sexta-feira, 16 de maio de 2014

sem pontos extra....


Eu não tenho dotz.
Não gosto de shopping.
Não me faz bem fast food.
Tem uma coisa marinando na panela da minha existência.
Um cozido lento, fogo baixo, pouco sal.
O aroma incensando a alma e abrindo os sentidos.
O vapor entra pelos poros enquanto eu mexo devagar o guizado.
E vai impregnando na roupa,
Como uma tatuagem invisível.
Eu não tenho pontos bom clube.
Não acumulo muita coisa.
Mas tem  um canto aqui, sem nome,
Espaço infitino.
Lugar onde se maturam os sentidos.
Não guardo sentimentos.
Nem milhas no cartão de crédito.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pescador de Nuvens


O céu é o mar do sertanejo. 
O sem fim. 
Cada homem com seu sonho.
De tão poderosos, são deuses.
De tão íntimos, são azuis.

terça-feira, 29 de abril de 2014

No Recife

Moro no Recife. 
A cidade do poeta sem rosto. A cidade onde Ascenso foi agredido. 
Moro no Recife. 
A cidade do frevo. A cidade onde o frevo só toca quatro dias no ano...
Recife do saudosismo de Antônio Maria e da minha frustração. 
Moro no Recife. 
A cidade das águas. Por isso mesmo, o esgoto teima na minha porta. Teima e fede. 
Moro no Recife. 
Da ciclofaixa de fim de semana, que ignora os trabalhadores ciclistas.
Dos centros culturais pela metade.
Do Teatro do parque abandonado.
O Capibaribe de testemunha.
O poeta sem rosto é a cara do Recife.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O meu Bach




Ele era craqueiro. Ou é. 
Não sei se anda perambula por estas ruas.
Usuário de Crack, para os politicamente corretos. 
Pouco importa.
Foi uma conversa rápida. Importa ainda menos.
A verdade é que eu estava tocando Bach e vi que alguém me observava através da janela aberta. Eu resistia em parar aquele quebra-cabeça musical. Bach me dá uma embriaguez. Sua música intermitente, suas notas insistentes e seguidas, seu som exacerbado. Às vezes é rock. Às vezes é hard.
Uma ausência de pausas.
Tocar Bach me deixa com o torpor parecido ao de uma corrida. Aquele prazer sem fim que o cansaço não vence.
E por isso mesmo, eu relutava em olhar para a janela. Do outro lado da grade branca com arabescos coloniais, minha platéia era solitária e muda.
Enfim quando a curiosidade me venceu, vi um homem devastado. Chorava. Pedia desculpas por estar ali. E me dizia: a vida é muito dura, mas ouvir esta música acalma qualquer dor.
Lá no fundo do meu lugar burguês eu achei que ele ia pedir uma moeda pra interar o almoço. Tantos fazem isso. Mas continuei na conversa. Expliquei que era Bach. No lugar da moeda, ele me pediu Beethoven, mas eu não tinha nenhuma obra do mestre na manga.
Toquei ainda uns 10 minutos e meu observador continuou ali de pé. Se despediu.
Continuei minha brincadeira barroca.
Um tempo depois ele volta. Não resistiu. Chorou feito criança. Pediu desculpas de novo. Chorei junto.
Dias depois estava eu na padaria. Quando saí na calçada, quase fui atropelada por um homem completamente drogado, desfigurado. Ele olhou pra minha bolsa com gana. Eu era a garantia da lombra seguir firme.
Fixei bem nos olhos dele, me pareciam familiares. E foi aí que ele desmontou. Ele começou a gritar: é a pianista, pianista!!! Olhou pra mim, bem mais profundo do que eu olhei pra ele e me disse: você tem o dom.
Eu emudeci.  Sorri, mas ao mesmo tempo queria chorar. Aquele homem tinha tanta sensibilidade que poderia ser meu parceiro musical. Ou um grande maestro. Ou qualquer coisa que quisesse na vida.
Ele não se demorou muito. Seguiu no seu caminho alheio e cambaleante.
Desde então, abrir a janela e tocar piano tem outro significado.
Este é o meu projeto cultural. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Abastecida



Deve estar fazendo uns 32 graus. Trinta e dois graus úmidos em pleno centro do Recife. Saio da Rua do Lima e busco em vão um taxi. Meio dia. Ou estão almoçando e deixam os táxis de enfeite nos pontos, ou não estão. Não sei quais motoristas são os piores. Decido ir a pé. O meu salto meio alto não está incomodando.
Mas as calçadas irregulares me desafiam. Abaixo, pedras, buracos, desníveis. Acima, o sol castigando. É verão, minha cara. A estação do calor enlouquecedor e do ar pesado de chuva. Chove a qualquer momento. Chove e o asfalto libera um mormaço que quase sufoca.
Meu sapato de salto começa a dizer que existe. Estou na metade do caminho. A fome começa a apontar e lembro que este regime não dá trégua. Chegou a hora, a fome bate na porta. Tento andar mais rápido, mas o sapato doi pra valer.
Procuro as sombras das árvores da rua do Sossego. Estou quase lá.
Imagine a cena.
O suor começa a fazer caminhos engraçados nas minhas costas.
Deve estar fazendo uns 32 graus. Mas a sensação térmica  é de muito mais. A fome me leva a ver ovos sendo fritos na calçada de Abelardo da Hora. Ou seria melhor na porta de Paulo Brusky?
Passo pelo Iraque. Calor de deserto.
Meu sentimento não faz jus à rua.
Minha fome medíocre não é artística nem é estética.
Chego no primeiro restaurante. Escolho o prato. Não tem legume, senhora. Posso trocar por alface? Pode.
Passam-se uns 3 minutos. Não tem salmão, senhora. Pode ser maminha?
Você pode me trazer a conta? Quanto custa o chá gelado?
Saio sem raiva, mas a fome grita.
Paro em qualquer lugar e peço uma salada. O queijo ricota era de trezantonte.
Parei ali, em frente àquela salada engenbrada e pensei no afeto necessário para se sentir abastecida.
E estou abastecida. Construí alguns portos seguros. Olho em volta e vejo tudo tão suave. O garçon enlouquecido, a mesa com a toalha de plástico suja. O homem que cata as latinhas.
Estou meio Poliana.Cada vez mais integralmente eu. 
Deve ser isso mesmo. Eu ando abastecida. E isso o calor não deforma, o sol não derrete.
Hoje, somente um dia, um pequeno espaço de tempo. Hoje eu estou vendo o mundo com cores leves.
Não importa a caminhada infame da rua do Lima ao Sossego. Não me interessa o trânsito, a incompetência dos taxistas, a falta do troco na hora de pagar a salada, o café frio do escritório.
A fome passou.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pausa de semibreve.

Até agora ninguém percebeu que eu matei.
Crime sem provas e sem rastro. 
Sou minha própria vítima. 
Ando pelas ruas e pareço uma pessoa normal. 
Mas não. Meu me matei. Não é suicídio. 
Falo de outro  tipo de morte, talvez mais lenta. Mais cruel.
Mutilação, quiçá. 
Um tipo de asfixia da alma.
E pelas ruas, o que se mostra é a minha figura bem colocada, articulada, às vezes até feliz. 
Na verdade, confesso. Matei pra continuar vivendo.
Legítima defesa.
Matei o sonho e ele de alguma maneira também me matou. 

.....
Acabou.
E acabou acabando, esgotando, esvaindo.
Foi-se.
Fiquei sem referência e talvez sem um pedaço de mim mesma.
Estou sem harmonia, sem ritmo e sem som.
Mas ainda estou. Sou. Existo. Acho.
Sonho jamais. Agora é pé no chão.
Foco e certeza.
Vida de verdade.
Tecla, só se for pra digitar.
Música, só se for pra ouvir.
Nada mais intenso. Nada Fortíssimo.
Felicidade presto.

Pra trás ficou uma longa fermata numa pausa de semibreve. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Gosto de Icapuí

Receitas singelas trazem em seu segredo ingredientes que não existem.
Pelo menos, que não estão à venda, que não podem ser mensurados. Ninguém compra na feira uma xícara de amor.
Ninguém consegue separar uma pitada de gratidão. Estes elementos são incorporados às receitas por inteiro, medida cheia. 
E nunca são demais. 
Amor não faz desandar um bolo. Gratidão jamais embola um pirão.
E quando a receita é de viver, é melhor sentir e conhecer cada sabor.
Meu 2014 começou assim. Ingredientes saborosos, num lugar mágico. Que só existe quando estamos lá.
No meu caldeirão quero jogar o que trouxe comigo. São a base de uma receita coletiva.
Comece por misturar:
A voz da Sol
O olho franco do Magão
O som do negão da loura enchendo a  tarde
O almoço sendo finalizado com a mùsica ao vivo do Manu 
O riso dos Pedros que vinha lá do jogo de uno
Um fio do bigode do Xeu
O olhar doce da Frida (dela eu ainda trouxe comigo, meio escondido, outros lindos souvenires).
Quando esta massa estiver homogênea, lembre de acrescentar ainda:
O olhar confortante da Zan
A mansidão da Érica
A energia da Paulinha
Deixe pegar gosto e salpique, pra finalizar:
Lindos momentos com a Beth, Aline, Rômulo, Fábio, Bel e Marcio.
Lembre dos seus filhos felizes com a brisa forte que dobra a falésia.
Faça uma calda com aquele cheiro que vem do mar.
E você acabou de colocar o Icapuí na sua vida.
Se for consumir, chame o Kirá e o seu violão mágico.
Vai harmonizar perfeitamente.

E não deixe, jamais, de brindar e agradecer por cada momento que viveu.

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...