domingo, 28 de março de 2021

com meus botões

 

Os botões abriram do dia pra noite, na contramão de mim.

Os botões, que anteontem estavam fechados, floriram. 

Brotaram. 

Floresceram­­.

Eu, na contramão dos botões.

Eu, na crosta que nem marisco.

Plantei meu coração num terreno pouco fértil, talvez.

Reguei, dei sol e chuva para as folhas.

Mas nasceram, no lugar de flores, mariscos herméticos.

Fecho os olhos e imagino esta figura de linguagem.

Um vaso com uma plantinha de longas folhas verdes, de onde brotam conchas.

Um híbrido. Lugar nenhum.

De onde não se espera o frescor de um perfume, nem frutos doces.

Invejo, quase, os botões.

Só não os invejo mais porque não sei o que fazer em flor. 

O que fazer com o tempo ao léu, onde depositar o orvalho do alvorecer.

Como lidar com a brisa...

Os botões abriram e o ciclo se acelera.

Em breve as pétalas vão adornar a mesa, amareladas pelo tempo inevitável.

As conchas devem abrir quando o marisco estiver pronto.

Hiato que não se sabe. Armadilha que se desarma.

Eu, na contramão dos botões.

quinta-feira, 18 de março de 2021

meus olhos pequenos


 

- Como é que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Eu sempre gostei de ler, desde que aprendi a ler. Sempre gostei de escrever. Sempre gostei deste encontro com os livros. Um diálogo com o escritor, nem sempre possível pessoalmente. Um debate silencioso, gritando nas cabeças, fazendo novas conexões e sugerindo imagens, sons, lugares, rimas....
- Como é que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Essa era uma pergunta que eu, criança, repetia sempre. Um olhinho tão pequeno.... enxergando um prédio imenso! Eu pendia a cabeça pra trás ao máximo e fitava o céu. E tudo aquilo cabia ali dentro daquela bolinha de gude plantada na minha face.
- Como é mesmo que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Desavisada, no meu mundo infantil, cresci com esta crença. Era também o olhar pra dentro... como é que um olho tão pequeno, enxerga coisas tão grandes da alma? Como é que, vendo só pra fora, a gente enxerga pra dentro? Como é que, havendo tanta coisa grande, a gente enxerga o que não se vê?
- Como é que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Desavisada, agora pela manhã, abri o livro de Valter Hugo Mãe. Me dei de presente dez minutinhos de conversa com ele. Uma licença da realidade, pra colocar a cabeça no lugar.
Queria dizer a VHM que o livro que estou lendo, “a máquina de fazer espanhóis”, esta reflexão sobre a morte, caiu como uma luva na minha vida pandêmica. Queria dizer a ele que, daqui do “brasil” (ele escreve assim, sem exclamações, travessões, letras maiúsculas...), daqui desta lonjura do brasil, em algum lugar nos encontramos. A paz que não existe com a notícia de termos mais de 3.100 mortos ontem.... ual é o antônimo de paz, a propósito... começo a achar que não é a guerra. Começo a encontrar outros sentidos fora do dicionário.
E meus olhos bola de gude acabaram se abrindo para um universo largo, profundo e desejoso de respostas, todas mudas até agora.
- Como é que um olho tão pequeno enxerga uma coisa tão grande?
Me vejo puxando a saia da minha mãe, querendo que ela olhe pra baixo e me responda. Mas, não.
Ao contrário, sinto um nó aqui no estômago roubar a fome. Sinto que a dor do mundo inteiro está sentada no meu sofá. Sinto imensamente o desalento social se avolumando na minha porta.
Sinto e vejo.
Vejo e marejo.
Viro a página do livro e me vem a resposta em forma de confirmação.
Sim, o escritor me respondeu. Ele me disse que tem as mesmas inquietações que eu.
A dor do mundo não tem tamanho. Os descasos também não.
A vida, imensa, passando pelos meus olhos estrábicos. Talvez por isso mesmo, eu enxergue demais.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

saudade é este rastro, 

este perfume na memória, 

o sorriso que já foi, 

a alegria da lembrança, 

a tristeza da falta, 

a certeza do sempre.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Vai passar

 Uma saudade, uma nostalgia...

Me sinto agreste no litoral.

Me vejo em cores pastel.

Uma foto antiga me traduz melhor.

Uma música tocando longe já cedinho, anunciando a sexta de momo.

Tinha Lily... 

Me sinto sertão na mata.

Um dia, choveremos a folia novamente.

Abraçaremos com o suor salgado e encontraremos os olhos borrados, maquiados, mascarados ao léu, ao azar.

Cabeças e corpos e mentes entregues a uma louca utopia.

Primavera do frevo.

E esta música que não desiste de lembrar que seria carnaval. Um som distante e permanente...

Decido ir ao mercado comprar água sanitária e outras coisinhas. 

Quando entro, tem Claudionor Germano tocando no som ambiente.

"Isso aqui ainda vai pegar fogo quando o frevo esquentar"...

...


Eu me perco mas gôndolas. 

Quando finalmente me oriento, na fila das pequenas compras, fico ali zapeando um sem número de fotos nostálgicas.

#tbt infinitos de momentos vividos.

Passeio por entre meus ritmos. 

Deslizo nas memórias e digito a senha do cartão no automático.

Me sinto em algum lugar muito frívola. O país não cessa o luto. Uma pandemia se estende e se alastra.

Mas temos conosco as lembranças.

Vai passar. 

Vai passar.

Vai passar.

O Poeta já cantou estes versos.

Um tempo, página infeliz da nossa história...

Não vou terminar este texto. A sensação é de coisa aberta, bordado pela metade, gás que acabou antes de o café subir.

Vai passar.

Tomo um trago de poesia, mas não me embriago.


A imagem é a arte de Ana Catarina Mousinho

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

O livreiro


A gente não some de vez. A gente vai sumindo aos poucos. Cada casa demolida, um teatro que fecha, um cinema que vira igreja...

A gente vai perdendo os pontos de referência. 

- Naquela esquina era uma loja, virou farmácia.

-A padaria da infância virou arranha céu.

- A livraria que fechou.

Hoje eu acordei me sentindo menos daqui.

Hoje uma refência da cidade se foi.

Não era cinema, teatro ou igreja.

Era uma figura humana que se expandia para além do corpo e vai continuar se expandindo para além do tempo. 

Onde era a livro 7 hoje talvez seja uma loja de cosméticos. 

Eu ia lá sem grana. Lia uns livros "à prestação". Sentava e me sentia em casa.

Devia ter uns 15 anos...

Comecei a juntar uns trocados pra comprar os títulos que mais gostava.

E a figura de Tarcísio, mesmo não sendo próximo, era referência.

Eu simplesmente sabia quem ele era.

Hoje precisei de algumas palavras para explicar ao meu filho o que era a Livro 7. 

Um lugar que não existe mais.

Mais que um lugar!

Uma ideia.

Hoje foi Tarcisio quem partiu.

Tarcísio não era dono de uma livraria. Ele era um livreiro. 

E pensando bem, não era livraria. Era um espaço de cultura.

Ando cansada de ir procurar livros e só encontrar best sellers "remakes" de filmes ou vice versa.

Ando desesperançada de perguntar por Florbela Espanca. 

Ou por Ana Cristina Cesar...

As prateleiras não me surpreendem mais.

Hoje foi Tarcisio Pereira quem partiu. 

E eu sumi mais um pouco com a partida dele.

domingo, 24 de janeiro de 2021

FANTASIA SEM NOME



Hoje de tarde um vizinho do prédio ao lado começou a tocar um clarim. Rasgou a paz da tarde de domingo com o hino do homem da meia noite.
Papapapapa... pararapá... pararapá....
Tocava num ritmo lento, mastigando cada nota.
Aquele sopro solitário no céu nublado. De repente, uma chuva faz subir do chão o mormaço. Tão Recifense, este cenário!
O músico solitário repetia a melodia... e meu desalento o acompanhava. O bloco solitário.
Uma melancolia batendo à minha porta. Uma coisa fora do lugar... Nesta pandemia eu me virei do avesso. Me reinventei. Estudei. Cuidei de mim e dos meus. Driblei aniversário, tirei de letra as festas mascaradas de final de ano. Mas não estou conseguindo metabolizar a saudade do carnaval.
O ritual sagrado da festa profana. O ambiente de congraçamento, de confraternização. A licença poética de ser quem quiser.
Eu dizia sempre: este ano não vou brincar. Já era tradição. Na família, já era graça. Aí, um dia, tirava do armário a mala de fantasias, “pra tirar o mofo”. E vinha a primeira prévia... e como eu já não ia brincar, era melhor aproveitar! E me esbaldava, e fazia que nem visita indesejada: ia ficando. Ia pulando. Ia me embriagando na cachaça do passo, na beleza do brilho. Pulava do frevo pro maracatu. Acordava caboclinho, dormia baque solto.
A festa começava como quem não quer nada.... aquela coisa que entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé.
O carnaval sempre foi a festa mais importante do meu calendário.
Racionalmente, sei que não podemos ter a folia em 2021. Eu defendo que a gente precisa ficar em casa.
Mas como carnaval não é nada racional, a alma... ah... esta alma foliã está amofinada. Amuada e arretada. Vai ser o jeito segurar firme o sonho pela mão e levar ele direitinho até 2022.
Dessa vez eu quero brincar e não tem carnaval. A minha fantasia mais inesperada.
Fico em casa imaginando no próximo ano o tanto de gente vai sair de coronavac, de Butantã, confinamento, de vírus... de super imunizada!!!!
Chego a sentir o calor do mormaço subindo pelos pés enquanto eu subo a misericórdia com o sol pelando de quente.
Chego a rir sozinha quase antevendo a folia temporã.
E quando finalmente eu abrir novamente a caixa de maquiagem, desembrulhar o sem fim de brilhos e a coleção sem noção de adereços, vou inventar uma fantasia sem nome. Vou vestir o melhor delírio e me enfronhar ruas afora.
Viver intensamente a democracia republicana do reinado de momo. Minha contradição. Meu melhor sonho. Meu carnaval.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Euforia



Havia uma certa arrogância na forma como ela usava aquele perfume francês. Uma displicência, ou seria um desleixo... Anos a fio usando o mesmo perfume, de domingo a domingo, na tentativa de imprimir uma personalidade, uma marca. Triste objetivo!

Pra dentro, lá no fundo, ela sabia da sua insegurança. Tinha medo de falar, de expor as ideias. Tinha medo da própria alma de artista que, de quando em vez, escapava e se anunciava pela boca. Mas a voz parecia agarrada na garganta, perdia a potência a cada vez que ela falava de si. Era tanta dissimulação que às vezes nem ela mesma sabia o que estava vivendo. Quando tentava falar, as mãos gelavam instantaneamente. Melhor não.

Havia uma certa arrogância, sim, de creditar ao perfume Kalvin Klein, francês (como é isso mesmo???), um traço da sua personalidade. Essa coisa imaginária, que um produto qualquer que seja, possa te traduzir.

A arrogância da imaturidade, que teima em rotular. Quem tem rótulo é perfume, aliás. Gente não deveria ter. Aquele vidro sinuoso, que lembrava o símbolo do oito deitado, do infinito, era a imagem da sua prisão. Infinita. Uma prisão de prata e com o líquido lilás. Uma prisão que aumentava à medida em que o conteúdo do frasco se esvaía. Evaporava junto com a sua certeza.

Pensando bem... não era “certa arrogância”.

Era pura arrogância. Um extrato concentrado.

Só que travestida de elegância, fantasiada de alma minimalista. O nome do tal aroma? Euphorie. Traduzindo: Euforia.

Euforia.

Atitude, sentimento, saída de emergência para os corações inquietos.

Euforia, a alegria superficial.

No seu dicionário, euforia poderia ser definida como escudo. Um estado de alma para quem vivia em estado de sítio.

Por décadas, o aroma chegava antes dela. Era sol, era chuva... era feira ou casamento. Ela usava o mesmo perfume. Talvez, a única constância no seu estado de espírito.

Colecionava os vidros vazios, de vários tamanhos. Chegou um tempo em que ela nem comprava mais o perfume. Quem viajava pra fora já sabia o presente que deveria trazer. As amigas sugeriam cremes, hidratantes, vitaminas, eletro eletrônicos. “Traz um vidrinho de euforia pra mim?”, ela humildemente sugeria.

Um vidro de euforia. Uma dose modesta, ministrada em borrifadas diárias. Uma droga que talvez sua porção infantil como um super poder.

Até que um dia, o perfume foi ficando pesado. Pesava nas roupas. Uma coisa parecida com uma cola. Foi deixando a euforia da arrogância de lado. O que ela iria colocar no lugar???

Parou de pedir as encomendas internacionais. Uma vez pediu uma caixinha de música que tocasse “What a Wonderful Word”. Meio esquisito...

Passou a usar o perfume somente quando saía pro trabalho, “pra economizar”. Sentia nas suas roupas guardadas, repentinamente, o toque meio adocicado e aquilo em algum lugar alfinetava. A arrogância persistente do aroma trazia um incômodo profundo.

A sensação de nunca sair do lugar.

Deixou acabar o último exemplar do estoque. Uma coisa qualquer não fazia mais sentido.

Ficou sem cheiro. Passou a sentir seu próprio cheiro, aliás.

Era muito novo.

Sem contorno.

Seria ela?

Foi na farmácia da esquina e comprou uma lavanda. Gostou de usar em plena luz do dia uma lavanda tão comum. “É ótima pra ir à feira”, ela definiu.

No dia seguinte, acordou e quando já ia saindo pro trabalho, da porta, voltou. Olhou pro vidro de  euforia vazio. A coleção de vidros inúteis na penteadeira, como um memorial da sua vida.

Foi ali no armário do banheiro, abriu o frasco de plástico transparente esverdeado e aplicou no cangote, nos pulsos e depois esfregou as mãos uma na outra. O mesmo gesto repetido por décadas. O mesmo gesto mecânico.

Quem vai me rotular agora?

Estava sem o escudo... ou seriam as muletas?

Deu os primeiros passos desconfiada. Foi experimentando outras essências. Foi brincando de cheirar, de sentir. Eram outros tons e cores e notas.

Um dia, como se nada mais fizesse sentido, pegou um saco grande de lixo, aqueles de plástico fosco preto, colocou todos os vasos vazios. Embalagens e rótulos de um tempo vivido. Deu um nó e levou pra área de serviço.

“Amanhã passa o lixo e levo lá pra fora”, pensou quando fechou a porta da cozinha. Tanta coisa guardada por tanto tempo, tanto tempo guardando tanta coisa! Ela tentava afugentar o trocadilho infame do luxo e do lixo. Do lixo luxuoso...

Não havia euforia na sua atitude. Sua busca mais profunda começara naquele instante. Seria preciso ter faro e sensibilidade para as novas fragrâncias da vida. É preciso achar um perfume menos forte pra identificar onde cheira mal.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...