau. Corta. A cara dele.
Cena três:
A esposa do amante vai bater na casa da dita cuja. Arranca a distinta pelos cabelos e dá-lhe uma sova ali mesmo, no meio da rua. Junta gente. A gritaria é imensa. Alguém joga uma pedra que espatifa uma vidraça.
Cena quatro:
A polícia chega. E o povo começa a gritar: Cardinot!Cardinot! Tenho vontade de rir, mas a coisa é séria. Não dá pra zoar. O tal do delator, motivador de tudo, quer agora descobrir quem chamou a polícia. Os ânimos se acalmam, mas vai o lote todinho pra delegacia.
Cena cinco:
Cinco da manhã. Levanto e vou ao quintal… O Ricardão chora copiosamente. É um homem imenso. Ouço seu lamento do outro lado do muro. Uma voz de mulher o consola.
Cena seis:
O dia amanhece. Vou comprar o pão. Gente, gente, gente! O sol fica quente. O moço se queixa na calçada. Diz que perdeu a cabeça, que nunca tinha sido fichado na delegacia.
Cena sete:
Volto pra minha vida, pro meu mundinho. Mas não ficou igual não. Descobri que a vida pode ser ainda mais visceral, mais intensa, mais perigosa, mais aventureira. E quer saber?
Prefiro a minha mesmo. Justinho assim. Cheiro de vida doce, de alma lavada, de trabalho realizado. Rotina de rotina. Fico segura no meu programa diário.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um caso à parte


A minha melancolia não interessa a ninguém. 
E nem deveria interessar a mim mesma. 
A minha melancolia é um ser. E faz parte de mim. 
Assim como quem carrega um feto que não tem parto, assim como quem tem um sinal, um tumor, uma hérnia.
Ela se alimenta do que não gosto, cresce nos momentos mais frágeis.
Engorda com minhas dores.
Minha melancolia fala. É uma voz monocórdia, sem flexões nem melodia. Grave, sucinta.
Não se diverte. Não ama. Não é flexível.
Mas é minha. E eu a carrego no peito.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Não quero rejuvenescer!


Hoje alguém me receitou um complexo vitamínico. Disse que rejuvenesce.
Disse que combate os radicais livres e que eu tomasse combinando com vitamina C.
Aí fiquei pensando que não quero isso pra mim.
Não quero rejuvenescer.
Não quero a ansiedade da juventude.
Não quero o imediatismo dessa época.
Gosto de mim mais madura, mais inteira.
Claro, quero estar bonita.
Mas eis a grande pulha: ficar mais bonita é REJUVENESCER!!!!
Rejuvenescer é elogio. Ficar velha é insulto.
Eu quero mais é viver. Envelhecer bem, saudável e bonita.
Mas não quero rejuvenescer, correr atrás do tempo perdido (que, definitivamente, eu não perdi).
Vivi cada segundinho de cada momento ínfimo.
Se tem uma coisa que a maturidade não matou em mim e que eu faço questão de cultivar é a minha intensidade.
Penso como é difícil envelhecer numa cultura que só pensa em rejuvenescer.
E não é um pensamento conclusivo. Acaba assim mesmo...

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...