sábado, 6 de junho de 2020

Coração de poeta

Faz dias que as teclas me cobram um texto. Há dias que a cabeça rumina. São frases, são dores. Escrever sobre uma dor que é maior que todas. Escrever como mãe.... escrever como mulher. Escrever como militante... escrever como poeta.
Esta última é a alcunha mais difícil de carregar. De todas, a que não está estampada no meu corpo nem nos meus gestos. De todas, a que melhor se posiciona, de todas, a mais invisível e a mais contundente das minhas personas. De todas, a mais visceral.
A mãe sabe onde pisa. A mulher, aprende novos caminhos. A militante, traçou suas convicções. A poeta, transita entre todas. Se ressente, se emociona, se desmancha e se refaz. A poeta não tem estratégia, não tem certezas. É carne viva se construindo. Não tem métrica, nem rima. Uma rama que se esgueira por entre os espaços, que fixa suas raízes e se contorce.
Faz dias que meu sangue envenenado pelo ódio alheio, pelo descaso e pela injustiça segue por veias aleatórias, como quem vaga por uma rua escura numa cidade vazia.
Um poema atravessado pela dor do mundo. Uma semana esculpida pela violência, mapa astral tenebroso de um tempo.

#Justiçapormiguel

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Carta ao filho caçula, adulto II

Filho,

Amo tanto esta foto! 





Seu primeiro ano de vida, eu agarradinha em você, sua mãozinha acarinhando meu rosto... e os dois olhando pra frente. De testemunha, o infinito mar...
Vejo nós dois com expressões de alegria. Um relicário, esta imagem...
Hoje você faz 22 anos.
Que data rica em possibilidades, em caminhos e em vida!
Como a gente já tem história pra contar!
Diariamente construindo um laço cada vez mais firme, seguro pelos fios da confiança e do amor.
No seu nome, eu trouxe a luz. Luís.
É hora de estar ao seu lado, assistindo a sua caminhada.
A vida, meu filho, está nas suas mãos.
Persiga seus sonhos. Insista neles. Acredite, sempre. Sonhos são ótimos combustíveis. Mas ouça também suas intuições. Mantenha os olhos abertos.
Você tem a estrada iluminada pela frente. Com todas as lutas, conquistas e histórias a construir.
Cuide de quem você ama, mas sobretudo, cuide de você.
Eu estarei sempre no mesmo lugar. Braços abertos, mãos solícitas e um desejo imenso de contribuir e ser figurante no teu protagonismo.
A vida vai se insinuando. E vai ser lindo!
Feliz 22 anos e todos os que virão!
Beijo grande meu filho.E minha bênção.

domingo, 31 de maio de 2020

A primeira torta de limão


Não... Não é apenas uma torta de limão.
É a tentativa de unir na existência o doce e o amargo.
É o laboratório de novos sabores num tempo insosso.
É a construção de memórias de prazeres neste calendário aleatório. Todo dia quase tudo igual.
Lá no futuro, lembrarei do último domingo de maio. Na TV, protestos ao vivo no Brasil e nos Estados Unidos.
Na minha cozinha, bato a revolta com ovos e açúcar.
Até quando estaremos "harmonizando" as distâncias sociais?
Até quando o abismo vai ser a fronteira?
Exercito na cozinha a primeira torta de limão.
Nas ruas, polícia.
Nas ruas, cidadãos.
Apoiar a democracia me parece um ato subversivo.
Choro sentindo que ingatamos a marcha a ré...
A torta ficou mais doce que a vida... Queria ter imprimido nela um pouco do amargo...

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Café com pão


Começo meu texto pedindo desculpas. Por ser cada vez mais escriba da vida privada. Por utilizar minhas figuras de linguagem a partir das experiências do cotidiano. Pode parecer a você que quero banalizar o sentimento do mundo, quando faço analogias com o que se conversa na mesa da cozinha...Minha tradução da quarentena.
O borbulho do café subindo na cafeteira italiana  já gasta, antiga e cheia de histórias é o prólogo, quase sempre. A gente senta e divide. Cada vez a cafeteira fica menor... é esta a impressão. Repetimos a operação e enchemos mais uma vez as xícaras. Não são confissões. Não são confessionários. Às vezes é silêncio. Às vezes, cada um pega sua xícara e segue para o seu canto, seu mundo. O aroma perfuma a casa e a gente se irmana nestas ondas.
Há sempre a possibilidade de um café.
O confinamento nos traz um olhar pra dentro, mas tem a dor do mundo todinho morando na sala de estar. E conversamos sobre o que aparece na TV, sobre o mundo talvez melhor um dia. Sobre política. Falamos sobre o gato, o cachorro. Sobre a chuva e o calor. Sobre You tube, sobre o passado.... sobre acalmar a mente e esperar.
Olho pra um dos filhos. O mais velho. Já homem, na comissão de frente da pandemia. Mas vejo nos seus olhos o mesmo tom de vinte anos atrás. Lembrei hoje de quando ele chegava da escola e por ventura eu tinha mudado uma mesa de lugar. Parecia que não era mais a casa dele. Ele reclamava, ameaçava não almoçar. “Quero minha casa de volta”, ele bradava. Eu achava engraçado aquele menino de olhinhos de jaboticaba e cabelo de milho e frases tão firmes. Ele cruzava os braços e sentava amuado num canto da sala. Deve ser a lua em capricórnio, eu divagava. Hoje a expressão é a mesma. Não é mais a sala de casa o cenário. Ele está na UTI Covid. Num posto de saúde na Zona Norte. Sim, filho... tudo está fora do lugar. Desta vez é você quem precisa ajudar a colocar tudo em ordem.
O mais novo, olhos grandes e cabeça no mundo. Lembro que ainda recém nascido dormia melhor quando estava comigo. Nasceu no semestre da minha formatura na UFPE. Fiz a
maioria dos trabalhos finais com ele junto. Editei vídeo, escrevi relatório como uma mãe canguru. Ele está confinado cem por cento comigo. Conversas, xícaras de chá, lavamos louça e cuidamos do lixo. De quando em vez deitamos no tapete da sala e assistimos a programas policiais. Preparamos o ambiente. Almoçamos no chão mesmo. Varamos às vezes a madrugada. Engraçado como a gente tem a essência constante. Quando ele tinha dois anos, fiz uma cirurgia. Ele colocou um monte de brinquedos no meu quarto e ficou ali o tempo da recuperação. Dias e dias. Ontem me deu uma dor nas costas – do peso do tempo que carregamos – e ele repetiu o gesto. Ficou junto, dormiu na rede do quarto. Tô aqui, mãe.
Eu, neste novo ordenamento, me encontro mais aberta para percebê-los. E soltá-los. Perceber os movimentos. Para onde apontam as vidas adultas que nascem em cada um.
Já são dois meses. O compasso deste tempo infinito. O compasso da vida ritmada. A viagem pra dentro.
As lições de privilégio e desamparo na vida afora. Noves fora... estamos em barcos diferentes nas mesmas águas.
Na mesa da sala aprendo a fazer pão. Minha energia toda na sova da massa. O tempo da fermentação. O ponto certo do forno. Um alimento sagrado que serve de repertório de amor. A mente conectada com esta tarefa ancestral.
Esperamos o tempo de abraçar e voltar a sentir o vento no rosto. Enquanto a massa descansa, passo mais um café

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Meditação

OMMMMMMM
No prédio vizinho alguém toca o hino do homem da meia noite.
Ajusto a coluna e foco na respiração
O clarinete rasga a tarde muda
Sente o corpo em contato com o chão
Hoje esqueci de pagar o aluguel
Inspira profundamente
Uma dorzinha de cabeça...
Expira
Nunca mais eu toquei piano
Queixo na direção do esterno
O gato decide morder minhas mãos, em Gyan Mudra
Deixa o pensamento ir
O gato agora decide afiar as unhas no banco do piano.
Segura a respiração por 10 segundos
Olho pro lado e ele está acabando com o estofado, mas olha fixamente para a minha posição de lótus
Solta o ar len-ta-men-te
E a imagem do calunga do bonsucesso aparece.
Cabeça na direção do céu
Amanhã é o aniversário de Dora e depois chega maio. Uma penca de gente...
Foco na respiração e ajusta a coluna
A dorzinha de cabeça se foi
Sente o ar entrando frio pelas narinas
Tomei uma long neck na hora do almoço
Esvazia a mente
Quando eu penso em parar de pensar já estou pensando
Exercita a presença
Lembrei dos meninos quando pequenos
Esse confinamento....
Inspira
.....
Expira
.....
Inspira
.....
Olhos voltados pro nariz
....
Ins..pi..ra
....
Ex..pi..ra
....
Amanhã eu pago finalmente o aluguel
....
OMMMMMMMM

terça-feira, 28 de abril de 2020

Liberdade pra dentro




Nas entranhas. Nestes dias de confinamento, quarentena, isolamento social, distanciamento afetivo, ando entrando em contato com minha geografia interna. Os vulcões da psiqué; os vales das lembranças e memórias; os pântanos das crenças. Montanhas e mares. Lagos com monstros, cascatas imensas....
Liberdade pra dentro.
Eu nunca tinha pensado nisso. Liberdade era, até uns 40 dias atrás, poder ir e vir, pensar livremente. Falar o que pensa. Ouvir todos os argumentos com respeito e escuta ativa. Não é retiro espiritual.
Liberdade pra dentro.
Me parecia que o “pra dentro” era limitado.Isolado, talvez. Eu ignorava solenemente a infinidade de possibilidades do ser. A liberdade externa limitava o estar.
Vai entender.... Não desconectei com o mundo lá fora.
Liberdade pra dentro.
Rendeu algumas noites insones. Pra dentro é revolução nada silente. Você fecha a porta de casa e encontra outros caminhos. Mansamente, imensamente e profundamente, eu dei o passo. Sem GPS. Sem placa indicativa. Sem ponto de referência.
Liberdade pra dentro.
E aquela liberdade antiga, quando voltar a existir? Liberdade pra dentro pra aceitar as convicções e o nosso DNA sensorial.
Liberdade pra dentro.
Liberdade total.


terça-feira, 14 de abril de 2020

SE QUERES SER UNIVERSAL, CANTE SUA ALDEIA (LEON TOLSTOI)




Eu acordo muito cedo e corro para olhar o varal. A calça jeans, mais precisamente. Tinha estendido às 19h. Já percebi que às vezes ela seca, às vezes preciso passar o ferro bem quente pra ela estar prontinha. São umas 6h. Está meio úmida no cós e nas extremidades das pernas. Melhor ajudar a natureza. A noite foi úmida. Não choveu, a propósito. Mas quase sinto a gotas microscópicas suspensas no ar. Sinto a pele que encharca de um suor grudento. Sinto as nuvens densas. Um tipo de algodão doce que eu cortaria com uma faca, de tão sólidas.
Levanto da cama e os pés doloridos, o corpo relutante. Hoje é o dia 28. Quase um mês. As plantas dos pés demoram a aceitar o caminhar no piso de taco. Um ou outro solto. Um ou outro desnivelado. Um ou outro mais claro, mais escuro. Me sobra tempo hoje em dia para pensar nos tacos que cobrem o piso do apartamento. No caminho até a área de serviço. Passando pela cozinha, o piso fica vermelho, uns tijolinhos que já dão sinal de desgaste. Uns, meio desbotados, mais esbranquiçados. Quem olha pra isso? Eu vejo recados do tempo.
Chegando na área de serviço, o varal. Colorido, nossas histórias pingando e cheirando a amaciante. Quarando. Nunca, nunca um varal teve tanto significado. Nunca nossos corpos foram tão bem representados, presos por pregadores de plástico. Ligo o ferro e deixo esquentar. O contato com a calça úmida faz subir um leve vapor. Estado gasoso da água. Devolvo a calça pro lugar que estava pra pegar um ar.
Eu tenho procurado valor em cada gesto cotidiano. Na cozinha, a alquimia do afeto que cura. O sabor que une. A memória do perfume que transporta. Na arrumação da casa, o aconchego. No varal, nossas roupas limpas, a renovação, o “começar de novo”. Esta rotina limitada aos metros quadrados da casa. Eu canto a minha aldeia, num tempo em que o espaço físico-geográfico perdeu seu sentido.
Uma vez por dia abro a porta do apartamento e passeio pelo jardim. Levo Bangu pra respirar. Motor, o gato, fica emoldurado pela grade da janela. Pela tela que tudo envolve. É a nossa rotina. Bangu fareja as flores, come umas folhinhas de cidreira. Eu acho curioso. Onde já se viu cachorro gostar de comer ervas?
Geralmente saímos quando o dono da calça jeans segue pro posto de saúde. Tem dia que o plantão é na UTI.... Banana comprida com canela, queijo assado, inhame, pão com geleia. O café é de lei. Não importa o cardápio. Importa sentar à mesa e trocar umas frases, olhar no olho e abençoar o dia. O meu e o dele.
Os minutos de diálogo à distância. “Não chega muito junto, mãe”. Sem beijo, sem abraço. O meu primeiro menino está no front. Ele segue doce e sereno. Nem sei se é assim somente quando está na minha frente. Não sei se de noite, de luz apagada, ele experimenta outros sentimentos. Eu tenho rezado. E cuidado. E velado. E acreditado. Todos os dias.
Mais tarde normalmente o meu outro filho acorda. Levanta e conta dos sonhos que teve. Fala de história, de política. Enche minhas horas de palavras, de ideias, de novos conceitos. Gosto de chegar perto e deixar a mente aberta. Deixar tudo fluir. São horas contadas em xícaras de chá. A noite, no jantar, procuro agradar ao nosso paladar. Tenho errado, a propósito. Tenho acertado também. Assim, como na vida. E o dia se vai.
Estamos confinados. Fazemos algum esforço pra não pirar. Respeitamos nosso silêncio. E a rotina quebrada, que buscamos alinhavar com o fio da delicadeza.
O tempo passa, invariavelmente. Outra unidade de vida é curtida nos potes da espera.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...